Outros deuses e deusas

Há muitas mais divindades ibéricas para lá daquelas a que dediquei uma análise mais detalhada, mas a sua popularidade parece ter sido menor, a informação de que se dispõe é ainda mais escassa ou têm sido alvo de reduzida atenção da parte de estudiosos modernos. O que há para dizer sobre eles é assim bastante limitado. No entanto, porque a religiosidade nativa dos ibérios pré-cristãos não se resumia a algumas grandes divindades, o que se segue é uma lista que complementa a análise e, volto a esclarecer, sem que seja uma recolha exaustiva dos teónimos do ocidente ibérico.

Aerno
Está registado em três achados epigráficos, dois de Castro de Avelãs e um de Macedo de Cavaleiros (distrito de Bragança), a que se junta talvez um quarto oriundo da região galega de Pontevedra (Blázquez Martínez 2010: 517). Leite de Vasconcelos admitiu não ter como descortinar a natureza deste deus, dizendo ser bastante difícil fazer uma análise etimológica do teónimo (1905: 340). Mas outros não tiveram o mesmo problema e logo no século XIX propôs-se uma raiz em air- (pôr-se em movimento, ir) ou então o sentido de tomar ou escolher (de ai+ro) (Encarnação 2015: 81). Outras hipóteses passaram por uma natureza aquática, o estatuto de deus tutelar dos Zoelas – um grupo étnico que habitava a região – e ainda uma divindade da vegetação, proposta que José d’ Encarnação julgou não ser impossível, por um lado por comparação com o grego érnos (ramos, planta, rebento) e, por outro, dado os elementos decorativos de uma das aras, onde surgem o que parecem ser três pinheiros (Encarnação 2015: 81-5). Já Prósper sugeriu uma relação com a noção de dia, não estando no entanto segura se em referência ao sol, à estrela da manhã ou ao próprio céu (Blázquez Martínez 2006: 223). E também já se propôs que seria o deus tutelar de uma povoação (Olivares Pedreño 2002: 103.2).

Quanto à ideia que circula pela internet e segundo a qual Aerno era uma divindade dos ventos, não conheço qualquer fonte ou estudo que defenda, exponha ou permita sequer sugerir essa hipótese, pelo que não posso considerá-la como mais do que uma noção sem fundamento ou pura especulação moderna que circula apenas graças à reprodução acrítica e anónima de conteúdos.

Andaieco
Teónimo (ou epíteto?) que se conhece apenas por via de uma ara encontrada em Castelo de Vide e cujo texto sugere uma natureza oracular. Já se propôs uma etimologia em *andh- (florescer) ou *andhos (flor), embora Prósper opte por uma origem num topónimo ou hidrónimo (Monteiro Teixeira 2014: 74-5)

Bormanico
Teónimo (ou epíteto?) encontrado em duas aras de Caldas de Vizela. Já no século XIX notou-se a relação próxima com Bormanus, Bormo e Borvo (Encarnação 2015: 145), nomes de deuses celtas das termas e águas curativas cuja etimologia está provavelmente ligada à ideia de borbulhar e que foram identificados com Apolo ou até com Hércules (Adkins 2000: 33). Assim, Leite de Vasconcelos apresenta-o como o deus tutelar das termas de Vizela (1905: 275) e Olivares Pedreño atribui à raiz borm- o significado de “borbulhar”, embora o estudioso espanhol liste Bormanicus como um epíteto e não um teónimo (2002: 78.1 e 138).

Broeneia
Deusa que se conhece apenas pela inscrição de Arronches, distrito de Portalegre, onde se lhe regista o sacrifício de dez ovelhas (Encarnação et al. 2008: 99). A etimologia é pouco clara, tendo-se inicialmente arriscado que o radical br- talvez pudesse ser relacionado com o que se encontra actualmente na palavra “broa”, colocando assim na esfera de influência desta divindade as ideias de pão, fermento e fertilidade (Encarnação et al. 2008: 93). Já Prósper e Villar sugeriram as noções de ferver e borbulhar, fazendo de Broeneia uma divindade aquática ou, numa alternativa também de Prósper, uma deusa das tempestades por via da etimologia *bhroi-no- ou “chuva” (Monteiro Teixeira 2014: 80). E Cardim Ribeiro avançou com a possibilidade de Broeneia poder ser uma divindade guerreira, senão mesmo uma virgem de qualidades bélicas, com base numa ligação com o gaulês *brunia ou bronia (peito) e o irlandês antigo bruinne (peito, seio) (2010: 48).

