Khosh amadid!

Já o disse antes, em mais do que uma ocasião, e volto a dizê-lo: o islão não pode ser separado das origens de Portugal, a língua e cultura árabes não podem ser separadas das portuguesas. Já estavam presentes na península Ibérica antes da fundação do país, continuaram presentes durante o seu processo de formação e deixaram a sua marca no vocabulário, na toponímia, na gastronomia, nos costumes e na paisagem. O que se traduz na simples verdade de que os portugueses são latinos parcialmente arabizados.

Foi por isso com algum nojo que eu ouvi o idiota laranja que ocupa a Casa Branca dizer, durante a sua visita ao Reino Unido, que a imigração está a mudar a cultura da Europa, o que na gíria da direita nativista equivale à ameaça do islão. E digo algum nojo, porque não há muito de verdadeiramente espantoso nas palavras de um palhaço narcisista convictamente ignorante e profundamente inseguro.

Enquanto português nativo cuja família está em Portugal há pelo menos quatro séculos, cuja língua nativa tem até mil palavras de origem árabe, cuja terra nativa está marcada por numerosos topónimos árabicos e onde pastelarias, restaurantes e celebrações tradicionais incluem vários pratos de origem ou influência árabe, tudo produto do período islâmico da História ibérica, eu só posso classificar como ignorante a ideia de que a imigração do Médio Oriente ou norte de África é uma ameaça à cultura europeia. Ignorância atroz, estupidez em estado bruto, fobia ridícula. A Europa não é monolítica e, no que ao extremo sudoeste do continente diz respeito, a civilização islâmica é uma das suas matrizes culturais.

Sala Árabe - Sintra

A Sala Árabe no palácio de Sintra, em tempos residência de governantes mouros e depois de realeza portuguesa (fonte)

Mas foi também por isso que, a semana passada, eu acompanhei com um sorriso a visita a Portugal de Aga Khan IV, líder espiritual dos muçulmanos naziri ismailitas, que foi recebido com honras de Estado pelo presidente e primeiro-ministro e, a partir de meados do próximo ano, vai ter residência oficial em Lisboa, onde ficará instalada a sede mundial do Imamato Ismailita. Numa altura em que muitos clamam por uma pureza cultural imaginária, fecham-se numa mentalidade de cerco ou pretendem negar substratos da cultura europeia, é bom saber que o meu país, apesar de todos os seus problemas, consegue manter-se aberto ao mundo islâmico, ao qual deve parte da sua identidade nacional.

Bem vindo, Imam!

Caligrama ismailita

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