Ilurbeda

Ilustre desconhecida, em parte porque o número de altares descobertos é limitado, Ilurbeda parece ter sido adorada em zonas montanhosas do ocidente ibérico. A sua natureza exacta não é inteiramente clara, mas não estamos no escuro e há informação suficiente para lançar as bases de um culto moderno com algum fundamento histórico.

1. Informação
Conhece-se um total de nove altares com inscrições votivas a Ilurbeda, três em Portugal e os restantes em Espanha (Prósper 2010/2011: 54-5). Foram encontrados em áreas montanhosas, quase todos em zonas mineiras ou locais relativamente próximos e, no caso das duas de Covas dos Ladrões, em Góis, no interior do poço de uma mina (Olivares Pedreño 2002: 50.1). A grande excepção neste cenário é a ara proveniente de Terrugem, no concelho de Sintra, embora mantenha a nota montanhosa. E de todos os vestígios arqueológicos, o mais monumental é o altar de Segoyuela de Cornejos, na região de Salamanca, com 78 centímetros de altura e feito por inteiro de mármore branco (Olivares Pedreño 2002: 50.1).

Não há registo de epítetos ou sequer de uma identificação com outras divindades, excepção feita para uma associação aos deuses dos caminhos numa ara encontrada em Narros del Puerto, na província de Ávila, onde figuram as letras LV, passíveis de serem lidas como Lares Viales graças a outra inscrição encontrada nas proximidades (Hernando Sobrino 2005: 159). E no achado epigráfico de Terrugem parece constar a expressão pro salute ou “pela saúde” (Olivares Pedreño 2002: 171).

Locais onde se encontraram vestígios do culto a Ilurbeda (mapa da minha autoria).

Locais onde se encontraram vestígios do culto a Ilurbeda (mapa da minha autoria).

2. Interpretações
A informação sobre Ilurbeda é portanto escassa, tendo-se apenas a análise etimológica e o contexto dos achados como base para as hipóteses sobre a sua natureza. A respeito da primeira, no passado realçou-se a presença frequente dos elementos i-, ili- e ilur- na onomástica ibérica, levando à sugestão de uma raiz indígena do teónimo, por ventura até com uma ligação ao basco Ilurberrixo (Encarnação 2015: 202). No mesmo sentido foi muitas vezes a análise da componente ilur-, à qual já se deu o significado de “espinho” ou “terra” e, com mais frequência, “cidade” ou “vila”, enquanto que para o elemento beda propôs-se o basco bide (caminho), um vocábulo ibérico para “montanha” ou então o proto-celta *bedo (fosso, canal) (Hernando Sobrino 2005: 156-7).

As primeiras aras a serem descobertas foram as de Góis, na década de 1950, e foi só cerca de vinte anos depois que vieram à luz outras peças. Por esse motivo, entre as hipóteses iniciais sobre a natureza de Ilurbeda havia a de que era uma divindade local (Hernando Sobrino 2005: 153-4) e Blázquez, laconicamente, descreveu o nome da deusa como um teónimo que era um topónimo (Encarnação 2015: 202). Mesmo quando a descoberta de aras adicionais deitou por terra essa hipótese, manteve-se viva a teoria de uma função tutelar de uma localidade, em boa medida graças à interpretação urbana do elemento ilur-. Em 2002, José Cardim Ribeiro ainda a punha em cima da mesa, sugerindo tratar-se da divindade protectora de Ilourbida, cidade referida por Ptolomeu, e que a propagação do seu culto devia-se à migração de habitantes dessa localidade (Encarnação 2008: 357). Por sua vez, em 2005, Maria Hernando Sobrino deu uso a achados então recentes e abordou o tema a partir da ligação aos Lares Viales. Propôs assim uma a leitura de beda como “caminho” e faz notar que os altares a Ilurbeda encontravam-se, na sua maioria, junto a vias de comunicação, o que permitiu-lhe colocar a hipótese de uma divindade das estradas de montanha, por ventura a que auxilia na viagem por trilhos difíceis (Hernando Sobrino 2005: 160-4).

