Para principiantes

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Quando se adere a uma religião e principalmente quando se cresceu noutra, há coisas que podem parecer confusas, senão mesmo desafiantes. Conceitos, dinâmicas, práticas, princípios – tudo isto pode ser muito diferente daquilo a que se está habituado. Para mais, no caso do politeísmo romano, é-se confrontado com os problemas inerentes ao reavivar de uma religião antiga num contexto diferente do de há dois mil anos e dispondo apenas de fragmentos de informação. Motivo pelo qual as questões sobre o que fazer e como tornam-se mais complexas pela necessidade de preencher lacunas e lidar com as muitas mudanças ocorridas desde a antiguidade clássica. Por isso, de modo a responder a estas dificuldades e oferecer um ponto de partida acessível para os interessados, criei este pequeno guia para principiantes com base no conteúdo de outros textos deste blogue, mas aqui com um formato mais prático. Atenção que nem tudo o que aqui está escrito é unânime entre os meus correlegionários, mas é sem dúvida alguma aquilo que eu e outros diríamos a quem está a (pensar em) começar a praticar o politeísmo romano.

CONTEÚDO
1.
Coisas que não são necessárias:
1.1. Não precisas de ser fluente em latim
1.2. Não precisas de (fingir) ser um cidadão romano
1.3. Não precisas de reproduzir as atitudes morais do passado
1.4. Não precisas de seguir uma escola de filosofia clássica
1.5. Não tens que te limitar à cidade de Roma

2. Coisas que são necessárias:
2.1. Ter um larário
2.2. Seguir a ortopraxia básica
2.3. Construir um calendário festivo

3. Coisas que podes fazer:
3.1. Podes ligar-te a uma cultura latina moderna
3.2. Podes focar-te na tua nacionalidade ou local de origem
3.3. Podes prestar culto a deuses não-romanos
3.4. Podes ser criativo com as oferendas

4. O resultado final


Coisas que não são necessárias:
1.1. Não precisas de ser fluente em latim

É certamente importante ter um conhecimento básico da língua latina de forma a entender o significado original de conceitos que ainda hoje usamos – como sagrado, santo ou sacrifício – mas aos quais atribuímos um sentido moderno. No entanto, isso não obriga a ser-se um latinista. Há quem discorde, argumentando que é preciso saber o idioma para se aceder à cultura e que o politeísmo romano, por ser uma religião ortopráxica, exige a realização dos ritos tradicionais na sua língua original, por muito arcaica que ela seja. E embora isso seja em parte verdade, a minha abordagem é menos conservadora por ter em conta o processo histórico.

Dito de forma simples, a cultura romana não se esfumou quando Roma foi saqueada por Alarico ou o império ocidental caiu durante o século V, mas continuou a ser parte da vida erudita, integrou a matriz da civilização ocidental, deu forma às culturas de novas nações e o latim originou diferentes idiomas nacionais. Não é por acaso que há parlamentos e tribunais modernos que parecem templos romanos, que podemos ver fasces no emblema da república francesa ou em moedas americanas, que Estados e instituições têm lemas em latim, que o jargão académico, científico e judicial está repleto de termos e expressões latinas, que as democracias modernas dispõem de contra-poderes ou que várias assembleias nacionais têm um senado (do latim senex ou “idoso”). Estas e outras coisas são manifestações modernas da cultura romana, parte da herança de uma civilização que já não existe, mas cujos usos e tradições foram transmitidas, serviram de inspiração ou moldaram a nossa vida. Se o fizeram em menor ou maior grau, isso varia consoante o país e a matriz predominante, mas essa herança clássica é mais vincada no caso de Portugal por sermos uma nação latina.

Quer isto dizer que o politeísmo romano não foi gerado por uma cultura ou praticado com recurso a um idioma que não têm qualquer relação com os povos modernos. Bem pelo contrário, a romanidade está viva em formatos actuais, em especial entre os portugueses, espanhóis, franceses ou italianos, que são herdeiros dos usos, costumes e língua de Roma, pelo que não temos que aceder a algo que nos seja inteiramente estranho. Em termos culturais, nós já somos os romanos de hoje. E assim sendo, é perfeitamente legítimo usar idiomas românicos para fins rituais uma vez que eles descendem directamente do latim. Mais: se o objectivo é reavivar a religião romana para torná-la parte do mundo moderno, com todas as adaptações necessárias e por oposição à mera encenação do passado, então temos nisso outro motivo para o uso de uma língua moderna que dê nova vida e contexto cultural a tradições que foram praticadas pela última vez há mais de mil anos (veja-se o ponto 3.1.).


