Noções gerais

sobreiro

Tudo está cheio de deuses. Estas palavras, atribuídas a Tales de Mileto, exprimem não a noção de omnipresença de uma única entidade ou uma visão panteísta das coisas, mas a crença de que tudo tem as suas divindades. Ou dito de outra forma, que nenhum sítio está vazio de deuses, mas antes cheio de espíritos divinos. Plural, não singular! E o mesmo aplica-se à península Ibérica, território que conta já com vários milénios de presença humana e é portanto rico em divindades nativas ou radicadas.

Enumerá-las todas e analisá-las uma a uma seria excessivo para um blogue, mas porque queria dar a conhecer deuses e deusas da terra a que mais tarde se veio a chamar Portugal, criei não obstante uma pequena lista e reservei um olhar mais detalhado para algumas das divindades ibéricas. Tudo de uma forma que espero ser ao mesmo tempo acessível e com um mínimo de solidez histórica, indo além da mera repetição de conteúdos que prolifera pela internet e que se caracteriza tantas vezes – demasiadas vezes! – pela completa ausência de referências bibliográficas, escassez de sentido crítico e o aparente apego a teorias de um único estudioso, por norma o Leite de Vasconcelos, como se nada mais se tivesse escrito sobre o assunto. E também por isso, porque o imediatismo informativo e o desejo de conclusões rápidas são demasiado propícios à má compreensão, achei por bem juntar à lista e análise de divindades ibéricas os seguintes esclarecimentos:

1. As identidades do presente não são as do passado
Há um risco de anacronismo quando se fala em deuses portugueses ou espanhóis, pelo simples facto de que Portugal e Espanha, enquanto entidades políticas, são vários séculos posteriores à antiguidade clássica e pré-clássica. Nenhum lusitano, calaico ou túrdulo ter-se-ia reconhecido na nacionalidade portuguesa, dado que esta é uma construção relativamente tardia. E a fundação de Portugal, tal como a de Espanha, não teve nada de inevitável, pelo que é igualmente anacrónico falar-se dos povos pré-romanos como sendo uma espécie de anunciação do que aí vinha. Isso nada mais é do que uma fantasia nacionalista que se limita a projectar o presente sobre o passado e a olhar para a História como uma coisa providencial. Quando muito, pode-se falar em deuses portugueses e/ou espanhóis por referência às fronteiras modernas, o que, na melhor das hipóteses, é uma forma de (re)nacionalização, de construção de novos elos com o território, por ventura até com recurso a epítetos modernos, e não uma afirmação de identidades originais ou inerentes dessas divindades;

Línguas e etnografia ibéricas pré-romanas. Mapa de Alcides Pinto com base no trabalho de Luís Fraga.

Línguas e etnografia ibéricas pré-romanas. Mapa de Alcides Pinto com base no trabalho de Luís Fraga.

2. Sobreposições
Precisamente porque as identidades de ontem não eram as de hoje, os deuses aqui apresentados, principalmente os que são objecto de uma análise mais detalhada, não devem ser encarados como elementos de um panteão uno e coerente. Em vez disso, são deuses de diferentes comunidades e grupos étnicos que tanto habitavam o que é hoje parte do território português como extravasavam os seus limites. E isso quer dizer que vamos encontrar divindades com papéis semelhante ou mesmo idênticos, o que pode parecer-nos redundante, mas não o era à época porque não estamos a falar de deuses nacionais de Portugal – e como tal não de um único panteão – mas da vida religiosa de comunidades e grupos distintos, “países diferentes” se quisermos, e que ocupavam apenas parte do que é hoje o território português;

3. Pluralidade ritual
Regra geral, não se sabe ao certo ou com detalhe como é que os diferentes deuses ibéricos eram adorados. Não se conhecem gestos e orações tradicionais, as datas festivas de cada um deles, os símbolos que os representavam ou sequer o tipo de espaços sagrados que lhes estavam consagrados. São escassas as descobertas arqueológicas que revelam alguma dessa informação e, não sem motivo, supõe-se que, a partir de dada altura, pelo menos a maioria dos deuses ibéricos recebeu um culto romano ou romanizado. O simples facto de a esmagadora maioria dos teónimos serem conhecidos graças a altares clássicos é um claro sintoma das mudanças culturais sofridas pelas religiões nativas durante o período romano.

