Reve

Reve é outro desconhecido do grande público, mas terá sido um deus importante e pese embora não se tenha uma ideia clara sobre a sua origem e natureza, dado que a informação tem o seu quê de contraditório e os estudiosos modernos têm proposto interpretações contraditórias.

1. Informação
Conhecem-se treze achados epigráficos a Reve, distribuídos pelas regiões de Ourense, Vila Real, Guarda, Castelo Branco e ainda Portalegre, onde o teónimo figura na inscrição de Arronches (Encarnação et al. 2008: 89). A estes juntam-se outras duas peças provenientes da fronteira galego-portuguesa e onde surge apenas Larauco, vocábulo ligado à serra do Larouco, e que coincide com um epíteto de Reve numa ara descoberta em Baltar, na região de Ourense (Olivares Pedreño 2002: 173). Na mesma área montanhosa encontra-se também uma gravura em pedra de uma figura com uma maça ou martelo de grandes dimensões, embora sem inscrição que permita uma identificação clara da personagem representada (Villa 2013: 198-9).

Locais onde se encontraram vestígios do culto a Reve (amarelo) e aras dedicadas a Larauco (verde) (mapa da minha autoria).

Locais onde se encontraram vestígios do culto a Reve (amarelo) e aras dedicadas a Larauco (verde) (mapa da minha autoria).

Entre os achados epigráficos está a inscrição de Cabeço de Fráguas, encontrada num ponto elevado do distrito da Guarda e que regista um sacrifício a Reve e a outras divindades, com o nome do deus a ser seguido talvez por um epíteto hoje incompleto, conhecendo-se apenas as letras Tre[…] (Blázquez Martínez 2009: 54). Mais problemática é a referência a um Reo Bormanicus em Caldas de Vizela (Encarnação 2015: 144), com o primeiro nome a ser interpretado por alguns como uma variante gráfica do teónimo (Redentor 2013: 222), a juntar a Reuue, Rebe ou Reva, esta última na base de considerações sobre o género da divindade. Há no entanto epítetos que estão registados com um maior grau de certeza: é o caso de Anabaraego, Reumiraego Veisuto, Langanitaeco e Marandicui, para lá, é claro, de Larauco.

2. Interpretações
No que à origem do teónimo diz respeito, predomina a tese de uma raiz em *Hreu- – rio ou corrente de água – conforme sugerido por Francisco Villar e defendido por Prósper e Blázquez (Monteiro Teixeira 2014: 86), o que faria de Reve um deus aquático. Há não obstante sugestões alternativas, como a de António Tovar, que propôs uma raiz em *rewe, com o significado de “campo” ou “planície” (1985: 245), e ainda a tese de que o teónimo deriva do indo-europeu *dyeus, de onde provém também os nomes dos deuses Júpiter e Zeus (Witczak 1999: 70-1). Esta última hipótese foi rejeitada por Prósper, dados os problemas na evolução de d- para r- (2009: 205-6).

A reforçar a interpretação aquática está a leitura dos epítetos, com Langanitaeco a poder ter o significado de “rio grande” (Alarcão 2001: 307), Veisuto a ter talvez raiz na ideia de fluir (Blázquez Martínez 2006: 212) e Anabaraecus a conter um sentido hídrico com base num mausoléu emeritense onde surgem representados os rios Ana e Baraecus (Alarcão 2009: 88). Este último dado vai ao encontro da ideia de que o culto de Reve terá tido origem na região de Mérida (Monteiro Teixeira 2014: 87), com Anabaraecus a ser assim uma referência à confluência de dois rios e um vestígio dos primórdios locais do deus, um pouco como o epíteto Turibrigensi marca a origem do culto de Ataécina. Já Armando Redentor propôs uma origem alternativa no que é hoje a Galiza (2013: 229) e o mesmo autor considera credível a leitura Reo Bormanicus da ara de Caldas de Vizela, o que, dada a etimologia provável do segundo nome na ideia de água borbulhante – isto é, termas – e a proximidade dos rios Minho e Vizela, viria a dar força à interpretação de Reve como um deus aquático (Redentor 2013: 223-4). Ainda digno de nota é a interpretação do epíteto Reumiraego como “o do rio de Mira”, caso em que o elemento reu- confirmaria a raiz hídrica de Reve (Blázquez Martínez 2006: 212). Não é por isso de espantar que se tenha proposto para o deus a terceira função dumeziliana, associada aos conceitos de prosperidade e saúde (Blázquez Martínez 1998: 254)

