Trebaruna

Deusa cuja natureza é pouco clara em virtude da escassez de informação e apesar de se conhecer algo a respeito da ocupação e práticas religiosas de um dos seus adoradores. Aliás, longe de esclarecer, esse dado acaba por aumentar a confusão, obrigando a escolher uma hipótese de trabalho por ventura mais subjectiva do que no caso das outras divindades ibéricas aqui analisadas.

1. Informação
O número de achados epigráficos a Trebaruna resume-se a oito e estão quase todos concentrados no que é hoje a Beira Interior portuguesa e a província espanhola de Cáceres. A única excepção é uma ara encontrada a grande distância das outras, no concelho de Cascais, e onde a deusa surge com o nome de Triborunni. É apenas uma das variantes do teónimo, havendo outras mais próximas da forma hoje corrente, nomeadamente Trebaronna, Trebarone e Trebaronne. Desconhecem-se no entanto epítetos, registando-se apenas Aug[…] e A(…) nos achados da região de Cáceres, no que será Augusta (Olivares Pedreño 2002: 246). Na inscrição de Cabeço de Fráguas, surge com Reve e um conjunto de divindades menos conhecidas e é-lhe sacrificada uma ovelha (Prósper 1999: 153 e 165)

Locais onde se encontraram vestígios do culto a Trebaruna (mapa da minha autoria).

Locais onde se encontraram vestígios do culto a Trebaruna (mapa da minha autoria).

Não há muito mais por onde tentar perceber o culto e carácter de Trebaruna. O único dado adicional de relevo, mas não necessariamente esclarecedor, é a ara à deusa Vitória que Leite de Vasconcelos encontrou em 1892 juntamente com um dos altares a Trebaruna. E a relação entre as duas peças é mais do que acidental, dado que ambas foram dedicadas por ou a pedido de um militar romano chamado Tongius Tongetani. Na inscrição à divindade nativa, ele declara-se miles – soldado – e igaeditano, isto é, da povoação a que hoje corresponde Idanha-a-Velha, o que faz dele um indígena da região. Mas na peça a Vitória ele diz-se v(eteranus) miles, indicando que este segundo altar foi dedicado vários anos após o primeiro (Vasconcelos 1905: 295-9; Olivares Pedreño 2002: 245.2, n. 852).

2. Interpretações
A proposta etimológica mais antiga é a de Arbois de Jubainville, que foi reproduzida por Leite de Vasconcelos e decompõe o teónimo em treba e runa, com o significado respectivo de “casa” e “segredo” (1905: 300). É de longe a interpretação mais comum na internet, onde circula graças à reprodução imediata de conteúdos, e faz de Trebaruna uma divindade doméstica – a deusa do segredo da casa. Mas o mundo não parou após a publicação das Religiões da Lusitânia e, de lá para cá, surgiram outras hipóteses etimológicas. Assim, Búa de Carvallo procurou ligar o teónimo ao irlandês *trebar- ou “sábio”, atribuindo-lhe o sentido de “sabedoria do povo”, enquanto Patrício Curado viu no elemento -aruna ou nas suas variantes uma relação possível com o teónimo védico Varuna e os indo-iranianos Ahura e Aruna (Freitas Ferreira 2012: 73).

A tese de Curado tem na base uma decomposição do teónimo em treb- e -aruna, diferente da proposta de Jubainville e Vasconcelos, pondo assim de parte o fascínio com a ideia de runa e segredo, sendo que o elemento treb-, longe de ter apenas o significado de “casa”, também pode querer dizer “cidade”, “povoação” ou “aldeia” (Freitas Ferreira 2012: 58-9). Prósper concordou e propôs para -aruna a raiz *arunis, a qual está patente em hidrónimos e tem paralelos indo-europeus com o sentido de “movimento”, o que permite à estudiosa sugerir para Trebaruna o significado de “fonte ou ribeira da aldeia” (Blanca Prósper 1999: 165-8); ou, em alternativa, “a deusa que tem a fonte ou ribeira por morada”, hipótese apoiada por Francisco Villar (Olivares Pedreño 2002: 246.1). Seria assim uma divindade aquática, sugestão que recebeu a concordância de José d’ Encarnação, que argumentou a favor, por um lado, com base na proximidade entre a ara descoberta no concelho de Cascais e uma ribeira local e, por outro, na possibilidade de uma relação etimológica com o indo-europeu *Her-, *Horun- ou “corrente” (Fontes Ferreira 2012: 73). E Olivares Pedreño, à semelhança de Villar (e mesmo Prósper), refere ainda que, nas línguas germânicas, a raiz *runis está presente em palavras com um sentido hídrico, como no caso do gótico runs (fluxo, corrente) e o inglês antigo ryne (corrente) (2002: 246.1).

