Pluralismo sem rodeios

Há um conjunto de artigos que têm vindo a ser publicados no blogue Povo de Bahá, traduções e não originais do Marco Oliveira, mas que valem a pena ler pelas questões que abordam. Em concreto, o tema do exclusivismo religioso, da noção de tolerância ou dos problemas que ela levanta e ainda o conceito de pluralismo. O que me levou a escrever sobre este último, tocando em pontos aflorados pelo David Langness, mas oferecendo uma perspectiva em última análise diferente da Bahá’i

Suponho que a definição elementar do conceito não levanta dúvidas. Plural significa mais do que um, o que aplicado ao universo religioso traduz-se na aceitação de mais do que uma perspectiva. Quais, quantas e até que ponto, com que critérios, justificação ou objectivos, isso já é sair da definição básica e entrar nas especificidades de diferentes sistemas religiosos. A título de exemplo, o Islão moderno tem pelo menos oito escolas de jurisprudência aceites como legítimas por muitos, senão mesmo a maioria dos muçulmanos, o que constitui uma forma de pluralismo interpretativo do Corão. Também o budismo tibetano acolhe diferentes correntes e linhagens com ensinamentos específicos e mais notório é o caso do hinduísmo, que é plural não só ao nível das escolas de teologia e filosofia, mas ainda do panteão e do enfoque diverso numa ou mais divindades, produzindo ramificações como o Xivaísmo e o Vixnuísmo. Mas o Islão não deixa de ser uma religião monoteísta, enquanto o hinduísmo, pelo menos em muitas das suas vertentes, é em última análise monista – isto é, aceita a pluralidade como meras manifestações de uma única entidade. O que é igualmente verdade para a fé Bahá’i e é aqui que a minha teologia diverge da do Marco e de outros.

O pluralismo que eu advogo não é direccionado para a convergência, mas para a celebração da diversidade, que é aceite como tal, sem hesitações teológicas ou apologias de unidades últimas. Não está por isso limitado pelo conteúdo de um livro, as palavras de um profeta, um panteão específico ou pela crença de que tudo se resume a uma só entidade. É um pluralismo diverso, sem medo de abraçar a diferença ou tentar reduzi-la a uma singularidade universal pela crença de que, no fundo, é tudo o mesmo, tudo formas diversas de ver e adorar um deus único. Não é, não tem que ser, não tem que se resumir tudo à mesma entidade. E não há mal nenhum nisso! Não é preciso ver-se as diferentes religiões, deuses e escolas como manifestações de uma única fonte para se poder tolerá-las, aceitá-las ou valorizá-las. Ou para haver paz, respeito e uma coexistência frutífera. Basta aceitar a diferença pelo que ela é – diferente e não idêntica – e saber viver com ela em vez de se tentar reduzi-la a uma singularidade, como se a diversidade a sério – e não apenas aparente – fosse uma espécie de anátema.

Isto é problemático? Certamente! Em primeiro lugar, para os que advogam uma perspectiva exclusivista, mas querem ainda assim fazer parte de um mundo diverso. O que não raras vezes conduz à escapatória da unidade última para se poder dizer que se é detentor da verdade e que os outros, no fundo, acreditam no mesmo. Problema semelhante afecta o monoteísmo que tenta conviver com outras religiões sem querer parecer intolerante, passando assim a ideia de que o deus é o mesmo, único e universal, e que o resto são somente especificidades culturais, locais ou históricas. O discurso interreligioso é rico neste tipo de ideias e é uma forma de fazer as pazes com a diversidade, de certo modo integrando-a, sem no entanto comprometer o fundamental de teologias exclusivistas ou monoteístas. Mas é também algo de profundamente redutor e que, em última análise, mais não faz do que tentar lidar com a diferença anulando-a. Não tenta aceitá-la e conviver com ela como tal, sem rodeios, mas tenta reduzi-la a uma unidade última. Como se aceitar algo obrigasse a nivelar por baixo, o que no fundo contradiz a própria noção de tolerância, que se aplica ao que é diferente de nós, não ao que é idêntico. Tolerar o que é igual é fácil; tolerar o que é distinto, isso já é mais difícil e parece ser algo que ainda custa, porque quando se tenta fazê-lo não falta quem puxe do argumento de que no fundo é tudo o mesmo. E não há nisso um verdadeiro exercício de tolerância, porque estamos a tentar reduzir o outro a uma cópia de nós. No fundo, é fugir à questão, contornando-a.