No entanto, os epítetos Larauco e Marandicui, provavelmente ligados às serras do Larouco e Marvão, contradizem a interpretação aquática e sugerem para Reve um carácter montanhoso, por ventura celestial e como tal da primeira função. Talvez por isso, Prósper procurou interpretar Marandicui como estando ligado a um hidrónimo Maranti (Blázquez Martínez 2006: 233) e propôs que Larauco tinha o significado original de “território do rio Larava” (Prósper 2002: 130). Mas uma das aras descobertas na zona de fronteira galego-portuguesa contém a inscrição Larauco d(eo) Max(imo) (Olivares Pedreño 2002: 173), o que faz lembrar muito mais um deus ao nível de Júpiter, impressão que sai reforçada de outro altar encontrado na zona e que está dedicado a Iovi O(ptimo) Max(imo) (Monteiro Teixeira 2014: 87). No mesmo sentido vai o conteúdo da inscrição de Cabeço de Fráguas, onde é dito que Reve recebeu um touro, animal sacrificial que no contexto indo-europeu é associado a divindades celestiais, embora não exclusivamente. Cardim Ribeiro realçou esse detalhe e chamou também a atenção para a possibilidade de a ordem pela qual as divindades são listadas poder reflectir a sua importância, o que colocaria Reve numa posição cimeira (2010: 42). Freitas Ferreira aconselhou cautela nesse aspecto, dado que se trata apenas e só de uma hipótese, mas referiu ainda assim a inexistência de grandes cursos de água junto de muitos dos altares e inscrições a Reve, o que pode contradizer a hipótese de uma divindade aquática (2012: 87). E há um possível contra-argumento ao simbolismo taurino dependendo da leitura que se faz do achado epigráfico de Arronches: segundo uns, contém referência a um sacrifício de dez touros a Reve (Monteiro Teixeira 2014: 87), o que iria de encontro ao conteúdo da inscrição de Cabeço de Fráguas; mas segundo outros, os animais dados aos deus eram ovelhas (Encarnação et al. 2008: 93), o que faria menos sentido para uma divindade celestial.

Perante estes indícios contraditórios, há alguns esforços de harmonização. Por exemplo, António Redentor, baseado-se em Prósper, reconhece que Reve possa ter estado ligado não às correntes de água num sentido geral, mas à sua força torrencial, passível de ser equiparada a um touro, animal que o autor nota estar entre as vítimas sacrificiais de deuses da guerra, como Indra e Marte (Redentor 2013: 220). Nesse aspecto, também se podia referir a proposta de Francisco Villar, que equiparou Reve a Neptuno, deus romano das água e não apenas ou sequer originalmente do mar (Alarcão 2009: 100) e a quem se sacrificavam touros (Adkins 2000: 163). Mas foi Olivares Pedreño quem levou a harmonização mais longe, recorrendo uma vez mais a uma análise comparativa com a realidade galo-romana além-Pirenéus e acrescentando-lhe o substrato indo-europeu.

Defende o estudioso espanhol que Reve era no ocidente ibérico o mesmo que Júpiter para os romanos antigos e Taranis para os gauleses, com base em primeiro lugar na vinculação às montanhas. Rejeita assim a hipótese de uma ligação à saúde ou águas termais, por não ser uma associação comum nos vestígios do culto a Reve, e ainda a tese de Fernández-Albalat, que propôs um carácter semelhante ao da deusa celta Macha, o que Olivares Pedreño considerou improvável por sobreposição com a área onde Bandua era adorado e consequente redundância de papéis (2002: 170-1). Mas ao mesmo tempo que aceita a vinculação às montanhas, o académico espanhol reconhece igualmente a ligação às águas, pelo que é justo perguntar: como é que se concilia as duas coisas? E Olivares Pedreño responde por via das colunas de Júpiter, monumentos sincréticos erguidos na Gália em honra de um ou mais deuses nativos assimilados à maior divindade romana e onde, ao contrário da iconografia latina, Júpiter é representado a cavalo e em combate com um monstro com características de serpente. Segundo o autor espanhol, as colunas estão frequentemente localizadas nas proximidades de nascentes e rios (Olivares Pedreño 2002: 176) e isto é explicável se fizermos um paralelo com Indra, deus hindu do trovão, e Vritra, um monstro que mantém cativas as águas e cuja derrota permite a libertação do elemento aquático. Por outras palavras, o Júpiter galo-romano a cavalo e em combate seria uma variação do mito indo-europeu da luta do deus do trovão contra uma serpente ou dragão, fazendo do primeiro um benfeitor que garantia a ordem cósmica ao assegurar a existência de água (Olivares Pedreño 2002: 177). E a reforçar esta ideia está a existência de aras das zonas do Reno e Danúbio onde Júpiter surge associado ao elemento aquático (Olivares Pedreño 2002: 178.2). Reve seria assim o deus celestial da montanha cuja acção atmosférica alimentava os rios, à semelhança da versão mais antiga de Júpiter, que apesar do papel político dos períodos republicano e imperial mantinha epítetos que o ligavam a fenómenos atmosféricos (Olivares Pedreño 2002: 179.2).

