Ataécina

Juntamente com Endovélico, com o qual é por vezes associada, ora por motivos de teologia pessoal, ora pela proximidade geográfica dos dois cultos, Ataécina (também Atégina ou Ataégina) é hoje uma das deusas ibéricas mais conhecidas, fruto sem dúvida do elevado número de achados epigráficos. Mas não só a notoriedade presente não corresponde necessariamente a popularidade passada, como a quantidade de inscrições votivas não implica uma importância geograficamente alargada se elas estiveram concentradas ou ligadas a uma dada área.

1. Informação
Ao todo, conhecem-se vinte e quatro inscrições a Ataécina com variações de grafia (Attaegina, Adegina, Adecina, etc.). A estas juntam-se cinco apenas com o epíteto Turobrigensi ou Turibrigensi, seis onde surgem apenas os títulos Dea Sancta e Domina, assim como o teónimo Proserpina, e ainda uma proveniente de El Gordo, na região de Cáceres, que é aparentemente ilegível. No total, são trinta e seis peças, das quais apenas uma foi encontrada no que é hoje território português e outra na ilha italiana de Sardenha, provindo as restantes das regiões espanholas de Badajoz, Cáceres e Toledo (Olivares Pedreño 2002: 248). No entanto, nem todos os estudiosos aceitam a atribuição de algumas das inscrições a Ataécina. É o caso de Juan Abascal, que nota que os títulos deus/dea, sanctus/sancta e domina estavam longe de ser um exclusivo de uma deusa e eram usados para um conjunto alargado de divindades, algumas das quais terão sido adoradas na mesma zona que Ataécina ou em regiões circundantes (2002: 53).

Locais onde foram encontrados inscrições votivas a Ataécina ou com o epíteto Turobrigensi. Exclui peças onde surgem outros títulos ou teónimos. (mapa da minha autoria)

Locais onde foram encontrados inscrições votivas a Ataécina ou com o epíteto Turobrigensi. Exclui peças onde surgem outros títulos ou teónimos. (mapa da minha autoria)

Se se puser assim de parte as dedicações duvidosas, restam vinte e nove, o que continua a ser um número elevado para o contexto ibérico. Em três delas – as de Cárdenas, Mérida e Salvatierra de Barros – há uma identificação explicita com Proserpina, deusa greco-romana do submundo, com um caso a aparentar mesmo um devotio, isto é, um gesto de vingança ou súplica por justiça onde o dedicante oferece alguém ao submundo (Monteiro Teixeira 2014: 47). E ao todo, com e sem o nome de Ataécina, há vinte e cinco inscrições votivas com o epíteto Turibrigensi. A julgar pelos testemunhos epigráficos, o foco do seu culto estaria assim localizado entre os rios Tejo e Guadiana, área que fazia parte da província romana da Lusitânia, embora não necessariamente do território pré-romano dos lusitanos.

Por fim, os achados arqueológicos revelam ainda uma ligação de Ataécina ao bode ou cabra, dado que duas das inscrições estão acompanhadas de figuras de metal desse animal (Leite de Vasconcelos 1905: 168-70).

2. Interpretações
Graças à identificação histórica com Proserpina, a opinião frequente – senão mesmo consensual – entre estudiosos é a de que Ataécina tem um carácter infernal e/ou agrário, o que reflecte-se na análise etimológica. Assim, Leite de Vasconcelos faz eco da ideia de que o teónimo teria uma origem celta em ate-gena, que significaria “renascida” (1905: 161-3), interpretação que colou desde então e que é ainda hoje reproduzida pela internet, embora tenha sido criticada e haja teses alternativas. Blázquez, por exemplo, considera que a etimologia defendida por Vasconcelos é inviável e vê também dificuldades na proposta de uma raiz em “noite” (Blázquez Martínez 2006: 224) ou adaig, palavra irlandesa da qual só há registo a partir do século VIII, não servindo por isso para explicar um teónimo de um período mais recuado (Abascal 2002: 54.1). Já Prósper faz derivar o nome de um possível topónimo *Ataiko ou etnónimo *Ataecini (Monteiro Teixeira 2014: 47), hipótese que essencialmente faz de Ataécina um adjectivo (Blázquez Martínez 2006: 224-5) – a dos Ataecinos.