Isto responde em parte à questão de como é que os deuses do ocidente ibérico devem ser adorados nos dias de hoje. O rito romano é uma opção perfeitamente legitima, dado que conta com um precedente histórico multissecular. Mas há outras possibilidades igualmente válidas, a começar por fórmulas rituais celtas, às quais várias das divindades ibéricas terão sido nativas, a que acresce a opção mista de um culto do tipo galo-romano. E depois pode-se também considerar sistemas rituais modernos, como o wiccan ou neodruidico. Os mesmos deuses podem ser adorados de diferentes maneiras e qual a tradição a seguir é algo que, em última análise, depende do tipo de relação firmada entre a divindade e as pessoas que lhe prestam culto;

4. Ponto de partida e não de chegada
O que está escrito nestas páginas não esgota o tema. É um apanhado geral da informação e das teorias interpretativas, servindo acima de tudo como introdução a partir da qual se oferece uma visão mais completa e historicamente sólida de diferentes divindades. Quem quiser saber mais pode aprofundar a matéria seguindo as referências bibliográficas ou fazendo pesquisa pelos teónimos. E ao fazê-lo, por ventura, pode chegar a conclusões diferentes das minhas;

5. A dúvida é rainha e senhora
Essa possibilidade existe porque o que temos é feito de muitas hipóteses e poucas certezas. Os dados são escassos, muito fragmentados e não há como complementá-los com tradições e mitos antigos, dado que não chegaram até nós quaisquer fontes primárias com essa informação. Quando muito, há um ou outro relato breve por autores clássicos que eram exteriores aos povos pré-romanos e cujas palavras podem assim estar enviesadas por preconceitos culturais. E para muitas divindades ibéricas, tem-se apenas o nome e pouco mais. O espaço para a formulação de teorias é por isso enorme, não porque seja uma espécie de vale tudo – não estamos inteiramente no escuro – mas porque a dúvida tem a última palavra em muitos aspectos;

6. Raízes velhas, ramos novos
Já o dei a entender, mas a lista de deuses que aqui se apresenta não serve apenas para partilhar conhecimento e tem como finalidade última oferecer um ponto de partida para quem lhes quiser prestar culto. Claro que fazê-lo nos dias de hoje obriga a ir além da informação histórica, não só porque o contexto actual é muito diferente do de há dois mil anos, mas também porque a informação sobrevivente é de tal forma reduzida que, por si só, ela não permite a reconstrução de um sistema religioso funcional. Uma vez mais, isto não quer dizer que a solução seja uma espécie de vale tudo, porque não obstante há um ponto de partida histórico que, no mínimo, deve ser tido em conta. Até porque o pouco que se tem foi produzido por pessoas que acreditaram e adoraram estes deuses, nutriram relações com eles, pelo que pura e simplesmente desprezar as suas experiências em vez de se tentar aprender com elas é quase uma forma de húbris. O passado ensina e há que escutá-lo quando se retira dele alguma coisa.

E o que significa ir além da informação histórica, mas sem perdê-la de vista? Quer dizer que vamos ter que optar por uma teoria interpretativa formulada com base em dados concretos – por oposição a inventar do nada ou apenas por intuição – e a partir daí construir um culto novo com elementos igualmente novos, mas que não contradigam o essencial da informação histórica. Porque a escassez de dados e a diferença de contexto em relação ao mundo antigo obrigam a inovar se se quer ter cultos vivos e funcionais, mas sem fazer tábua rasa das experiências e conhecimento de quem nos antecedeu. Ou dito de outra forma, há que ser como uma árvore centenária, raízes bem assentes no solo profundo e ramos ao alto em constante crescimento. Se só se tem as primeiras porque o passado é a única fonte, não se passa de um cepo morto; se só se tem os segundos porque o que interessa é o presente, não se é uma árvore sequer.

7. Falo por mim e apenas por mim
Nesse sentido e à excepção da página sobre os Lares Viales, que são um caso excepcional com características próprias, todos os olhares mais detalhados sobre diferentes divindades estão organizadas de modo a fazer uma distinção clara entre a informação disponível, interpretações que têm sido propostas por diferentes estudiosos, a hipótese de trabalho pela qual eu optei e, com base nela, ideias minhas para um culto moderno. Friso: ideias minhas! Não estou a oferecer dogmas ou mandamentos, apenas sugestões. E muitas delas de forma desinteressada, dado que eu não presto culto à maior parte dos deuses ibéricos. Não porque tenha alguma coisa contra eles, mas porque cada pessoa tem as suas preferências e as minhas incidem sobre um conjunto limitado de divindades. Mas por uma questão de consistência e porque os interesses dos outros são naturalmente distintos dos meus, ofereço ideias para diferentes cultos, delimitando a hipótese de trabalho que lhes está na base e distinguindo-a da informação concreta. É a forma mais honesta e aberta de pôr as coisas e permite a quem lê tirar as suas próprias conclusões, pegar ou largar e, se assim o entender, formular outra hipótese de trabalho. Se isto tiver como resultado variações nas concepções e cultos, pois que seja. A diversidade é algo natural e deve ser aceite como tal;

8. A mudança é uma constante da vida
Última nota a reter: a informação aqui oferecida sobre diferentes deuses ibéricos pode ser actualizada ou sofrer alterações caso surjam novos dados ou teorias e principalmente se a minha perspectiva for alterada em resultado disso. Uma vez mais, eu não estou a oferecer dogmas, mas apenas ideias e hipóteses de trabalho que estão naturalmente sujeitas às condições presentes.

Dito isto, boa leitura!
E se das palavras decidires passar à prática, boas experiências!