Contornos de um trilho

Não é fácil reavivar religiões pré-cristãs. Não basta fazer as coisas como no passado e não é só por causa das muitas lacunas no nosso conhecimento: mesmo que tivéssemos toda a informação, é impossível implementá-la por completo devido às muitas mudanças que ocorreram no mundo ao longo de vários séculos, cultural e socialmente. Não vale a pena lamentar esse facto. Épocas diferentes requerem religiões diferentes – de uma forma ou outra – e a mera imitação do passado arrisca-se a ser anacrónica, fossilizada ou, no pior dos casos, destrutiva por força da incapacidade de integração no presente. A História tem múltiplos exemplos de projectos que advogavam um regresso a um passado puro, muitas vezes romanceado, como solução para os problemas modernos, mas que acabaram mal porque a tentativa de voltar atrás no tempo sem mais tem custos. Materiais e humanos. Mas se o objectivo é encontrar um lugar moderno para religiões antigas, tal como a Renascença recuperou a cultura clássica e deu-lhe um novo lugar num novo tempo ou o Iluminismo reavivou sistemas clássicos e lançou as bases da democracia moderna, então a ideia de religiões diferentes para tempos diferentes tem que ter nuances. Em concreto, é necessária uma continuidade significativa com o passado, um elo substancial que vá além da identidade superficial de nomes, estética e deuses de modo a ser mesmo um reavivar, ainda que moderno.

Os fundamentos gerais
Isto equivale a um equilíbrio entre o velho e o novo. É preciso estudar a informação que se tem sobre o primeiro, pôr de parte ou adaptar o que é incompatível com o mundo moderno, estruturar o que sobra para servir de dinâmica básica e depois deixar que o resto do edifício cresça organicamente ligado ao presente. Mesmo que esse crescimento conduza a algo novo, o que é apenas normal que aconteça, já que as coisas vivas evoluem de forma natural, multiplicando-se e diversificando-se. Desde que permaneça dentro das bases herdadas do passado e que formam os traços fundamentais de uma religião reavivada hoje, não há mal nisso. A analogia que eu gosto de usar é a de uma árvore antiga cujas raízes descem até ao passado distante, mas cujos ramos erguem-se e crescem livremente no presente. Se só se tem as raízes – porque só o velho é que interessa – então não passa de um cepo morto; se só se tem os ramos – porque o que importa realmente é o novo – nem sequer é uma árvore. Os dois são necessários para se reavivar uma religião antiga no mundo moderno e deixá-la crescer como parte da realidade de hoje, não uma imitação da de ontem.

Isto não é fácil. Uma coisa é articulá-lo teoricamente, mas outra bem diferente é torná-lo numa realidade prática. E há bastante subjectividade pelo meio, bastante espaço para jogar com preferências pessoais, o que quer dizer que é possível obter-se algo que, mesmo sendo uma mistura do velho e do novo dentro do enquadramento tradicional de uma religião pré-cristã, pode não ser bem a mistura que outros fariam. Mas de um modo geral, também aqui não há mal nenhum. Se há muitos deuses com diferentes objectivos e se muitos deles não são monolíticos, mas possuem personalidades ricas e diversas que eles revelam de forma variada a pessoas diferentes, então é lógico concluir que haverão múltiplos cultos dentro de uma mesma religião, não só a diferentes deuses, mas também a diferentes formas ou perspectivas da mesma divindade. Quando se lida com religiões politeístas, deve esperar-se diversidade abundante, mesmo quando há uma base tradicional bem estruturada e estudada.

Se por esta altura há já quem se esteja a perguntar onde é que eu vou com isto, eis o cerne da questão: quando eu abri este blogue, tinha em mente publicar a seu tempo textos sobre um culto ibérico de Mercúrio. E é precisamente isso o que isto é! Este é o primeiro desses textos! Eu acabei de expor a teoria geral de algo em que estou a trabalhar e que terá que ser moderno – devido ao contexto e à escassez gritante de informação – mas também ligado ao ocidente ibérico e ao mesmo tempo firmemente dentro do reavivar actual do politeísmo romano. E apesar de ainda estar nos seus primeiros rebentos, alguns dos traços gerais têm vindo a ganhar forma há já algum tempo e sinto-me confortável o suficiente para torná-los públicos – pelo menos de forma preliminar.

Um moledro no caminho para Santiago (fonte).

Um trilho em formação
A característica mais óbvia desse culto novo e ainda em construção é o deus principal, que é Mercúrio, especificamente Mercúrio o Viajante. Forma uma tríade com a sua mãe Maia e o deus ibérico Quangeio e lidera a hoste divina dos Lares Viales, de quem a primeira é rainha e o segundo um membro de destaque.