Carneo
Divindade conhecida graças a duas, por ventura três aras descobertas em Arraiolos, no distrito de Évora, onde surge com o epíteto Calantice(n)si. Pode ter sido o deus de um penedo ou pilhas de rochas da cidade ou região de Calantica (Blázquez Martínez 2006: 214), proposta que José d’ Encarnação aprofundou por via de uma possível origem grega e raiz em kárneios, fazendo de Carneo uma divindade protectora dos rebanhos e pastores (2015: 155-6). Prósper diverge em parte e prefere uma etimologia em *kel(H) (proteger, ocultar), ligando assim às noções de abrigo e protecção, enquanto Búa propôs *kar-no- (monte, rocha, pilha de pedras) (Monteiro Teixeira 2014: 81).

As hipóteses não são irreconciliáveis, dado que tanto a prática de erguer moledros como de procurar abrigo em penedos ou grutas fariam parte da vida quotidiana de pastores.

Crouga
Há diversas variantes deste teónimo, nomeadamente Crougiai, Corougia, Crougae e por ventura Crugia (Blázquez Martínez 2006: 215), a que se junta um achado que não é aceite de forma unânime e onde se lê Crougin (Olivares Pedreño 2002: 94.2). As epigrafes foram encontradas em diferentes locais, das regiões de Viseu e Braga até à de Ourense, e os epítetos conhecidos ou as leituras que deles se fazem variam entre o tópico (Toudadigoe e Nilaigui) e o descritivo (Vesuco, talvez “fluir”) (Blázquez Martínez 2006: 215). Já as propostas etimológicas tendem a confluir na ideia de rochas, penedos, moledros ou penhascos (Salinas de Frias 2010: 622; Blázquez Martinez 214-5), tendo-se inclusive sugerido uma ligação com o irlandês cruach (monte, colina) e o galês crug (túmulo, outeiro) (Olivares Pedreño 2002: 94.2). No entanto, não é claro se isso faz de Crouga um deus dos pastores, das escarpas rochosas ou até uma entidade ctónica, senão mesmo fúnebre.

Durbedico
Teónimo (ou epíteto?) conhecido apenas por uma ara descoberta em Ronfe, no concelho de Guimarães. No século XIX, propôs-se que seria uma divindade aquática por via da leitura do nome como “o que goteja”, embora pela mesma altura também se tenha sugerido uma ligação com o irlandês derb- (certo, verdadeiro) (Encarnação 2015: 177). Mas foi a hipótese hídrica que ganhou maior popularidade, com Leite de Vasconcelos a dar-lhe força por via da interpretação do elemento durb- como “água”, sugerindo tratar-se de um deus de uma fonte ou do rio Ave (1905: 330-1). De lá para cá, a ideia do “deus que goteja” nunca mais descolou, sendo hoje repetida pela internet ad nauseam, e isto apesar de vários estudiosos terem chamado a atenção para a notícia de um castellum Durbede na região de Braga (Olivares Pedreño 2002: 801.), o que pode sugerir que Durbedicus era na realidade um epíteto tópico ou a divindade local de Durbede (Villar 2010: 175).

Erbina
Deusa conhecida por três aras provenientes da Beira Interior e província de Cáceres, nesta última com a variante Aerbina. Os epítetos Iaidi e Iaeda Cantibidone parecem vinculá-la à zona de Idanha, embora não exclusivamente dado o vestígio de culto no que é hoje Espanha (Alarcão 2001: 317). Ainda assim, o elemento Cantibidone foi já interpretado como tendo o sentido de “limite” ou “borda”, o que talvez indique uma divindade das fronteiras (Alarcão 2001: 318), pelo menos sob a forma indicada pelo referido epíteto. Prósper propôs em vez disso “pedreira”, “região pedregosa” ou “vale fragoso” e, de um modo mais geral, tem-se proposto para o teónimo uma ligação a *ardûus (lugar alto, elevado, altura, escarpa). Outra hipótese é a de que se trata de uma divindade da passagem do rio Erges (Freitas Ferreira 2012: 65-6).

Frovida
Divindade conhecida apenas por uma ara descoberta em Braga e onde se alude a uma visão do dedicante. Especulou-se que seria uma deusa das águas ou ribeiras bracarenses (Encarnação 2015: 185-6).

