Nabia

Quando se fala em deuses ibéricos, há um número limitado de nomes que surge na mente de quem, no grande público, já leu alguma coisa sobre o assunto. Endovélico é um deles, Ataécina será outro. E o mais provável é que o terceiro seja Nabia, deusa que no imaginário popular e não sem fundamento histórico permanece ligada às águas.

1. Informação
A julgar pelos vestígios arqueológicos, Nabia era a deusa mais popular do noroeste ibérico e a única com um carácter supra-local (Olivares Pedreño 2002: 235.1). Há pelo menos dezasseis achados epigráficos que lhe foram dedicados, oriundos da Galiza, província de Cáceres e de Portugal, em especial a norte do rio Douro (Olivares Pedreño 2002: 234). A grafia é estável, excepção feita para a variação entre as letras b e v, e há alguns elementos iconográficos: a ara descoberta em San Mamede de Lousada, na região de Lugo, tinha um crescente lunar gravado (Olivares Pedreño 2002: 233.1); e na chamada fonte do ídolo, em Braga, a figura que surge com o que o que parece ser uma cornucópia talvez seja uma representação da deusa (Blázquez Martínez 1998: 259). Há ainda registo dos epítetos Arconunieca, Elaesurraeg[a], Sesmaca e Corona, este último contido na ara de Marecos, a qual é especialmente importante e por vários motivos.

Locais onde se encontraram vestígios do culto a Nabia (mapa da minha autoria).

Locais onde se encontraram vestígios do culto a Nabia (mapa da minha autoria).

Em primeiro lugar, porque trata-se de um altar que regista um sacrifício anual e cuja inscrição menciona a deusa duas vezes, uma com o referido epíteto e outra sem. Para mais, surge juntamente com Júpiter e é também descrita como “excelente virgem protectora e ninfa dos Dánigos”, sendo-lhe sacrificada uma vaca e um boi, enquanto que a Nabia sem epíteto é dado um cordeiro. E naquilo que é um pedaço de informação raro no universo das religiões ibéricas pré-cristãs, a ara regista igualmente a data do sacrifício: o quinto dia antes dos idos de Abril, isto é, o dia 9 desse mês (Salinas de Frias 2010: 624). O que é excepcional, dado que pouco ou nada se sabe sobre as festividades religiosas a divindades nativas do ocidente ibérico.

Para além de Júpiter, existe a possibilidade de uma associação a dois outros deuses. Um deles é Coronus, que se conhece por uma ara descoberta em Cerzedelo (Olivares Pedreño 2002: 238.1), e o outro será por ventura Tongo, dado que a fonte do ídolo refere um Tongusnabiacus, termo que tem sido objecto de diferentes hipóteses interpretativas. O mesmo monumento contém ainda dois elementos iconográficos na parte superior de uma pequena edícula: uma ave e, por ventura, uma maça ou martelo.

A fonte do ídolo em Braga.

A fonte do ídolo em Braga.

2. Interpretações
Desde o início do século XX que se atribui ao teónimo um significado ou, pelo menos, uma conotação aquática. Foi o caso de Leite de Vasconcelos, que propôs uma relação com o sânscrito navya ou “curso de água”, apoiado pelo parecer que D’ Arbois de Jubainville lhe enviou por carta (1905: 254 e 278). Também houve quem propusesse uma ligação com o galês naf ou “deus”, ideia rejeitada por Prósper (2002: 193), que recusou igualmente uma raiz em *náwyos – navegável ou relativo a uma frota. Em vez disso, a estudiosa espanhola defendeu uma origem em *nawa ou nava, termo que conteria uma alusão a cursos de água ou aquíferos contíguos a vales (Prósper 1997: 142-7). Jorge de Alarcão agarrou nessa ideia e traduziu Nabia como “a (senhora) do vale” ou “a que mora no vale” (2009: 101).