1.2. Não precisas de (fingir) ser um cidadão romano
Também não é preciso fazer parte de uma organização que procure reproduzir a política ou sociedade antigas e não tens que comer, vestir, falar ou ter um nome como alguém de há dois milénios. Se discordas e achas que é preciso restaurar o Estado, a moral e a organização social do passado para se ter um politeísmo verdadeiramente romano, então tens que ser coerente e defender também que o judaísmo moderno não é genuíno dada a inexistência de um templo em Jerusalém ou de uma monarquia hebraica. Ou que um xintoísta só o é se viver no Japão feudal governado por um xogum, que é preciso recriar o império Marata para se ter um hinduísmo verdadeiro ou que o islão só é a sério se tiver à cabeça um califa. Por outras palavras, defender a fossilização como critério de verdade. Mas se o politeísmo romano é para ser reavivado em vez de meramente imitado, então o resultado será sempre uma versão diferente da passada por força da mudança de contexto. Tal como o judaísmo mudou devido à diáspora hebraica e a perda do templo ou o xintoísmo foi por várias vezes reorganizado dependendo das condicionantes políticas e sociais.

Em suma, não tens que transformar a tua vida numa espécie de feira medieval perpétua de modo a seres um politeísta romano a sério. Podes certamente participar em encenações como passatempo ou negócio, mas isso não é um pré-requisito, pois embora o religioso seja um fenómeno conservador – neste caso ritualmente conservador – ele só é estático se estiver morto ou a morrer. Se for uma religião viva, ela terá capacidade de adaptação para acompanhar as mudanças que ocorrem em seu redor, sejam elas políticas, sociais, legais ou ambientais. Se há dúvidas, olhe-se para o catolicismo e pergunte-se se os católicos, para o serem a sério, precisam de comer, falar e vestir-se como europeus do século XI, reproduzir a estrutura social ou o código moral de c. 1050, recriar um reino da época ou submeter-se a um papado medieval. E note-se que, ao contrário do politeísmo romano, o catolicismo tem escrituras sagradas que cristalizam crenças e regras de comportamento sob o estatuto de “palavra de Deus”. Se apesar disso não é preciso viver-se na Idade Média para se ser um católico a sério, por que motivo haveria de ser necessário mergulhar numa encenação da antiguidade clássica para se ser um politeísta romano?


1.3. Não precisas de reproduzir as atitudes morais do passado
Nós estamos de tal forma habituados à ideia de uma religião ter que ter um código moral que, por vezes, há quem tente codificá-lo a partir de trabalhos clássicos sem uma natureza ortodoxa ou apresentar os valores vigentes em Roma por volta do século I como sendo os do politeísmo romano.

Para uma religião ter uma doutrina moral que seja mais do que uma ideologia circunscrita a uma época ou local, ela precisa de escrituras que fixem ideias e concedam-lhes um estatuto atemporal e universal. Não interessa onde se está, o quanto as coisas mudaram ou qual o período da História em que se vive: os as ideias mantém-se válidos por terem sido cristalizados numa forma escrita e sacralizada. Isto é basicamente o que se tem no cristianismo e islão, onde textos tidos como palavra divina são usados para julgar, aprovar ou condenar acções humanas dos nossos dias. Não importa que as coisas tenham mudado desde a composição da Bíblia ou do Corão ou que as sociedades ocidentais modernas não sejam as do Médio Oriente no século VII ou antes. A palavra de deus é eterna e por isso livre dos constrangimentos temporais ou espaciais. Ou quando eles não podem ser ignorados, faz-se umas acrobacias hermenêuticas, cria-se uma teoria interpretativa e adopta-se uma justificação alegórica para explicar aquilo que, lido à letra, seria incompatível com a realidade presente. Porque a partir do momento em que os valores assumem uma forma escrita sacralizada, eles perdem a fluidez que caracteriza tradições orais e não podem ser postos de parte sem mais por serem “palavra divina”.

Quais são então os textos sagrados do politeísmo romano? A resposta é nenhuns! É verdade que vários autores clássicos escreveram livros sobre religião, como o Da Natureza dos Deuses de Cícero, mas eles exprimem opiniões pessoais, de uma ou mais escolas filosóficas ou a mentalidade dominante num grupo social em particular. Pessoas de outros estratos ou filiação intelectual teriam opiniões distintas, do mesmo modo que quem hoje escreva sobre religião terá uma visão do assunto naturalmente diferente da de outros indivíduos. Temos um vislumbre desta diversidade no Da Superstição de Séneca, citado na Cidade de Deus (VI:10), onde ele critica coisas que os romanos faziam no Capitólio, como dar banho às estátuas dos deuses, fingir pentear-lhes o cabelo ou anunciar os visitantes. O que, citando J. A. North no seu Roman Religion, é um ataque a “expressões populares de piedade de um ponto de vista estóico e caracterizando-as como supersticiosas” (2000: 82). Por outras palavras, é a opinião de um homem com as suas ideias e preconceitos. Não é uma forma de dogma, escritura ou decreto.