Nesse sentido, é de destacar a frequência com que surge o epíteto Turobrigensi ou Turibrigensi, presente juntamente com o nome da deusa em vinte e uma das inscrições conhecidas. É-lhe por isso profundamente característico e tem sido interpretado como um topónimo, “a de Turibriga”, sítio cuja localização é incerta. Talvez ficasse na parte oriental da Lusitânia romana, mais propriamente na zona de Alcuéscar, Cáceres, dada a abundância de inscrições oriundas desse local – ao todo doze onde figura o teónimo ou epíteto, mais três dúbias. Mas não teria que ser obrigatoriamente uma cidade, podendo resumir-se a um espaço rural onde existisse um centro religioso, à semelhança do de Endovélico, que também estava fora de uma área urbana (Abascal 2002: 57-8). E onde quer que se localizasse, Turibriga terá sido o ponto a partir do qual irradiou o culto de Ataécina, que estaria assim intimamente ligada a um determinado sítio ou aos seus habitantes (Monteiro Teixeira 2014: 48-9). É de notar que uma das inscrições encontradas na província de Toledo foi feita (ou encomendada) por um indivíduo que diz ser de Turibriga (Olivares Pedreño 2002: 249.1).

Já quanto à identificação com Proserpina, Juan Abascal recomenda cautela, dado que a assimilação não tinha que ser plena – é afinal um processo e não uma coisa instantânea – pelo que podia haver áreas onde os dois cultos eram distintos (2002: 53 e 56.2). Aliás, é em parte por isso que o mesmo autor rejeita que inscrições votivas apenas com os títulos dea sancta e domina ou só Proserpina devam ser atribuídas a Ataécina, recusa que não está desprovida de sentido. Por exemplo, conhece-se uma Dea Sancta Burrulobrigensis por via de uma peça encontrada na zona de Elvas (Monteiro Teixeira 2014: 74). E para mais, a julgar pelos achados arqueológicos, a deusa ibérica e a greco-romana parecem ter mantido zonas de culto distintas, com a primeira a predominar a norte do Guadiana e a segunda a sul, havendo uma zona de contacto na região de Mérida, onde teria talvez tido lugar o processo de sincretização (Abascal 2002: 56.2).

3. Hipótese de trabalho
Ataécina era a deusa mais importante ou popular entre os lusitanos? Não! É certo que a quantidade de inscrições votivas que lhe estão dedicadas é excepcional, mesmo quando retiramos as duvidosas e ficamos apenas com vinte e nove. Para se ter uma ideia, de Trebaruna conhecem-se apenas oito, a Ilurbeda há no máximo nove e há dezasseis dedicadas a Nabia. No ocidente ibérico, apenas dois deuses atingem os números de Ataécina: Bandua e Endovélico, este último com uns espantosos sessenta e sete achados epigráficos com o teónimo completo (Olivares Pedreño 2002: 229), a que se juntam fragmentos de diversas peças. É por aqui e pela proximidade geográfica entre os dois cultos – ela na zona de Cáceres e Badajoz, ele no Alandroal – que se começa a perceber o porquê da ideia de uma ligação entre Ataécina e Endovélico e o estatuto de grande importância que lhes é atribuído nos dias de hoje. Mas para além da questão geográfica, isto é, que a Lusitânia romana não correspondia necessariamente à pré-romana e, como tal, não é claro se os dois devem sequer ser classificados de deuses lusitanos, importa não ficarmos embasbacados com os números. Muito ou grande nem sempre é sinónimo de importância alargada. Em vez disso, deve-se olhar também para os epítetos e a distribuição dos altares para, aí sim, ter-se uma ideia mais segura do alcance e valor de um culto numa e entre comunidades.

É aqui que a ideia de Ataécina como a mais importante das deusas lusitanas perde terreno. Tanto quanto se percebe pelos sítios onde foram encontradas inscrições votivas, o culto dela estava concentrada naquilo que são hoje as regiões espanholas de Cáceres e Badajoz, com duas expansões que não sabemos até que ponto eram meramente individuais: uma para oriente, para os lados de Toledo, e outra para sul, na zona de Beja. E a juntar à concentração geográfica, há ainda o epíteto de Turibrigensi, que é de tal modo frequente que mais parece que a deusa era indissociável de Turibriga, dos seus habitantes ou dos que eram nativos à zona – para onde quer que eles viajassem. Não se lhe conhece qualquer outro epíteto tópico, ao contrário de Bandua, Arentio ou Quangeio, que têm vários em diferentes locais. O que sugere não numa divindade maior dos lusitanos, mas que Ataécina era uma deusa local ou de uma comunidade específica. O nosso embasbacamento moderno com o número de vestígios não é um sinónimo necessário de importância maior.

