Cosus

Menos conhecido e ao que parece menos estudado do que Bandua, Cosus é um deus cujo culto ter-se-á concentrado no noroeste ibérico, em especial nas zonas costeiras, embora se possa ter expandido para lá dos Pirenéus. À semelhança de outros deuses ibéricos, a sua natureza exacta é desconhecida, embora haja pistas.

1. Informação
Há pelo menos dezanove aras com o teónimo Cosus ou variantes como Cossue, Coso ou Conso, a que acrescem dois outros achados epigráficos apenas com epítetos – Udunnaeo num caso, Neneoec[o] noutro – ambos atribuídos ao deus em altares encontrados em locais próximo, sugerindo que o total de inscrições votivas pode ascender às vinte e uma (Olivares Pedreño 2002: 166). Entre elas está uma dedicada a Cosuneae, encontrada em Citânia de Sanfins, podendo indicar que Cosus tinha uma parceira e embora a leitura do texto não esteja isenta de dificuldades (Encarnação 2015: 169-71). E acrescente-se ainda uma outra ara, em tempos tida como procedente de Braga, mas que pode ter tido origem na Aquitânia, no sul de França, e onde se pode ler Cososo deo Marti (Olivares Pedreño 2002: 157.2-158.1)

Tem-se assim um vestígio de uma relação com Marte, havendo outra indicação hipotética nesse sentido na ara de Brandomil, na região da Corunha, cujo texto foi interpretado como Coso M(arti) (Blázquez Martínez 1998: 252), apesar de a leitura não ser unânime. Quanto as epítetos registados, são vários e incluem Viascanno, Paeteaico, Soaegoe e Oenaego, para além do latim Domino, por ventura em referência a uma função que não é inteiramente clara.

Locais onde se encontraram vestígios do culto a Cosus (mapa da minha autoria).

Locais onde se encontraram vestígios do culto a Cosus (mapa da minha autoria).

Tirando a peça de possível origem francesa, a distribuição das aras conhecidas revela uma concentração ao longo da faixa costeira que vai do Douro à Corunha, embora de forma descontínua, havendo duas grandes bolsas, uma na região do Porto e outra na de Finisterra. Há ainda uma extensão mais para sul que não ultrapassa o Mondego e uma concentração excepcional de inscrições votivas no interior, na região de fronteira entre Leão e a Galiza, de onde provêm nove dos achados epigráficos conhecidos.

2. Interpretações
O debate sobre o sentido de cos- tem pendido largamente para uma interpretação guerreira ou aristocrática, algo que foi rejeitado por Prósper, que propôs uma raiz indo-europeia idêntica à do deus romano Consus com o significado de “reunião” ou “conjugação” e uma possível ligação ao celta condate ou “confluência de rios”. Cosus seria assim um deus aquático, algo que a estudiosa espanhola sustenta ainda numa interpretação hídrica dos epítetos (Prósper 2002: 250-1).

Se esta proposta etimológica vai contra a ara de Brandomil, Prósper resolve esse problema oferecendo uma alternativa à leitura Coso M(arti), defendendo em vez disso M(eobrigo) ou mesmo M(arcus), esta última em tempos proposta por Tranoy (Prósper 2002: 250). Olivares Pedreño concorda e favorece a hipótese de que a letra M é a abreviatura de um antropónimo, não de um teónimo latino, que por norma surge antes e não depois do nome da divindade nativa (Olivares Pedreño 2002: 67). Mas mesmo que se queira aceitar a possibilidade de M(arti), Prósper realça a hipótese de correspondência com Marte Condatis, conhecido de inscrições votivas encontradas em França e na Grã-Bretanha (2002: 241) e ligado precisamente à confluência de rios (Adkins 2000: 143).