Dado que é suposto ser um ramo do politeísmo romano moderno, os ritos são realizados de acordo com a ortopraxia, o que inclui a celebração das calendas, nonas e idos, motivo pelo qual Jano, Juno e Júpiter são parte natural do panteão. Outras divindades de interesse para o culto mercurial que estou a construir são Silvano e Proserpina, o primeiro por oferecer sombra e comida aos viajantes – é afinal um deus das árvores – mas também pode vir a ter uma função fúnebre. Essa parte ainda está no seu esboço muito preliminar e por isso também o papel exacto da rainha do submundo está por definir, mas estou de olho em novas formas de enterro, como a bio-urna ou a capsula mundi.

Seguindo o simbolismo numérico do universo mercurial, há quatro grandes festividades anuais, todas num quarto dia: uma em Janeiro (Vialia), outra em Abril (o aniversário de Mercúrio), depois em Julho (Peregrinalia) e por fim em Outubro (nome ainda incerto, mas de momento a pender para Momentalia). Há uma carga simbólica e um sentido filosófico para todos eles, mas isso fica para um texto futuro, dado que também essa parte está ainda na sua infância. E para além das grandes quatro datas, há outras celebrações ao longo do ano, uma para cada um dos membros do panteão do culto, o que se traduz em oferendas mensais no caso de Maia (nos idos) e Quangeio (no 24º dia), a juntar às de Mercúrio na primeira quarta-feira de cada mês.

A opção de me focar no aspecto viajante do Deus Veloz não foi acidental, dado que nesse papel ele cruza-se com os Lares Viales, que eram bastante populares na antiga Galécia. Torná-los na hoste divina dele é por isso uma forma bastante sólida de construir um culto ibérico de Mercúrio, mais ainda quando o noroeste da península continua a ser uma terra profundamente marcada pela ideia de caminho, mesmo que a prática presente seja católica e esteja focada no santuário de Santiago de Compostela. Mas em vez de rejeitar esse contínuo religioso que liga o passado pré-cristão ao presente cristão, eu vou beber dele e fazer da vieira um dos símbolos do culto mercurial que tenho em mente, ainda que com algumas modificações para distinguir da concha de uso católico.

Outro elemento ibérico óbvio é o lugar de Quangeio na tríade. A relação dele com Mercúrio não me é ainda inteiramente clara e pode ir da profunda amizade e devoção, talvez à semelhança da de Hanuman para com Rama, até um companheirismo mais intimo ou mesmo de tons eróticos (ou as duas coisas). É algo que ainda está por determinar e exige uma boa dose de interacção com os dois deuses antes de assentar um pouco mais as ideias. O que posso dizer com alguma segurança, pelo menos por agora, é que Quangeio pode surgir como um membro destacado dos Lares Viales, quase como uma segunda figura de comando, e cumprir um papel que abrange muito do vasto leque simbólico do cão: o guardião, o providente, o companheiro, o curandeiro, o guia. Todos eles ligados de alguma forma à estrada, mas também à vida diária – tal como Mercúrio. Eventualmente, hei-de começar a escrever histórias que codifiquem a relação entre os dois de uma forma narrativa.

Também a deusa Maia acrescenta à identidade ibérica do culto, embora de uma forma menos óbvia. Como mãe de Mercúrio, ela é uma candidate natural para uma posição na tríade, mas o que adiciona um extra ao papel dela no culto que estou a estruturar é a antiguidade e força do feminino divino na religiosidade do ocidente ibérico. Fátima é actualmente a maior manifestação disso, mas antes dela foi a Nossa Senhora da Conceição, que foi coroada como rainha de Portugal em 1646, e a Nossa Senhora da Nazaré, que foi bastante popular, e antes dela houve ainda deusas como Nabia e Ataécina. Desse modo, acrescentar Maia à tríade, realçando o seu papel de mãe do deus principal do culto e rainha da hoste divina, junta a mitologia tradicional da Antiguidade com um traço ibérico assimilável.

Por fim, dentro da mesma nota territorial, as línguas preferíveis para fins rituais são naturalmente o português, o galego-português e o mirandês, com o latim e o espanhol a serem alternativas próximas e embora não haja nada de errado no uso de outros idiomas, incluindo o inglês. É apenas uma preferência que realça a identidade ibérica do culto, mas dado que a divindade principal é o poliglota que é Mercúrio, qualquer língua pode ser usada, se necessário.

Isto é só o começo
Conforme disse, isto ainda são os primeiros passos na formação de um culto novo dentro do reavivar moderno do politeísmo romano. Para ser sincero, estou a encará-lo como um trabalho de uma vida inteira, mas a vida é curta e imprevisível e por isso decidi publicar o pouco que já tenho e ir acrescentado à medida que vou avançando e revendo. No final, espero, deverei reunir tudo num único livro que deverá incluir formulas rituais, organização básica de espaços sagrados, contos e listas de símbolos, entre outras coisas. Mas esse é o objectivo final e ainda há um longo caminho a percorrer antes de chegar a esse ponto. Tem que ser uma árvore de raízes profundas com ramos vivos que se estendam organicamente para o céu moderno, o que requer tempo, e a viagem é tão importante quanto o destino, se não mais.