Opinião diferente e mais recente teve Prósper, que rejeitou em simultâneo uma ligação à onomástica ibérica e à língua basca, propondo em vez disso uma etimologia celta que faz de Ilurbeda uma sacralização da mina (bedo) de ouro (iluro) (2010/2011: 56-8 e 62 e seguintes). Põe igualmente de parte a interpretação de Sobrino, embora lá diga que *bedo também podia ter o sentido de um trilho de pastores, mas explica a ligação epigráfica aos Lares Viales por via do transporte do metal extraído das minas, o que obrigaria a uma dupla homenagem – de um lado à deusa da mina, do outro aos deuses das estradas (Prósper 2010/2011: 56).

Por fim, Olivares Pedreño sugere que Ilurbeda seria proveniente do que é hoje a região de Salamanca, dada a monumentalidade do altar de Segoyuela de los Cornejos, o que faria dela uma deusa vetã. A expansão do seu culto e a consequente descoberta de altares em Góis e Terrugem – este último duvidoso para Pedreño – ficar-se-ia a dever a migrações laborais, isto é, à deslocação de vetões para trabalhar em minas a ocidente (2002: 50.2 e 58.2; 2007: 149-50).

3. Hipótese de trabalho
Parece ser minimamente segura a ligação de Ilurbeda às montanhas. É esse o contexto de todos os achados arqueológicos e mesmo a ara descoberta no concelho de Sintra reforça essa ideia, dado que pode ser o produto da devoção de alguém que quis homenagear a deusa usando como referência aquilo que a definia: uma serra ou montanha. Menos segura, no entanto, é a que parte desse elemento da paisagem é que a divindade estava associada. Apenas ao interior, em especial às minas? Ou também ao exterior, nomeadamente aos trilhos?

A minha opção recai sobre uma hipótese abrangente que define Ilurbeda como uma deusa dos caminhos montanhosos. A sua primeira esfera de influência são os subterrâneos – as minas, os túneis, as grutas; mas nem que seja por associação, preside também aos que estão à superfície – os trilhos de cabras, as estradas de montanha. E nesse aspecto, o seu mundo cruza-se com o dos Lares Viales, aos quais ela pode assim ser associada. Pela mesma ordem de ideias, abre-se ainda a possibilidade de uma ligação, ad hoc ou outra, a deuses das serras e montanhas ou dos caminhos.

4. Ideias para um culto moderno
Não é fácil escolher um dia festivo para Ilurbeda, dado que as serras caracterizam-se pela sua aparente imobilidade e o uso das suas estradas ou a exploração mineira não são normalmente sazonais. A menos, é claro, que seja uma área onde a queda de neve forte ocorra com regularidade, caso em que o degelo primaveril e a consequente abertura dos caminhos podem justificar oferendas anuais a Ilurbeda. Ou até ambos os momentos, isto é, a abertura e o encerramento sazonais das estradas e trilhos. E também se pode recorrer a efemérides modernas como o Dia Internacional das Montanhas, que se celebra a 11 de Dezembro.

Quanto a símbolos, as hipóteses que mais me ocorrem são o cajado, a candeia e a picareta. E para animais, há a escolha óbvia do morcego para os caminhos subterrâneos e da ovelha ou cabra para os que estão à superfície, em particular se o animal tiver o pêlo negro, a fazer lembrar um mineiro ou a ausência de luz de uma mina.

Referências bibliográficas
ENCARNAÇÃO, José d’. 2015. Divindades indígenas sob o domínio romano em Portugal. 2ª edição. Coimbra: Universidade de Coimbra.

________. 2008. “Octávio Veiga Ferreira – Percursos em Cascais e pela arqueologia clássica” in Estudos Arqueológicos de Oeiras, número 16. Oeiras: Câmara Municipal de Oeiras, páginas 351-362.

HERNANDO SOBRINO, Maria del Rosario. 2005. “A propósito del teónimo Ilurbeda. Hipótesis de trabajo” in Veleia, número 22. Leioa: Universidad del Pais Vasco, páginas 153-164.

OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos. 2007. “Hipótesis sobre el culto al dios Cossue en El Bierzo (León): explotaciones mineras y migraciones”, in Palaeohispanica, volume 7. Zaragoça: Institución «Fernando el Católico», páginas 143-160.

________. 2002. Los Dioses de la Hispania Céltica. Madrid: Real Academia de Historia; Universidad de Alicante.

PRÓSPER, Blanca María. 2010/2011. “The Hispano-Celtic divinity ILVRBEDA, gold mining in western Hispania and the syntactic context of Celtiberian arkatobezom ‘Silver Mine’”, in Die Sprache, número 49. Viena: Universidade de Viena, páginas 53-83.

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