A hipótese de um carácter aquático é reforçada pela fonte do ídolo, em si já um espaço relacionado com a água, mas neste caso acrescido de um altar a Nabia dedicado por uma mulher (Olivares Pedreño 2002: 222.1) e uma inscrição que refere um Tongusnabiacus. O nome é passível de ser dividido em dois elementos, sendo que ao primeiro – tongus – Leite de Vasconcelos atribuiu a raíz *tongo e o significado de “eu juro”; ao mesmo tempo, ao dar a nabia um sentido comum de curso de água – por oposição a ser o nome próprio de uma deusa – o mesmo estudioso concluiu que Tongusnabiacus era o deus da fonte pela qual se jura (1905: 255-6 e 279). Tese semelhante teve Teixeira, embora ele interpretasse o nome como uma referência ao monumento ou altar pelo qual se jura a Nabia, e Cortez viu nele um deus salutar semelhante a Esculápio. Nada que convencesse José d’ Encarnação, que considera segura a relação entre Tongus e Nabia como par divino e recusa uma identificação com o deus grego da saúde (Encarnação 2015: 285-7). Por sua vez, Prósper rejeitou a raiz em *tongo (jurar, juramento) e defendeu em vez disso *teng, que traduz por “molhar” ou “humidificar” (2002: 162), o que sugere um deus aquático. No entanto, a estudiosa hesitou em ver em nabiacus uma referência à deusa Nabia, dado que, argumenta ela, o vocábulo pode estar ligado ao rio com o mesmo nome (Blázquez Martínez 2006: 214). Jorge de Alarcão partilha da cautela, mas com uma perspectiva um pouco diferente, acreditando ser Tongus um deus ou génio local da fonte e que nabiacus tanto podia indicar a sua vinculação a um vale, como o estatuto de companheiro de Nabia (Alarcão 2009: 87-8 e 101).

Vem isto a propósito das funções atribuídas à deusa, pois a fonte do ídolo abre ou reforça a tese de uma equivalência com Nantosvelta, divindade celta que no mundo galo-romano era frequentemente acompanhada pelo deus Sucellus (Green 2011: 89). Jorge de Alarcão propô-lo por via da etimologia, fazendo notar a raiz do teónimo Nabia na ideia de vale e a leitura de Nantosvelta como “a do vale aquecido pelo sol” (2009: 101), e embora também se proponha o significado alternativo de “rio sinuoso” (Green 2011: 89). Em qualquer caso, a sinuosidade de um curso de água é uma característica normal do terreno acidentado, pelo que as propostas etimológicas para Nantosvelta não têm que ser contraditórias. Mas mesmo que as duas deusas não sejam exactamente a mesma, algo que foi realçado por Alarcão, a fonte do ídolo e o caso de Tongusnabiacus contribuem para a possibilidade de uma ligação graças à presença de uma ave e o que parece ser uma maça na topo da edícula gravada na pedra. Isto porque Nantosvelta é por norma representada com corvos, enquanto Sucellus surge com um martelo (Mackillop 2004:342 e 393). E embora os símbolos sejam polissémicos, conforme refere Jorge de Alarcão (2009: 101), os indícios não deixam de ser interessantes. As opiniões têm-se dividido: Tranoy achou válida a equivalência entre Nabia-Tongus e Nantosvela-Sucellus; Rodríguez Colmenero considerou rebuscado ver uma ave, por ventura uma pomba, e um martelo na edícula da fonte do ídolo, enquanto Olivares Pedreño concordou com Tranoy (2002: 221-2). Aliás, mais do que concordar, Pedreño desenvolveu a ideia.

Se Alarcão viu em Nabia uma possível deusa da primavera, talvez uma Proserpina ibérica aparentada com Nantosvelta, até pela data primaveril do sacrifício da ara de Marecos (2009: 101-2); se Blázquez Martínez considerou-a como uma divindade da terceira função duméziliana (1998: 254) e se outros viram nela uma deusa ctónica (Encarnação 2015: 242); se Melena conceba-a como uma divindade dos montes, bosques, vales e, desse modo, um equivalente da Diana romana com uma ligação aos cursos de água (Olivares Pedreño 2002: 233.1), Pedreño foi mais longe e propôs para Nabia um carácter polifuncional.