Isto não quer dizer que não haja uma base comum. É verdade que somos todos seres humanos, que habitamos o mesmo planeta e temos igual direito à dignidade, liberdade, oportunidades e igualdade perante a lei. Mas isso não obriga a fazer tábua rasa da individualidade de cada pessoa, comunidade, escola ou religião, como se fosse impossível conviver com a diferença sem reduzi-la a uma mesma coisa. Ou como se fossemos incapazes de perceber que algo diferente tem direito à mesma dignidade sem que ter que ser idêntico. Ou que a igualdade perante a lei obriga muitas vezes a compreender as especificidades de cada pessoa ou grupo para se lidar melhor com os seus desafios particulares. Exemplo prático: perceber o que distingue um deficiente permite implementar medidas que melhorem a acessibilidade física a espaços públicos. Ou, no contexto interreligioso, entender o que distingue várias religiões ajuda a identificar pontos de discórdia e como melhor lidar com eles, sem saltar para a conclusão de que não importam por ser tudo o mesmo. O que, por sua vez, transforma a tolerância num exercício de análise crítica com vista à coexistência plural e não mera indiferença ou uma dança à volta da fogueira em que fingimos ser tudo idêntico ou a mesma entidade. Um excelente do que não se deve fazer são as palavras do padre Anselmo Borges no seu livro Religião e diálogo inter-religioso, onde ele diz muito claramente que não há verdadeiros politeístas, porque o politeísmo é na realidade uma atribuição de diferentes personificações a uma mesma entidade (2010: 49-50). O que é falso, mas muito conveniente para alguém que quer aceitar a validade de outras religiões sem abrir mão do monopólio divino da sua. Tudo o mesmo deus, logo nem tem repensar o seu monoteísmo, nem ser intolerante. Problema resolvido… ou não!

Não há nisto verdadeira tolerância. Há sim um reducionismo a uma identidade comum que se pode respeitar ou valorizar por ser no fundo idêntica à que eu adoro. É tolerar o igual, o que é fácil. Mais difícil é tolerar o diferente, porque isso seria incómodo ou não daria a melhor das imagens. Afinal, como é que uma religião que afirma haver apenas um deus pode conviver com outras sem afirmar que todas as divindades são as mesmas ou, se não o fizer, sem parecer intolerante ao dizer que só o seu deus é verdadeiro e que todos os outros são falsos?

É por isso que eu prefiro um pluralismo mais genuíno, mais honesto, menos acessório de ideias de unidade última. Uma perspectiva plural sem rodeios, sem exclusivismos e sem monopólios divinos, onde a variedade de deuses, tradições e religiões não tem limites. O diferente é mesmo diferente e não há mal nenhum nisso. Não é menos digno, respeitável ou válido e não é preciso reduzi-lo a uma unicidade para se poder tolerá-lo ou coexistir com ele. Basta aceitar a diferença tal como ela é, neste caso a de que as religiões não são todas iguais, não são formas diversas de adorar o mesmo deus, não são produtos de uma mesma fonte divina e todos os deuses não são o mesmo. Afirmar que sim é, muitas vezes, querer fugir à diversidade e consequente desafio da diferença, anulando-a.

Anúncios

Um pensamento sobre “Pluralismo sem rodeios

  1. Pingback: Um problema inexistente | O Moledro

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s