De tais coisas é o mundo feito

Embora não sendo uma característica necessariamente universal – porque o politeísmo é uma categoria diversa e o que vale para uma parte pode não valer para outra – é pelo menos frequente entre politeístas encarar-se a vida como algo que tem uma dimensão religiosa em todos os seus aspetos. O que pode parecer totalitário e de facto seria esse o caso não fosse o princípio basilar da pluralidade, patente na ideia de poli- ou “muitos”, o qual implica que a religiosidade de uma pessoa pode não ser a de outras e sem que a diferença resulte em condenação.

Nesse sentido de dimensão quotidiana, como hoje é o meu dia de anos, planeei uma cerimónia em rito romano para sacrificar pequenas fatias do meu bolo de aniversário aos meus antepassados, génios da casa e a Mercúrio. É um gesto de partilha com membros da família falecidos, a fazer lembrar a refeição com parentes ainda vivos, e o reconhecimento do laço especial com algumas divindades, do mesmo modo que se evidencia os laços de amizade num dia de anos. E no mesmo contexto, no seguimento de uma breve conversa com um amigo meu, decidi acrescentar este texto às homenagens a Mercúrio, focando-me no seu lado menos popular para daí retirar ideias a respeito da sua identidade e o tipo de bênçãos ou castigos que ele oferece.

Entenda-se, no entanto, que o que eu vou dizer é a minha perspectiva – a de um português que associa o filho de Maia aos Lares Viales, integrando-o num contexto ibérico, e que além disso tem uma costela filosófica budista. As experiências e conclusões de outros devotos do Deus dos Pés Alados podem por isso ser diferentes das minhas e não há mal nenhum nisso.

1. Há que mexer, há que voar
Perguntava-me há uns dias o Aldrin como é que eu me sinto quando as pessoas dizem que Mercúrio não é de confiança por ser um trapaceiro mentiroso. E a minha resposta foi que eu tendo a rir-me quando não tento explicar que ele é um deus liminal e por isso mesmo fluído, incluindo no que à moralidade diz respeito. Porque uma das coisas que caracteriza um trapaceiro é o estar à vontade no espaço ambíguo que existe entre as noções de certo e errado, passando livremente de um lado para o outro. Não é por acaso que o filho de Maia é um mensageiro, diplomata, interprete, viajante – em suma, uma divindade que cruza os limites e faz a ponte entre ambos os lados de uma fronteira.

Mas fluidez é movimento, é mudança constante, o que é desconfortável para nós. O ser humano tende a ser mais adepto do conforto da certeza e da previsibilidade, o que é difícil de manter quando os limites das coisas deixam de ser claros. E como se isso não bastasse, somos igual e naturalmente avessos à mudança, que por regra tentamos evitar, mesmo quando ela é inevitável. E ela é quase sempre inevitável. A saúde, a beleza, o emprego ou a casa de sonho, a tarde ou o jantar perfeito, o casamento ideal ou a companhia insubstituível de um parceiro – tudo isso é precioso e digno de se obter, mas efémero e está sujeito à mudança, mesmo que não se goste. Recusar-se a aceitar isso é como ser um viajante que quer ficar perpetuamente à sombra de uma árvore, despreocupado e confortável, em vez de seguir caminho. O que é contrário à natureza de Mercúrio, que é um deus do movimento e permite, quando muito, pausas ao longo da estrada. Aliás, mais do que isso, ele oferece-as ou enriquece-as com bênçãos de sucesso, sorte, prazer, felicidade e prosperidade. Mas mais tarde ou mais cedo, é suposto seguir-se viagem e retomar o caminho. A vida é feita de mudança e movimento, por muito que gostássemos que as coisas fossem eternas, e o filho de Maia corporiza essa realidade. É o mundo dele.