Já quanto à ara que refere um Reo Bormanicus, José d’ Encarnação fala de uma renovação do texto por parte de um pedreiro que terá substituído um D por um R (2015: 144), o que quer dizer que a epígrafe original seria Deo Bormanicus. E sobre a possibilidade de Reve ser na realidade uma deusa de nome Reva, Francisco Villar e outros demonstraram que o teónimo é masculino por ser esse o género dos epítetos (Olivares Pedreño 2002: 175.2; Prósper 1999: 179).

3. Hipótese de trabalho
A tese de Pedreño parece-me a que melhor harmoniza os diferentes fragmentos de informação e oferece uma interpretação mais abrangente. Faço por isso dela a minha hipótese de trabalho, concebendo Reve como um deus das montanhas. Não no sentido de Ilurbeda, que preside às minas e por ventura aos trilhos, ou no de Endovélico, que é uma divindade do interior de um outeiro específico, mas um deus atmosférico que, por assim dizer, pisa os pontos mais elevados da paisagem, onde a terra toca no céu e liberta as chuvas que alimentam as nascentes montanhosas dos grandes rios. Pensemos na serra da Estrela, onde nasce o Mondego, ou melhor ainda na serra da Estrela coberta de nuvens, envolta por uma tempestade ou mergulhada num nevão, quando Reve “desce à terra”. O que vai ao encontro daquilo que Miranda Green escreveu a respeito dos deuses celtas do céu, que estavam profunda e frequentemente ligados a montanhas, mas seriam também divindades meteorológicas e nesse aspecto semelhantes ao Júpiter primitivo (2011: 64-5).

4. Ideias para um culto moderno
Assim, à imagem do que propus para Ilurbeda, os dias festivos modernos de Reve podem basear-se nos ciclos naturais de uma montanha, em particular manifestações do clima. Coisas como nevões, o início e fim da época das chuvas ou a presença duradoira de nuvens no cume. E mesmo que se viva longe de uma serra, é possível recorrer a critérios como a primeira trovoada do ano ou de uma dada estação e ainda a ocorrência de cheias. Claro que muitas destas possibilidades implicam festividades móveis e desse modo difíceis de planear com grande antecedência. Para critérios mais estáveis, pode-se recorrer à tradição religiosa na qual se presta culto a Reve: por exemplo, se for romana e tendo em conta que Júpiter está ligado aos idos de cada mês, é possível optar pelo dia 13 ou 15 de um ou mais meses para organizar uma celebração a Reve.

Há também hipótese ligadas a símbolos modernos do deus, em particular o carvalho, árvore que tem uma longa tradição no culto de deuses do trovão e cujas folhas – o seu aparecimento ou queda – podem servir de motivo para uma festividade. Também em linha com outras divindades semelhantes a Reve, dentro da hipótese de trabalho proposta, a águia e o touro seriam dois dos seus animais.

Conforme o precedente histórico dos epítetos Larouco e Marandicui, é possível usar títulos modernos que liguem o deus a outras montanhas e ainda formar pares com deusas do céu ou das águas (ou das duas coisas). Nabia é uma boa candidata a esse papel, até porque ela conta já com o exemplo histórico de uma associação a Júpiter e a Coronus – talvez um deus celestial local.

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