Primeiro passo

Depois de anos na blogosfera anglófona, é hora de me juntar à lusófona. Porque o português é a minha língua nativa, logo aquela em que eu me devia expressar primeiro, e Portugal tem idiossincrasias que são melhor esmiuçadas num espaço pensado para esse fim, sem necessidade de estar a ultrapassar barreiras linguísticas ou culturais. E porque o ano passado foi de ruptura, em 2017 exige-se uma resposta que eleve bem alto e de todas as formas possíveis os valores da diversidade, inclusividade e tolerância, incluindo no universo religioso, que é uma das raízes e veículos de expressão dos desafios actuais.

Assim, tomei a decisão de abrir um blogue em português focado no conceito de politeísmo – nas ideias, dinâmicas, práticas e devoções, minhas e de outros – com o objectivo expresso de partilhar, informar, debater e, com um pouco de sorte, influenciar consciências e atitudes. Porque o religioso não tem que ser um jogo de soma zero, uma construção ideológica facilmente tomada por inadaptados violentos, um reducionismo grosseiro em nome da paz ou um cardápio moral a ser imposto a todos. Bem pelo contrário, o religioso pode e deve ser uma força inclusiva que não anule a diversidade nem condene a diferença; mas para isso ele tem que ser reformulado na raiz e não apenas maquilhado com boas intenções ou discursos sobre unidade numa uniformidade. Provavelmente estou a ser críptico, mas refiro-me a coisas como as conversas de surdos sobre quem é dono da verdade, o fundamentalismo como arma de quem se dá mal com a modernidade, o diálogo inter-religioso feito na base de que tudo se resume essencialmente ao mesmo, o policiamento da lei civil segundo critérios religiosos e a condenação do outro – a um inferno ou estatuto menor – só por ser outro. Nada disto tem que ser inerente ao discurso e vivências religiosas, por muito que a realidade presente pareça dizer que sim. É uma questão de mudar o ponto de partida. A seu tempo falar-se-á dessas e de outras coisas, mas por agora, como primeira abordagem, basta o conteúdo do menu superior, em especial textos como as Perguntas Frequentes.

Também há um motivo pelo qual este blogue abriu hoje e não noutro dia: é que Janeiro é o mês de Jano, divindade dos começos, e quatro é o número do deus Mercúrio. Daí que quarta-feira seja miércoles em espanhol, mercredi em francês, mercoledi em italiano, miercuri em romeno, dimecres em catalão ou mércores em galego – do latim dies Mercurii, que não era o quarto dia da semana por acaso. Já os gregos faziam a associação entre o deus e o referido número e, se dúvidas há, leia-se o hino homérico a Hermes, em particular os versos 18 e 19. A língua portuguesa perdeu a construção dos nomes com base nos teónimos, fruto talvez da recristianização do noroeste ibérico no século V e à semelhança do que aconteceu mais tarde na periferia norte da Europa, onde se verificou uma alteração parecida no islandês. Mas mesmo a troca pela denominação eclesiástica das feriae não apagou a ligação mercurial com o número quatro; bem pelo contrário, tornou-a mais óbvia uma vez feita a comparação com línguas latinas que mantiveram a referência teonímica. Para mais, 4 de Janeiro de 2017 é também a primeira quarta-feira do ano, pelo que, tudo somado, era inevitável que eu escolhesse este dia para inaugurar um blogue que vai buscar o nome e muito do seu enfoque ao universo do deus Mercúrio. E para completar o ramalhete, esta entrada foi publicada às 16:04 horas. São quatro quatros e um dezasseis pelo meio para dar à coisa um extra especial.

mercurio

Não sei quantos seguidores vai ter, que impacto terá ou sequer quanto tempo durará. Mas venha o que vier, este blogue está aberto e pronto a usar ou a ser lido. Por isso, neste primeiro passo de uma viagem que espero ser longa, venha um brinde a Jano, deus dos começos, e outro a Mercúrio, o filho ágil de Maia!

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