O estudioso espanhol começa por notar a variedade de locais onde as aras foram encontradas, de vales a cumes isolados e ainda fontes e espaços povoados, a que se juntam os epítetos Sesmaca, talvez ligado ao castellum Sesm[…], e Arconunieca, por ventura uma referência a uma área habitada (Olivares Pedreño 2002: 234.1 e 239.1). Ambos sugerem uma função tutelar local, o que podia dar azo a um alargamento da sua esfera de influência à defesa e portanto guerra (Olivares Pedreño 2002: 239). E a isto junta-se a vinculação a Júpiter na ara de Marecos, onde o epíteto Corona sugere igualmente uma ligação com Coronus, deus que se conhece por um altar encontrado no cimo de um monte em Cerzedelos e perto de outra ara, mas dedicada precisamente a Júpiter. Há portanto a possibilidade de uma identificação entre os deuses nativo e romano e de Nabia como parceira dos dois (Olivares Pedreño 2002: 238.1). Mas a ara de Marecos refere-se a Nabia Corona como virgem e ninfa protectora dos Dánigos, pelo que em que ficamos? Celestial e equivalente a Juno ou, em alternativa, uma deusa das águas por ventura semelhante a Diana? A resposta de Pedreño é simples: as duas! Uma entidade polifuncional à imagem aliás da própria Juno, ao mesmo tempo uma divindade das mulheres e da fertilidade feminina, mas também do Estado e do exército, consoante o epíteto ou aspecto. E o académico espanhol oferece ainda os exemplos de Sarasvati, Anahita, Morrigan e Brigit, deusas cujos papéis não são reduzíveis a uma única função dumeziliana. Nabia seria outro caso, passível de ser adorada como parceira de um deus celestial e ninfa tutelar e nesse sentido identificável ora com Juno, ora com Diana, por ter características das duas (Olivares Pedreño 2002: 239-244). Algo que, de resto, seria igualmente verdade para Nantosvelta (Olivares Pedreño 2002: 227.2). Nesse aspecto, note-se o que eu disse a respeito do sincretismo na minha hipótese de trabalho para Bandua.

Não quer isto dizer que houvesse mais do que uma Nabia, algo que chegou a ser defendido por Leite de Vasconcelos (1905: 279-80), mas apenas que ela era adorada com diferentes funções e logo com diferentes aspectos consoante o contexto ou necessidades dos cultuantes. Algo que também se verifica, por exemplo, para Juno: como Regina ela era a rainha dos deuses, como Sororia ela presidia à puberdade feminina e como Curitis ela assumia a forma de uma deusa da guerra (Adkins 2000: 116-9).

Se de facto há uma relação entre Nabia-Tongus e Nantosvelta-Sucellus, fica por explicar a sua origem, se um mero produto diverso de uma base comum, se o resultado de um avanço da cultura celta de este para oeste. Ou por ventura de norte para sul, uma vez que Prósper considera a forma Navia como a mais arcaica e portanto a original, levando à conclusão de que o culto da deusa teve origem no que é hoje a Galiza antes de se expandir para sul (1997: 145). Opinião diferente teve Melena, que teorizou sobre uma origem bracarense e posterior expansão pelas vias de comunicação romanas, algo criticado por Prósper e rejeitado por Olivares Pedreño (2002: 233-4).

3. Hipótese de trabalho
Parece-me redutor olhar para Nabia apenas como uma deusa dos rios. A localização das aras conhecidas e a associação a deuses celestiais ou soberanos sugerem que há algo mais, o que não anula uma ligação profunda ao elemento aquático. A etimologia, o crescente lunar, a fonte do ídolo e a descrição na ara de Marecos como ninfa e virgem, tudo isso aponta num mesmo sentido. Mas será talvez mais útil olhar para Nabia como algo ao nível da Senhora do Lago das lendas arturianas, que não deixa de ser uma fonte de soberania apesar de residir nas águas. Por outras palavras, não é uma deusa que se possa reduzir a uma mera função produtiva ou dadora de prosperidade.