Interpretação diferente teve Olivares Pedreño a respeito da natureza do deus ibérico, notando, para além da ara de possível origem francesa, que quase não há sobreposição entre as áreas onde Consus e Bandua parecem ter sido adorados, o que sugere que tinham funções idênticas, assumindo que duas divindades semelhantes não seriam normalmente cultuadas na mesma região sob pena de uma delas ser redundante (Olivares Pedreño 2002: 158.2). O estudioso espanhol chega mesmo a propor que estamos perante o mesmo deus com nomes diferentes, idênticos por sua vez a um Marte indígena (Olivares Pedreño 2002: 158-9). E é de Olivares Pedreño também a explicação para a concentração excepcional de aras a Cosus nos limites ocidentais de Leão, algo que ele atribui, na sua maioria, à migração de indivíduos originários das zonas costeiras da Galiza para trabalharem nas minas do interior (Olivares Pedreño 2007).

3. Hipótese de trabalho
É possível conjugar as propostas de Prósper e Olivares Pedreño? Talvez, se bem que fazê-lo obriga a clarificar que essa fusão de ideias não seria necessariamente a forma como Cosus era visto no período pré-cristão. Mas de modo a formular as bases de um culto moderno quando a informação herdada do passado é escassa e fragmentada, é preciso considerar os dados históricos e integrá-los, mas também conceber aspectos que se arriscam a ser inteiramente novos.

Neste caso, proponho como hipótese de trabalho a aceitação do sentido sugerido por Prósper para o nome do deus – reunião, confluência – mas aplicado a um contexto militar. Isto é, Cosus como o deus do exército, da reunião de soldados. Seria assim uma divindade passível de ser identificada com Marte, mas com uma natureza estritamente marcial, focada por inteiro no universo da guerra e por oposição aos sentidos apotropaico e comunitário mais alargados que propus para Bandua.

4. Ideias para um culto moderno
Assumindo esta hipótese – que é só isso e nada mais – as datas festivas de Cosus seriam assim as que possuem uma ligação à vida militar. Dias como o aniversário de grandes batalhas ou celebrações em memória de soldados caídos e com epítetos diferentes consoante se optar pela data de uma vitória, derrota ou homenagem fúnebre. A mesma opção pode ainda ditar os contornos exactos das cerimónias religiosas de acordo com a tradição ritual na qual o deus seja adorado.

Os animais de Cosus podem ser o cavalo e o corvo, enquanto que para símbolos pode-se optar pela lança e espada, em particular duas ou mais cruzadas de forma a representar a ideia de reunião. E seguindo ainda o sentido etimológico proposto por Prósper, os locais de culto podem ficar perto de confluências de rios onde as oferendas – bio-degradáveis, entenda-se! – podem ser depositadas.

Referências bibliográficas
ADKINS, Lesley e Roy. 2000. Dictionary of Roman Religion. Oxford: Oxford University Press.

BLÁZQUEZ MARTÍNEZ, José Maria. 2006. “Últimas aportaciones a las religiones de Hispania. Teónimos II”, in Ilu: Revista de Ciencias de las Religiones, número 11. Madrid: Universidad Complutense, páginas 205-235.

________. 1998. “Los cultos sincréticos y su propagación por las ciudades hispanorromanas”, in Los orígenes de la ciudad en el noroeste hispánico. Actas del Congreso Internacional. Lugo: Diputación Provincial, páginas 249-275.

ENCARNAÇÃO, José d’. 2015. Divindade indígenas sob domínio romano em Portugal. 2ª edição. Coimbra: Universidade de Coimbra.

OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos. 2007. “Hipótesis sobre el culto al dios Cossue en El Bierzo (León): explotaciones mineras y migraciones”, in Palaeohispanica, volume 7. Zaragoça: Institución «Fernando el Católico», páginas 143-160.

________. 2002. Los Dioses de la Hispania Céltica. Madrid: Real Academia de Historia; Universidad de Alicante.

PRÓSPER, Blanca Maria. 2002. Lenguas y religiones prerromanas del occidente de la Península Ibérica. Salamanca: Universidad de Salamanca.

Anúncios