Caso especial: Lares Viales

Há um grupo particular de deuses que, embora não sendo originalmente ibéricos – pelo menos na denominação latina de Lares Viales – foram bastante populares na península, em particular naquilo que é hoje a Galiza, e em contraste com a escassez de vestígios epigráficos no resto do mundo romano. O que faz deles um fenómeno ibérico e explica em parte o porquê de eu lhes ter reservado um olhar mais atento.

Historicamente, não é fácil distinguir os Lares Viales dos Lares Compitales, pelo óbvio motivo de que, a julgar pelos nomes, os primeiros presidem aos caminhos ou viae enquanto os segundos governam os cruzamentos ou compita. Daí que Varro, no seu De Lingua Latina – livro 6, capítulo 25 – diga que a Compitalia era uma celebração em honra dos Lares Viales. Esta é aliás uma das poucas referências escritas a esses deuses, sendo que há outra no Mercador de Plauto, linha 865, embora nesse caso não pareça haver confusão entre diferentes tipos de Lares. Mas enquanto os Compitales foram objecto de um culto público, tanto antes como depois da reforma de Augusto em 7 a.C. e tinham por isso múltiplos locais de culto (Beard et al. 2010: 184), não há notícia de que os Lares Viales tenham sido objecto de uma atenção idêntica, o que talvez explique o porquê de só se conhecer um altar a eles em Roma (CIL VI 36812). O que não quer dizer que tinham poucos adoradores – pelo menos não necessariamente – mas apenas que as estruturas e locais de culto que lhes estariam reservados eram mais simples e de uma natureza menos propícia a sobreviver à passagem do tempo. Coisas como pilhas de pedras à beira da estrada, que são uma expressão óbvia de um culto de viajantes e caminheiros, mas sem um estatuto oficial ou patronos endinheirados. E a escassez de vestígios em Roma é igualmente verdade para o resto do mundo romano, com uma clara excepção: a península Ibérica!

Ao todo, conhecem-se trinta e oito altares dedicados aos Lares Viales. Para além do já referido exemplar de Roma, há uma segunda peça em Itália (CIL XI 3079), uma da antiga Dácia (CIL III 1422), outra de Marrocos (CIL VIII 9755) e uma da Gália (CIL XII 4320). Há também três que foram encontradas na metade oriental do território ibérico (AE 1903 185; CIL II 2987), duas na província de Ávila (Hernando Sobrino 2005: 158-9) e depois… depois há vinte e oito no canto noroeste da península, em especial no que é hoje a Galiza (Franco Maside 2002: 218-9).

Localização de vestígios do culto aos Lares Viales na península Ibérica (mapa da minha autoria)

Localização de vestígios do culto aos Lares Viales na península Ibérica (mapa da minha autoria)

O motivo exacto desta desproporção não é claro, mas talvez tenha alguma coisa a ver com a romanização tardia do noroeste ibérico, pois enquanto o sul foi conquistado por Roma no começo do século II a.C., foi apenas cerca de duzentos anos depois que as Astúrias e as regiões circundantes foram submetidas. E sem surpresa, essa discrepância cronológica tem consequências culturais, principalmente quando se lhe junta o terreno acidentado e logo uma maior tendência isolacionista. Ou seja, na altura em que o norte estava a entrar no mundo romano, o sul ibérico já se encontrava integrado nele. Isso mesmo foi sugerido por William van Andringa, que notou que as devoções religiosas seguiam mais de perto as de Roma em regiões como a Bética, que tinha sido conquistada há mais tempo: em Tucci, a julgar pelos testemunhos epigráficos, os deuses Hércules, Júpiter Optimus Maximus e Pietas Augusta eram bastante populares, tal como eram Diana, Vénus, Libertas Augusta, Marte Augusto e os Lares Augustais em Singili Barba. Mas em Lugo, no que é hoje a Galiza, Júpiter era adorado lado a lado com divindades nativas (van Andringa 2011: 86). Motivo pelo qual Portela Filgueiras propôs que, no noroeste ibérico, os Lares Viales e o rei dos deuses romanos cumpriam o mesmo papel que o culto imperial noutras regiões, ou seja, eram uma expressão religiosa de lealdade ao Estado romano (1984: 157). Nesse sentido e apesar de o trabalho de Portela Filgueiras ter já três décadas, vale a pena referir que ela não encontrou quaisquer vestígios arqueológicos do culto dos Lares Augustais na Galiza e apenas dois (ou quatro, se contarmos a partir do rio Douro) aos Lares Romanos. E isso apesar de se conhecerem pelo menos duas dezenas de achados noutras partes da península Ibérica (Portela Filgueiras 1989: 161).

