Peregrinalia – fazer-se à estrada

Este blogue tem estado parado, eu sei, mas não morreu e, no espírito das férias de Verão, nos próximos tempos vou tentar compensar algum do silêncio prolongado dos últimos meses. E como, para além das minhas práticas e ritos diários, o único tema religioso que me tem ocupado de forma significativa é um culto ibérico a Mercúrio, é pois com ele que regresso à blogosfera.

Datas ligadas
Há duas celebrações modernas minhas a Mercúrio de que eu já falei várias vezes – bem, pelo menos na versão inglesa deste blogue – e ambas têm vindo a ser incorporadas por outros politeístas nos seus calendários festivos. São elas a Vialia, a 4 de Janeiro, e o aniversário do Filho de Maia, a 4 de Abril, a primeira focada na hoste divina de Mercúrio e a segunda no nascimento do deus.

As duas têm um sentido individual, com a Vialia a remeter para a abertura dos caminhos na abertura de um novo ano, enquanto o aniversário do Mercúrio faz uso da sua ligação com o número quatro e tem portanto lugar no quarto dia do quarto mês. Mas há também uma continuidade entre elas e que se relaciona com duas outras festividades modernas, a terceira das quais é a Peregrinalia de 4 de Julho.

Essencialmente, a lógica é a seguinte: em Janeiro, a abertura dos caminhos equivale também a uma preparação para o nascimento de Mercúrio, que está destinado a ser Senhor das Vias e logo dos Lares Viales. Os trilhos e estradas são por isso desimpedidas e preparadas e, após a vinda do deus, a fase seguinte no ciclo festivo são as viagens nas quais ele encontra outras divindades e adquire consciência do mundo. Segue-se a percepção do devir e finitude das coisas, o que depois liga-se com o fim do ano e novamente com os Lares Viales, mas isso é tema para outra altura. Resumindo: os caminhos, o Senhor das Vias, o uso dos caminhos e o destino perpétuo.

Trilho - Sintra

Um trilho florestal em Sintra (crédito)

Sob o signo de cada uma das quatro grandes festividades anuais há outras datas que lhe estão associadas. Assim, no decurso dos três meses abertos pela Vialia há a Parentalia em honra dos mortos, que no primitivo calendário romano era uma altura de purificação antes da Primavera e começo do ano. Sob o signo do nascimento de Mercúrio há a antiga Mercuralia a 15 de Maio, que eu tenho vindo a transformar numa festividade em honra de Maia. E a 24 de Agosto, que está dentro dos três meses que se seguem à Peregrinalia, há o sacrifício anual a Quangeio, o deus cão ibérico que é encontrado, acolhido e agraciado por Mercúrio.

Muito disto, claro está, são concepções e datas modernas ou uma reinterpretação de antigas, mas eu nunca disse estar a reconstruir um culto histórico. O meu objetivo é antes a construção de um ramo regional e mercurial do politeísmo romano dos nossos dias, mas como não se conhece tal ramo dos registos históricos, a sua criação terá que ser algo necessariamente novo, mesmo que integrando deuses e práticas antigas. É a tal diferença entre uma religião fossilizada porque resumida ao que se sabe ter existido até ao século V e um politeísmo enraizado no passado, mas vivo e por isso capaz de originar novas formas.

Vias, viagens, viajantes e mais além
A Peregrinalia é pois a festividade das viagens e viajantes, dos que se conhece à partida e dos que se nos deparam ao longo do percurso, das vias e do que elas ligam e por isso, literal ou figurativamente, da consciência da conectividade de todas coisas, mesmo das que parecem independentes ou autocontidas.

Há nisto um elo com os conceitos budistas de interdependência e de vacuidade e é intencional, tanto no recurso a eles como na festividade a que estão associados: o recurso a uma filosofia oriental para dar corpo ideológico a um culto está dentro da dinâmica histórica do politeísmo romano (ver aqui); e o nome Peregrinalia vem do latim peregrinus, que é a origem da palavra “peregrino” – i.e. um viajante – mas originalmente também tinha o significado de “estrangeiro” e, como adjetivo, “exótico” e “importado”. Daí que, ao descrever em cima a lógica por detrás da sequência de datas festivas, eu disse que, após o seu nascimento, Mercúrio viaja e adquire consciência do mundo.

Há também um motivo meteorológico para a festividade das viagens e viajantes ser em Julho, ou seja, no Verão, porque é a época em que muitas pessoas se fazem à estrada em férias. É algo só faz sentido no hemisfério norte, sem dúvida, mas se o culto em causa é regional, vai naturalmente refletir o ciclo de estações e clima da região de onde emana.

A tradução ritual
De tudo isto derivam depois as práticas rituais e ações comemorativas. O rito usado na cerimónia formal de Peregrinalia é obviamente o romano e, se na celebração do nascimento de Mercúrio as oferendas eram quase todas comida que exigia o recurso a pratos e talheres, a 4 de Julho a preferência vai para coisas que possam ser transportadas numa mochila e consumidas à mão. Comida de viagem, por outras palavras, mesmo que doce por ser festiva.

Peregrinalia 2018

Mesa pronta antes da cerimónia formal na manhã de 4 de Julho

Nesse sentido, pela Peregrinalia deste ano e porque o dia era também a primeira quarta-feira do mês, fiz o que já tinha feito no aniversário de Mercúrio e realcei o número quatro. Ao deus eu ofereci quatro merendas com queijo e fiambre, quatro pastéis de nata, quatro bolos de batata doce e quatro arrufadas, todos eles ritualmente consagrados, pequenas porções queimadas e depois devolvidos à esfera humana para serem comidos por mim e pela minha família. Durante a cerimónia ofereci ainda uma pequena porção de manteiga, fiambre, queijo flamengo e queijo fresco – coisas com as quais se faz umas sandes – e quatro libações de licor de medronho e mel. E no final queimei ainda as oferendas matinais de primeira quarta-feira do mês, às quais acrescentei outra de mel para serem ao todo quatro, e fiz ainda libações a Maia, Quangeio e aos Lares Viales. De tarde, no espírito da Peregrinalia, fiz depois uma pequena viagem de bicicleta durante a qual fiz oferendas adicionais aos Lares Viales e levei um lanche composto de parte da comida consagrada a e recebida de Mercúrio, comendo assim, figurativamente, à mesa itinerante do deus.

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