Tal como para Bandua e Quangeio, a minha hipótese de trabalho para Nabia é assim abrangente e concebe-a como uma deusa do elemento húmido de um modo geral: na acepção celestial, o que inclui a chuva, nevoeiro e a neblina; no sentido terrestre e desse modo uma divindade dos rios, lagos e lagoas; e na acepção ctónica, das nascentes e rios subterrâneos. O que faz dela uma deusa ao mesmo tempo soberana, passível de ser associada a divindades do céu ou montanhas, mas também um garante da água da vida e como tal da prosperidade e sem deixar de ter uma ligação com o submundo por via das nascentes e rios subterrâneos. Ou mesmo dos que correm à superfície, por vezes tidos como pontos de passagem para o Além. É uma barqueira, ninfa dos vales húmidos e das nascentes, mas também uma guardiã de espada em punho, senhora celestial com um manto de neblina e protectora de comunidades humanas. Não diria que é idêntica a Nantosvelta, mas tem certamente elementos em comum com ela. E também não diria que Tongus é o mesmo que Sucellus, até porque parece ser apenas um deus local, ao contrário do segundo, mas há igualmente elementos em comum.

4. Ideias para um culto moderno
Para Nabia, a data festiva óbvia é 9 de Abril. No entanto, não se conhece os motivos que determinaram a escolha desse dia para o sacrifício registado na ara de Marecos e os calendários festivos da antiguidade eram acima de tudo locais, pelo que nada impede que se opte por outras datas ou, em alternativa, por uma solução de compromisso em que se mantém o dia, mas muda-se o mês. Por exemplo, 9 de Março e depois uma segunda celebração a 9 de Outubro, uma no final do inverno e outra pouco depois de terminado o verão, assinalando assim o fim e o princípio da época de mais chuva. E dependendo da vida local – das festas, tradições, microclima, comportamento da fauna – pode-se escolher outros meses.

Quanto a animais sagrados, Prósper, com base na fonte do ídolo, sugere que a pomba pode ter sido um símbolo de Nabia (2002: 166), o que talvez esteja correcto e embora a gravura seja parca em detalhes. Mas é sem dúvida alguma uma hipótese, à qual eu acrescentaria a opção moderna da garça, em especial a garça-real, por estar simultaneamente associada à água e ao céu. Outra hipótese é o corvo, à imagem e semelhança de Nantosvelta, ou em alternativa o corvo marinho, que não é um necrófago, mas mantém a cor negra e possui uma associação ao elemento aquático. Ainda a água pesqueira e por fim o urso, animal ao mesmo tempo ligado aos montes e bosques, mas também com uma forte tradição como símbolo de força e realeza. Qualquer um destes animais pode ser usado como símbolo de Nabia, inclusive conjugado com o crescente lunar, uma bilha de água, um fontanário ou um remo, para dar apenas alguns exemplos.

Seguindo o exemplo dos registos epigráficos, pode-se-lhe atribuir epítetos locais que vinculem a deusa a povoações ou concelhos, como seja Conimbricense, Escalabitana ou Lisboeta/Olisiponense, conjugados com datas festivas ligadas à história, fauna ou flora locais e com símbolos e tradições correspondentes. Na mesma senda de criação de um culto moderno para uma deusa antiga, religando-a às identidades de hoje e tomando como ponto de partida a hipótese de trabalho de uma divindade polifuncional, Nabia pode igualmente receber o epíteto de Portugalensis ou Portuguesa. Nessa função, seria uma deusa padroeira de Portugal, sem prejuízo de um papel idêntico para outras nacionalidades ibéricas. Há ainda a hipótese de uma Nabia doméstica associada ao culto dos antepassados, por um lado com base na sua ligação ctónica e às águas que conduzem ao Além e, por outro, na sua dimensão de padroeira da comunidade nacional, criando-se assim uma dinâmica de micro-macrocosmos em que a minha casa é o meu país e o meu país é a minha casa. E nesse sentido, Nabia seria também uma das deusas a adorar aquando do nascimento ou adopção de novos membros da família – incluindo animais de estimação – ou, na dimensão nacional, naturalização de novos cidadãos, que mais não é do que uma adopção no seio da comunidade supra-doméstica.

Referências bibliográficas
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