Se cumpriam o papel do culto imperial, então a popularidade dos Lares Viales na Galiza seria parte de uma fase inicial ou intermédia no processo de assimilação cultural. O que quer dizer que se tivesse começado mais cedo ou durado mais tempo, para lá da cristianização, talvez os Lares Augustais tivessem ganho a popularidade que pelos vistos não tinham e por ventura até substituído os Viales. Mas concluir com isso que eles eram populares apenas porque existia um esquema político nesse sentido, isso é ter uma visão superficial das coisas, dado que o sincretismo e a assimilação religiosas são facilitados por elementos em comum, por algo partilhado que permita ao novo ancorar-se no antigo e desse modo transitar-se de um para o outro. O que levou já a sugestões de que os Lares Viales da Galiza antiga eram, no fundo, uma máscara romana para práticas mais antigos (Santos Yanguas 2014: 254). Por outras palavras, que já existia na região um culto a divindades pré-romanas bastante populares e cujos adoradores encontraram nos Lares Viales uma expressão latina apropriada para o novo contexto. O que é uma explicação bastante mais convincente do que os movimentos de tropas romanas ao longo das estradas norte-ibéricas, pois se isso fosse verdade, então seria de esperar um número mais equilibrado de vestígios epigráficos. Em vez disso, tem-se uma concentração excepcional na Galiza, o que sugere que o motivo deve ser específico à região galega. Havia qualquer coisa de fora de comum no noroeste ibérico que, conjugado com a integração no mundo romano, levou a uma explosão do culto aos Lares Viales. Se atrás da denominação latina escondem-se de facto deuses nativos e quais, isso é uma questão à qual não se pode responder por escassez de dados. Mas é curioso que enquanto no mundo galo-romano houve uma proliferação de epítetos nativos para deuses romanos como forma de integrar as práticas religiosas – e.g. Mars Nodens, Apollo Belenus ou Silvanus Sinquas – na Galiza antiga o caminho seguido parece ter sido em parte outro.

Igualmente curioso é o facto de a Galiza continuar a ser uma terra religiosamente definida pela ideia de caminho, não para Roma ou qualquer santuário politeísta, mas antes o que conduz a Santiago de Compostela. E atenção, antes que alguém se apresse a tirar conclusões, eu não estou a dizer que a devoção galega a São Tiago é uma apropriação cristã de um culto pagão. É certo que há alguns elementos antigos, de que os moledros são talvez o exemplo mais claro, mas encontra-se a mesma prática de empilhar pedras nas bermas em quaisquer trilhos tradicionais europeus e sem que se possa atribuir uma origem politeísta a todos eles. E é verdade que, no século VI, São Martinho de Dume condenou o acender de velas em encruzilhadas (Da Correcção dos Rústicos 16), mas isso dificilmente prova a sobrevivência do culto dos Lares Viales na Galécia da alvorada da Idade Média. Primeiro, porque o mesmo texto, no mesmo capítulo, menciona também o culto a penedos e árvores, divinação, celebração da Volcanalia e calendas, entrar com o pé direito, atirar pão e vinho para as fontes e invocar Minerva quando se se tece. E segundo, porque isso obriga a perguntar se São Martinho de Dume estava a referir-se a práticas que existiam realmente na Galiza antiga ou se ele limitou-se a usar uma lista padronizada de práticas pagãs que seria empregue por qualquer missionário em qualquer ponto da Europa.

Um moledro no caminho para Santiago de Compostela (fonte).

Um moledro no caminho para Santiago de Compostela (fonte).