2. Talvez um santo não seja aquilo de que precisam
Se apesar de desagradável a mudança é ainda assim passível de se aceitar, o mesmo não se poderá dizer do ato de roubar, que nunca é agradável para as vítimas. E é um facto que Mercúrio é um deus das mentiras e dos ladrões, o que não contribui para a sua popularidade, embora aqui também se deva perceber a origem dessa associação. Porque o que faz do filho de Maia um deus não só dos larápios, mas também dos comerciantes e do lucro, é a já referida natureza de trapaceiro. Ele é fluído, sempre em movimento e por isso difícil de apanhar, está armado com uma língua de prata e tem as manhas de um brincalhão, o que faz dele uma caixinha de surpresas constante. A ilusão, o dote de oratória, os gestos rápidos, o olhar atento, a capacidade inventiva, a agilidade e habilidade – tudo isso é próprio de um trapaceiro. É característico de um deus que se move nas sombras ou está em casa na ambiguidade que existe entre mundos, entre géneros, entre o certo e o errado e pode assumir vários papéis ou desempenhar a função de diplomata, interprete, espião ou mensageiro. É versátil e adaptável, porque tem essa capacidade de se integrar, camuflar, improvisar, inventar.

Claro que isto são também ferramentas básicas para quem rouba, que tem que saber usar manhas e artimanhas, passar despercebido ou mover-se com rapidez. Mas eu não diria que Mercúrio é um trapaceiro por ser um deus ladrões. Bem pelo contrario! Ele é uma divindade dos ladrões precisamente por ser um trapaceiro! Isto é, ele tem qualidades vitais para qualquer amigo do alheio e pode concedê-las, mas nem sempre e nunca de forma exclusiva, porque o deus não é o mesmo que a ocupação, de tal modo que é possível enganar um ladrão se se fizer um melhor uso das ferramentas mercuriais. Os dotes estão lá, mas a sua aplicação prática…. isso é outra conversa.

Assim, se o furto e a mentira são um produto do mundo de Mercúrio, também é verdade que o que lhes está na raiz pode ser usado para múltiplos objetivos e com um mínimo de honestidade. Sê esperto, sê engenhoso, está atento e mexe-te. Se há quem o faça para magoar e roubar, também se pode fazê-lo para ajudar e ser bem sucedido. Longe de ser um exclusivo dos ladrões, a arte dos mil engenhos é com frequência uma necessidade da vida e muitos dos que fizeram do mundo um sítio melhor não eram santos.

3. Move-te depressa, nunca sabes o que é que está no teu encalço
Até agora, eu tenho estado a falar da identidade de Mercúrio como eu o entendo e das bênçãos que ele oferece, mas falta a parte menos agradável, que é a dos castigos ou maldições divinas. E estas podem assumir diferentes formas, sendo as mais óbvias o ser-se vítima das artes mercuriais de um modo brutal ou sistemático ou o ser-se desprovido delas, transformando uma pessoa num ser ingénuo que nunca convence e é sempre convencido ou enganado.

Claro que há nisto inúmeras nuances e não, não estou a dizer que cada assalto ou burla é um castigo de Mercúrio. Por um lado, porque a pluralidade divina impede que se atribua tudo a um único deus e, por outro, porque há sempre o elemento humano. E além disso, o deambular sem destino, perdido e em constante fluidez, também pode ser uma experiência mercurial e não necessariamente como castigo. O mundo também é feito de complexidades destas.

Há, no entanto, outra forma de maldição divina que nem sempre é tida em conta, mas que pode ser enunciada a partir do título desta secção: move-te depressa, nunca sabes o que é que está no teu encalço. A frase, já agora, é uma citação do Going Postal do Terry Pratchett, como de resto são todos os subtítulos e o título deste texto, e pode exprimir as já referidas ideias de ser esperto, ser engenhoso, estar atento e mexer. Mas levada ao extremo é também um sinónimo de paranóia e por vezes é esse o formato do castigo divino: não a remoção de bênçãos, mas a sua oferta hiperbolizada, como que em esteróides, e a subsequente espiral descendente rumo à loucura ou desastre. Neste caso, o estar atento e em movimento ao ponto exagerado da mania da perseguição até ao isolamento completo. Isto também faz parte do mundo do filho de Maia, que tal como outros deuses não está desprovido de aspetos menos agradáveis.

4. Tu sabes os teus andares
Qual então o caminho de Mercúrio que eu estou a descrever? Em poucas palavras, a consciência de que a vida é uma viagem constante. Podes fazer pausas, ter momentos em que descansas e desfrutas, tens sucesso e tudo o que queres, mas as coisas estão sujeitas à mudança e é suposto seguires viagem. Aceita-a e aprecia-a. E sê esperto, atento, astuto, engenhoso, embora isso não queira dizer que não venhas a tropeçar. Porque isso também faz parte da vida e o Mercúrio às vezes gosta de mandar umas bolas com efeito. Ele também é um deus dos jogos.