Da análise etimológica nascem naturalmente as opiniões a respeito das funções de Trebaruna. Se para Leite de Vasconcelos ela era originalmente um penate ou génio doméstico (1905: 301), Lambrino notou a presença do elemento trebo- em gentílicos, sugerindo por isso tratar-se de uma divindade protectora de uma ou várias tribos, hipótese que sustentou igualmente no facto de haver achados epigráficos em diferentes sítios (Encarnação 2015: 290). No mesmo sentido foi Marques Leitão, que rejeitou a interpretação aquática – pelo menos para as aras do distrito de Castelo Branco – e viu em Trebaruna a deusa de um núcleo populacional (2015: 122). Alarcão foi igualmente céptico da hipótese de ser uma deusa hídrica, notando até com alguma ironia que para Prósper tudo parecem ser divindades da água. Em vez disso, opta pela tese doméstica, que daria assim maior diversidade ao panteão lusitano, falando por isso de Trebaruna como uma equivalente de Héstia (Alarcão 2009: 106).

Ainda assim, a possibilidade de um carácter hídrico será talvez reforçada pelo achado epigráfico de Oliva de Plasencia, na província de Cáceres, a ser correcta a proposta de Marta González Herrero. Segundo ela, a peça pode ter sido parte de um edifício ligado ao abastecimento de água, à semelhança de outros onde, paralelamente à função prática, havia também uma sacralização, talvez até um pequeno templo ou oratório (González Herrero 2002: 426). A estudiosa dá exemplos de achados semelhantes, embora sem referências a Trebaruna (González Herrero 2002: 428-9), e embora não o inclua, podia falar-se igualmente do caso de Conimbriga, onde se achou uma epígrafe com o texto Remetibus Aug(…), encontrada nos banhos públicos e próxima de outra peça dedicada aos Lares Aquites (Olivares Pedreño 2002: 50.1). E note-se na presença do epíteto Aug(…), à semelhança do que sucede com Trebaruna e que González Herrero faz equivaler a importância pública, o que não seria espantoso se de facto estivermos perante uma deusa aquática cujo local culto estava ligado à distribuição de água (2002: 427).

No entanto, a questão da função de Trebaruna não pode ser desligada dos dois altares dedicados pelo soldado Tongius Tongetani, uma vez que eles permitem a hipótese de uma assimilação a Vitória, caso em que tanto a interpretação doméstica como a hídrica teriam que ser revistas, mesmo que apenas em parte. Nesse sentido, Leite de Vasconcelos falou de Trebaruna como sendo “originalmente” um penate, mas aceitando uma evolução posterior do papel da deusa, que acumulou uma função guerreira (1905: 301). Uma vez mais, é esta a opinião que circula com maior facilidade pela internet. Também Olteanu sugeriu para a deusa ibérica uma natureza semelhante à da celta Morrigan (2008: 207), mas não obstante as duas aras terem em comum o mesmo dedicante, há estudiosos que põem em causa a possibilidade de uma equivalência entre as duas deusas. Foi o caso de Lambrino, que notou o hiato cronológico entre um altar e outro e viu neles, por um lado, uma expressão da religiosidade de um indígena ainda ligado às suas tradições nativas e, por outro, o seu regresso a casa já romanizado após vários anos no exército, onde adquiriu hábitos e práticas novas (Olivares Pedreño 2002: 245.2). No entanto, Olteanu nota a coincidência plena entre os locais onde foram achados altares a Trebaruna e a Vitória, sugerindo uma assimilação ou que a expansão do culto da segunda foi favorecida pela sua ligação à primeira (2008: 220-1).

Por fim, teria a deusa um parceiro? A inscrição de Cabeço de Fráguas pode sugeri-lo, a ser verdade a interpretação de António Tovar, que viu na epígrafe uma organização por pares, caso em que Trebaruna estaria associada a Reve e ela seria assim uma deusa soberana ou, quando muito, guerreira (Blázquez Martínez 2009: 56). E certamente que o epíteto incompleto com que esse deus surge na referida inscrição – Tre[…] – torna tentador acreditar que ele vinculava-o a Trebaruna, do mesmo modo que o epíteto Corona parece ligar Nabia a Coronus. E Olivares Pedreño também sugere que os dois formavam um par, argumentando com base tanto na inscrição de Cabeço Fráguas, como na tese de um sentido hídrico para os teónimos (2002: 246). No entanto, importa notar que, a julgar pelos vestígios arqueológicos, as duas divindades não partilham por inteiro a zona de culto, pelo que se Reve e Trebaruna estavam associados, esse seria o caso apenas naquilo que é hoje a Beira Interior. A norte do Douro, o deus teria outra(s) parceira(s), assumindo que a(s) tinha sequer.