Claro que um epíteto com origem na toponímia não anula a possibilidade de um culto geograficamente abrangente. Por exemplo, Apolo Pythios não era adorado apenas em Delfos, mas reconhecido sob esse título um pouco por toda a Grécia, pelo que o mesmo podia talvez argumentar-se para Ataécina de Turibriga e embora, repito, as inscrições votivas estejam concentradas numa dada região. Mas as coisas não têm que se ficar pela sua origem, o que é ainda mais verdade hoje, quando se quer recuperar um culto antigo cujas comunidades originais desapareceram ou foram assimiladas a novas identidades. E desse modo, adorar ou não adorar Ataécina quando não se é das regiões de Cáceres e Badajoz é algo que eu deixo ao critério de cada indivíduo e dos laços que se estabelece com a referida deusa.

Se se optar por fazê-lo, eu diria que ela é uma divindade infernal, talvez com uma ligação à vegetação, mas sem certezas. Proserpina tinha-a, mas a identificação de diferentes membros de panteões distintos é um processo complexo que passa invariavelmente por uma simplificação. Um bom exemplo é Wodan ou Odin, que Tacitus faz corresponder a Mercúrio (Germania 9), mas sem que com isso se possa concluir que o deus romano presidia ao terror ou à carnificina do campo de batalha. A identificação é feita com base nas semelhanças entre os dois – comércio, trapaceiro, psicopompo – ignorando-se as diferenças que formam uma identidade individual. Assim, o facto de Ataécina ser assimilada a Proserpina não significa que as duas partilhavam em pleno as mesmas características, pelo que o que é verdade para a segunda pode não sê-lo para a primeira. Por outro lado, o sincretismo facilita uma transferência de funções, caso em que, se a deusa ibérica não possuía uma associação à vegetação, ela pode tê-la adquirido por via da assimilação ao seu equivalente greco-romano e mesmo que os dois cultos se mantivessem separados em algumas áreas. E o próprio elo com a cabra ou bode, que é historicamente conhecido, pode sugerir uma ligação à vida rural e desse modo aos ciclos agrícolas. Também aqui, tal como na questão do adorar ou não adorar Ataécina quando não se é de Cáceres ou Badajoz, deixo a função vegetal ao critério de cada indivíduo e da sua relação com a deusa.

4. Ideias para um culto moderno
Dependendo da tradição na qual se pretende prestar culto a Ataécina, podem haver regras e tabus dado o seu carácter infernal. A praxis ritual romana, por exemplo, implicaria ritos nocturnos fora de casa, o uso predominante da mão esquerda e a necessidade de um fosso para servir de altar. Mas estas características não se aplicam necessariamente a outras religiões politeístas. Já quanto a datas festivas, eu sugeriria algures entre o início de Outubro e o final de Fevereiro, isto é, a parte mais escura e fria do ano. Se mais para os derradeiros dias do Outono, se mais para o fim do Inverno, isso já depende da opção de atribuir ou não a Ataécina uma ligação aos ciclos agrícolas ou vegetais.

Referências bibliográficas
ABASCAL, Juan Manuel. 2002. “Ataecina”, in Religiões da Lusitania. Loquuntur Saxa, coord. José Cardim Ribeiro. Lisboa: Museu Nacional de Arqueologia, páginas 53-60.

BLÁZQUEZ MARTÍNEZ, José María. 2006. “Últimas aportaciones a las religiones de Hispania. Teónimos II”, in Ilu: Revista de Ciencias de las Religiones, número 11. Madrid: Universidad Complutense, páginas 205-235.

ENCARNAÇÃO, José d’. 2015. Divindades indígenas sob o domínio romano em Portugal. 2ª edição. Coimbra: Universidade de Coimbra.

FERNÁNDEZ NIETO, Francisco Javier. 2010. “Encuesta sobre las regulaciones de los luci hispanos”, in Palaeohispanica, volume 10. Zaragoça: Institución «Fernando el Católico», páginas 537-550.

LEITE DE VASCONCELOS, José. 1905. Religiões da Lusitânia, volume 2. Lisboa: Imprensa Nacional.

MONTEIRO TEIXEIRA, Sílvia. 2014. Cultos e cultuantes no Sul do território actualmente português em época romana (sécs. I a. C. – III d. C.). Dissertação de Mestrado em Arqueologia. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos. 2002. Los Dioses de la Hispania Céltica. Madrid: Real Academia de Historia; Universidad de Alicante.

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