Iccona
Divindade (?) que surge apenas na inscrição de Cabeço de Fráguas. São várias as teorias a respeito do seu significado, a começar pela que questiona a tese de que é um teónimo. Segundo alguns, na referida epigrafe, apenas Reve e Trebaruna são nomes de divindades (Olivares Pedreño 2002: 32.1 e 246.1), hipótese no entanto rejeitada por Prósper, que apoia a ideia de que Iccona é uma variante ibero-ocidental da deusa Epona (1999: 154-6 e 170-2) e embora essa tese não esteja isenta de problemas (Freitas Ferreira 2012: 51). Nesse sentido, há a hipótese alternativa que faz derivar o teónimo de *yek-, relacionado com o irlandês hicc (cura) e o galês iach (são, saudável), ideia apresentada por António Tovar (1985: 241) e que vai no mesmo sentido da de Fernando Patrício Curdo (Freitas Ferreira 2012: 51).

Laneana
Deusa conhecida apenas por dois achados, um no concelho do Sabugal e outro na província de Cáceres. Em ambos os locais, a epígrafe foi gravada num penedo granítico e nas proximidades de um topónimo ligado a uma fonte, o que talvez possa sugerir algo a respeito da natureza da divindade (Olivares Pedreño 2002: 31.2 e 36.2).

Munis ou Munidia
Deusa cujo nome exacto não é inteiramente claro, mas que surge em quatro testemunhos epigráficos (Monteiro Teixeira 2014: 84), um deles gravado num penedo granítico em Celorico da Beira (Olivares Pedreño 2002: 31.2). O teónimo pode derivar de *men- ou *mon- (cabeça, monte), caso em que seria uma divindade dos pontos elevados (Alarcão 2009: 117), embora também possa estar relacionado com o latim moneo e como tal com a ideia de “chamar a atenção” ou “advertir” (Monteiro Teixeira 2014: 84). Villar, por seu turno, concebe Munis como uma deusa das águas, por ventura uma ninfa, se bem que Freitas Ferreira nota que nem todos vestígio do culto foram encontrado em locais elevados ou próximos de cursos de água (2012: 82). Outra hipótese é tratar-se de uma divindade tutelar (Monteiro Teixeira 2014: 84), ainda que não seja claro de quê, e nesse sentido até já se propôs que o teónimo é na realidade um termo comum ao género de ninfa ou juno (Alarcão 2001: 317). Olivares Pedreño especula que Munis talvez fosse uma parceira de Bandua, dado que, na zona onde ela terá sido adorada, prestava-se também a culto a Trebaruna (talvez ligada a Reve) e Arentia (ligada a Arentio), deixando Bandua como um grande deus regional sem parceira (2002: 246.2).

Ocrimira
Teónimo conhecido graças a uma ara descoberta em Salvador de Aramenha, no concelho do Marvão. As propostas etimológicas passam pelo celta ocri- ou “frio” e, desse modo, deusa de uma ribeira fria, e pela sugestão de Prósper, que viu no teónimo uma relação com o topónimo Mira e propôs uma divindade de um monte com o mesmo nome (Monteiro Teixeira 2014: 49).

Trebopala
Teónimo (?) que surge apenas na inscrição de Cabeço de Fráguas e para o qual já se levantaram as mesmas dúvidas que para Iccona a respeito do seu estatuto (Olivares Pedreño 2002: 32.1 e 246.1). António Tovar decompôs o nome em treb- e -pala, o primeiro elemento com o significado de “casa” ou “aldeia” e o segundo com o sentido de “pedra”, “rocha” ou mesmo “lápide sepulcral”, fazendo dela uma deusa do penedo que guarda, protege ou preserva uma aldeia (1985: 235-7). Em sentido semelhante foi Daniele Maggi, que baseou-se no védico Vispálà e na tese de uma ligação com a Pales latina, algo igualmente sugerido por Fernando Patricio Curado, para quem Trebopala seria uma protectora dos rebanhos, pastores, pastos e fecundidade (Freitas Ferreira 2012: 59). Já Prósper interpretou o teónimo como querendo dizer “charco da aldeia” (1999: 160) e no mesmo sentido foi Francisco Villar, que viu em -pal uma referência a um charco ou águas paradas, fazendo de Trebopala uma deusa ligada ao sustento do gado (Freitas Ferreira 2012: 60).

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