3. Hipótese de trabalho
É difícil optar por teses distintas quando não existe um elo de ligação óbvio. Por outras palavras, não se conhece um conceito, animal ou planta que reúna um simbolismo simultaneamente hídrico, doméstico e militar e que pudesse, por assim dizer, resumir a natureza de Trebaruna de uma forma coerente. No caso de Reve, esse papel cabe à montanha, ao mesmo tempo um ponto celestial e local onde nascem grandes rios; para Bandua, o elemento agregador é o carácter apotropaico; para Endovélico, o universo ctónico do interior de um monte; e para Quangeio, é o cão com toda a sua carga simbólica. Mas para Trebaruna… é mais difícil.

A hipótese etimológica que faz dela a deusa da fonte da aldeia parece-me sólida ou pelo menos o suficiente para recolher apoio alargado entre os estudiosos. Mas se isso obriga a concluir que é uma divindade aquática, a completa ausência de epítetos – excepção feita para Augusta – não pode ser ignorada. Porque ao contrário de Endovélico, os vestígios do culto de Trebaruna não se concentram num único local, pelo que não se pode argumentar que é uma questão de a deusa estar limitada a um sítio específico. Ou até que o seu culto tinha menos a ver com povoações e comunidades e mais com espaços de trabalho, como no caso de Ilurbeda e das minas. Se a etimologia proposta por Prósper está correcta, Trebaruna estava vinculada a povoações. Mas porquê, então, a ausência de epítetos que expressem essa vinculação? Talvez porque ela era uma deusa doméstica, familiar.

É certo que ela também não surge com epítetos pessoais e embora haja exemplos para outras divindades. É o caso de Araco, deus conhecido por um testemunho epigráfico encontrado no distrito de Lisboa e que é chamado de Arantoniceo, epíteto que terá talvez origem num antropónimo (Olivares Pedreño 2002: 62.2). Porém, repare-se no seguinte: a generalidade das casas antigas não tinha água canalizada. O abastecimento fazia-se por intermédio de chafarizes ou fontes onde ela era recolhida antes de ser transportada manualmente. E desse modo, a divindade que presidisse à água essencial para o bom funcionamento e salubridade de uma habitação seria, muito naturalmente, a da fonte da povoação. O que, por associação, faria dela também uma deusa doméstica. Ou se quisermos e partindo das linhas de Jorge de Alarcão (2009: 106), se para os gregos e romanos o lar tinha o seu símbolo na chama, para os lusitanos pré-romanos esse papel seria talvez o da fonte – ou poço ou rio – onde a aldeia se abastecia de água.

Isto é apenas uma hipótese puramente especulativa e sem estar isenta de dificuldades. Porque se assumirmos como correcta a tese de assimilação à deusa Vitória, fica por esclarecer como é que se pode ligar a esfera familiar com a militar. Talvez como extensão da ideia de protecção e garante da prosperidade do lar, por ventura até atribuindo a Trebaruna um carácter apotropaico um pouco à imagem do de Bandua. Ou talvez houvesse algo na iconografia da deusa que hoje desconhecemos, mas que terá levado a uma identificação formal com Vitória. E quanto à possível ligação a Reve, isso é mais fácil de esclarecer: se ele é um deus atmosférico responsável pelas chuvas e cheias, faz sentido que estivesse associado à deusa cuja fonte depende da disponibilidade natural de água.

Há nisto uma sobreposição com a deusa Nabia? Certamente, se bem que também se pode argumentar que Trebaruna seria uma deusa com uma esfera de influência limitada ao contexto hídrico urbano. Mas seja como for, a julgar pelos vestígios arqueológicos, as áreas de culto das duas divindades quase não se sobrepunham, o que leva-nos à questão aflorada no ponto 2 das Noções gerais.

4. Ideias para um culto moderno
Assumindo assim a hipótese de trabalho de Trebaruna como uma deusa do lar, ligada não ao fogo como Héstia ou Vesta, mas à água, quais os dias de relevo num culto moderno? E quais os seus símbolos?

As melhores datas festivas serão talvez as que se referem a aniversários – da residência ou dos residentes – ou as que marcam o começo de ciclos domésticos. Coisas como o início de cada mês e o começo das estações, principalmente se se fizer uma grande limpeza à casa por essa altura, ou até o Ano Novo. E assumindo o carácter aquático de Trebaruna, as oferendas podem ser recolhidas numa taça com água – água da torneira, que é a fonte moderna – e depois, por exemplo, vertidas nas plantas ou jardim da casa e do mesmo modo que o que era dado a Héstia ou Vesta era queimado no foco. O que, note-se, obriga a que as oferendas sejam bio-degradáveis!

Para plantas, por ventura a alfazema, embora isto seja apenas uma sugestão moderna. E quanto a animais, talvez o ganso doméstico, simultaneamente ligado à água e ao espaço habitacional, por vezes mesmo usado para guardá-lo, o que sugere também um pouco do sentido apotropaico.

Referências bibliográficas
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