Um problema inexistente

O jornal britânico The Guardian publicou há uns dias um artigo de opinião sobre o impacto que a descoberta de vida noutros planetas terás no universo religioso. A pergunta é pertinente, mas, falando por mim, o problema é inexistente.

Não o digo por achar que não há vida fora do nosso planeta. A Terra é excepcional no seu somatório de condições que permitiram o aparecimento e evolução de vida complexa, mas não é especial no sentido de ser exclusiva. Condições semelhantes noutros locais poderão ter resultados parecidos com os que foram produzidos na Terra. E por ventura nem será preciso sair do nosso sistema solar, dada a presença de uma fonte de calor e água em estado líquido numa lua de Júpiter e noutra de Saturno – Europa e Encélado, respectivamente. Não quer dizer que haja vida inteligente nesses sítios ou em muitos dos mais de três mil exoplanetas já descobertos, mas quer certamente dizer que não somos tão especiais quanto por vezes gostamos de pensar, como se a vida fosse um privilégio exclusivo da Terra. E nesse sentido, à medida que desenvolvemos a tecnologia necessária, a descoberta de seres extra-planetários, mesmo que apenas vegetais ou animais, não será tanto uma questão de “se”, mas “quando”.

Também não digo que, falando por mim, o problema é inexistente por achar que ele não tem razão de ser. Para religiões baseadas em textos de onde retiram uma ortodoxia universal e reclamam-se donas da verdade ou pelo menos de um acesso privilegiado a ela, a possibilidade de vida noutras planetas levanta questões importantes. Principalmente se, para mais, forem também religiões que aceitam a existência de apenas uma divindade. O que é que acontece quando as escrituras descrevem o nosso mundo como um espaço exclusivo? Como conceber um deus único que enviou um salvador com uma mensagem universal, mas que pelos vistos é desconhecido noutros planetas? A “salvação” é só para a Terra e não para outros sítios no universo? E se sim, onde é que isso deixa a universalidade da mensagem e da divindade que são apresentadas como absolutas? Ou se não, porque é que a dita revelação divina não chegou a outros mundos, se ela é suposto ser “para todos” e a divindade omnipotente e omnipresente? Onde fica o valor de escrituras que se dizem reveladoras da verdade, mas que ignoram a existência de vida fora da Terra ou do sistema solar? O artigo refere esta problemática usando o cristianismo como exemplo, e o que é verdade para essa religião é válido para outras formas de monoteísmo. Mas não para os politeísmos.

O motivo pelo qual eu digo que, falando por mim, o problema é inexistente prende-se com a questão abordada no texto anterior sobre pluralismo sem rodeios, sem medo de aceitar e valorizar a diversidade pelo que ela é: uma abundância de diferenças que são reconhecidas como tal, sem que com isso se tenha que menorizar, desprezar, discriminar, eliminar ou tentar reduzir a uma unicidade artificial. Muitos deuses, muitas tradições, muitas teologias e formas de ver o mundo – ou mundos. E não há mal nenhum nisso! Não mal em ser diferente, dizer que não há só um deus e que não é tudo o mesmo.

Assim, quando o artigo pergunta, e passo a citar, “como é que podemos resolver a teoria de muitos deuses e muitos mundos?”, as respostas vão variar primeiramente consoante o tipo de religião. Os monoteísmos, em especial os exclusivistas, terão que encontrar forma de contornar o desfasamento natural de textos sagrados escritos há milhares de anos, quando se tinha uma perspectiva geocêntrica das coisas, e saber adaptar o seu discurso, como de resto o cristianismo tem feito desde o século XVI, a bem ou a mal. E sempre com a questão de até onde se pode esticar a hermenêutica de textos antigos sem que eles percam o valor de autoridade.

Já um politeísta limita-se a encolher os ombros com alguma indiferença. Muitos deuses e muitos mundos? Isso é a essência do politeísmo! Diversidade divina e religiosa, de caminhos, destinos, ideias e mundividências e sem tentar reduzir tudo a uma mesma coisa. Porque é que a eventual descoberta futura de crenças e tradições extraplanetárias havia de ser um problema para quem já acredita que há muitos deuses e muitos mundos e sem ver mal nenhum nisso?