A verdade é que a História do santuário galego a São Tiago é complexa e não encaixa numa visão simplista do pré-cristão que deu lugar ao cristão. Para começar, porque as primeiras comunidades cristãs ibéricas remontam ao final do século II, enquanto que a suposta descoberta do túmulo do apóstolo data de c. 813. É um hiato de cerca de seis séculos e durante o qual aconteceu muita coisa: a oficialização do cristianismo, a proibição dos politeísmos tradicionais e iniciáticos, as invasões e fixação germânicas, renovada actividade missionária por São Martinho de Dume e outros, cismas e disputas internas entre diferentes ramos do cristianismo (arianismo, priscilianismo, donatismo, etc.), a conquista muçulmana de 711-4 e o início da chamada “reconquista” por volta de 720. Quando o corpo do apóstolo foi supostamente descoberto, o ambiente religioso da península já não era um de rivalidade entre cristãos e politeístas, mas entre diferentes formas de monoteísmo. E contava já com vários séculos disso. É de algum modo revelador que o dito túmulo de São Tiago, que morreu na Palestina e não na Galiza (Actos dos Apóstolos 12:2), possa ser na realidade o de Prisciliano, um bispo galego que foi decapitado por heresia em 385. Que, por ventura, vestígios de um suposto culto à sua memória tenham sido conjugados com lendas sobre São Tiago durante o primeiro século de guerra contra o sul muçulmano, criando assim um elemento aglutinador para os reinos cristãos do norte, isso mostra o quanto a realidade religiosa da época estava distante do período em que os Lares Viales foram adorados. Mais ainda se considerarmos que as crónicas asturianas do final do século IX e início do X nada dizem a respeito de Santiago de Compostela, o que obriga a aumentar ainda mais o hiato cronológico entre o período pré-cristão e o de popularidade do santuário jacobeu.

Isto não quer dizer que não haja uma continuidade, ainda que acidental, porque é um facto que a terra onde os Lares Viales foram mais populares continua a ser marcada pela ideia de caminho e viagem. E isto não pode ser simplesmente ignorado por quem, como eu, tem não só um interesse nas práticas religiosas pré-cristãs do ocidente ibérico, como também uma devoção por um deus precisamente dos caminhos e viajantes.

Assim, não me custa colocar os Lares Viales entre os deuses nativos, lado a lado com Arentio, Bandua, Nabia ou Reve e mesmo que eles não sejam originários da península. Porque o seu culto teve maior expressão no noroeste do território e de uma forma excepcional, não apenas tangencial, pelo que há qualquer coisa de ibérico nos Lares Viales, adquirido se não original, e que é reforçado pelo facto de a Galiza ser ainda hoje uma terra de peregrinos e viajantes e mesmo que os contornos religiosos sejam outros. No mínimo, é um caso de deuses fortemente radicados e que mantêm a sua influência. Indirecta e acidental, é certo, mas não obstante com alguma forma de continuidade. E por isso há também algo de ibérico no acto de empilhar pedras nas bermas, verter sobre elas vinho ou trigo e decorá-las com flores. São gestos que dão seguimento ao que parece ter sido uma devoção característica da península.

Referências bibliográficas
BEARD, Mary; NORTH, John; PRICE, Simon. 2010. Religions of Rome I: a History. Cambridge: Cambridge University Press.

FRANCO MASIDE, Rosa María. 2002. “Lares Viales na provincia de A Coruña”, in Gallaecia, número 21. Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, páginas 215-222.

HERNANDO SOBRINO, Maria del Rosario. 2005. “A propósito del teónimo Ilurbeda. Hipótesis de trabajo” in Veleia, número 22. Leioa: Universidad del Pais Vasco, páginas 153-164.

PORTELA FILGUEIRAS, Maria Isabel. 1984. “Los dioses Lares en la Hispania romana”, in Lucentum, número 3, Alicante: Universidad de Alicante, páginas 153-180.

SANTOS YANGUAS, Narciso. 2014. “El culto a los Lares Viales en Asturias”, in Ilu: Revista de Ciencias de las Religiones, número 25. Madrid: Universidad Complutense de Madrid, páginas 251-263.

VAN ANDRINGA, William. 2011. “Religions and the integration of cities in the Empire in the second century AD: the creation of a common religious language”, in A Companion to Roman Religion, ed. Jörg Rüpke. Blackwell: Oxford, páginas 83-95.

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