Os autores romanos também produziram trabalhos com personagens divinas, como a Eneida de Virgílio, mas isso também não é palavra sagrada, verdade revelada ou uma narrativa sancionada pelos deuses. É, isso sim, uma expressão artística das opiniões de um ser humano de um tempo e local, neste caso alguém que estava a contribuir para a legitimação ideológica de um projecto político. Um autor ligado a outros ideais ou noutras circunstâncias teria naturalmente produzido uma história diferente; tal como pessoas de outros estratos sociais teriam as suas próprias vivências religiosas, podendo discordar das elites, conforme é sugerido por Séneca. Nunca nos devemos esquecer que as nossas fontes de informação são apenas fragmentos que se referem essencialmente aos cultos públicos e exprimem um ponto de vista erudito.

Se o politeísmo romano não tem escrituras, então também não dispõe dos meios de codificação de uma doutrina moral. Se não tem textos sagrados que preservem como válida hoje a noção de certo e errado de ontem, então não tem ensinamentos que regulem a conduta humana fora do contexto ritual. O que quer dizer que para se ser um politeísta romano moderno não é preciso reproduzir as atitudes morais do passado a respeito, por exemplo, das mulheres, animais, etnia, sexualidade, casamento ou pena de morte. Porque embora elas possam ter um reflexo religioso, como quando se diz que os deuses não gostam de X ou Y, essas atitudes não são os valores do politeísmo romano, mas sim os de uma sociedade onde ele foi praticado. De certo modo, uma religião apenas ortopráxica é um pouco como um espelho que reflecte atitudes socialmente vigentes, mas não as cristaliza sob a forma escrita por não dispor de textos doutrinais. E de tal forma assim é que se mudarmos o contexto social – do século I para a actualidade – vamos encontrar valores diferentes a serem expressos ou projectados de forma religiosa.

Se não percebes a diferença, então vais dar por ti a pensar que a escravatura, os jogos de gladiadores, o republicanismo ou a figura do imperador são uma parte integrante do politeísmo romano. Porque não foste capaz de distinguir o religioso do social, os quais podem cruzar-se e sobrepor-se extensivamente, mas não são uma e a mesma coisa.


1.4. Não precisas de seguir uma escola de filosofia clássica
Se o politeísmo romano não tem escrituras e desse modo também não tem doutrina moral, quer isso dizer que os seus praticantes são pessoas amorais? Não! Significa apenas que vamos buscar as nossas noções de certo e errado a outras fontes. Pode ser a uma mistura de autores antigos, uma combinação de leis e costumes modernos, reflexões pessoais baseadas em leituras de diferentes textos ou uma escola filosófica escolhida livremente. No fundo, é um jogo aberto onde a discussão de temas como o aborto, pena de morte ou o casamento não está amarrada a escrituras sagradas, mas é feita de uma forma bastante mais fluída. Claro que isto tem como resultado uma grande variedade de opiniões entre politeístas romanos, mas não há nada de errado nisso, até porque no cerne do politeísmo enquanto categoria religiosa está a noção de pluralidade. Nesse aspecto, os deuses também podem inspirar ou motivar a acção humana, mas divindades distintas motivam actos diferentes, o que nos leva uma vez mais à questão da diversidade.

Quando eu digo que um indivíduo pode retirar conceitos morais de escolas filosóficas, eu estou a pensar no estoicismo, platonismo e epicurismo, mas também noutras correntes de pensamento. Uma vez mais, se o objectivo é reavivar uma religião para torná-la parte do mundo moderno, por oposição a encená-la tal como ela era há dois mil anos atrás, então nós não temos que nos limitar ao que estava disponível ou em voga no mundo mediterrânico até ao século V. Os romanos antigos recorriam àquilo de que tinham conhecimento e aderiam a diferentes escolas de filosofia (ou nenhuma), pelo que a aplicação dessa dinâmica num contexto moderno significa que os romanos de hoje, religiosamente falando, podem recorrer ao que está disponível actualmente. E isso inclui uma variedade enorme de tradições intelectuais para lá do estoicismo, epicurismo e platonismo, indo do racionalismo do século XVII ao objectivismo do século XX e passando pelo pragmatismo e pitagorismo clássicos, o transcendentalismo do século XIX e escolas de filosofia hindus e budistas, para dar apenas alguns exemplos. E quer se opte por uma, várias ou nenhuma, continuar-se-á a ser um politeísta romano por o ênfase da religião estar não na crença, que é livre, mas na prática ritual, que é regulada pela tradição histórica. Mais sobre isso no ponto 2.2.


1.5. Não tens que te limitar à cidade de Roma
Se a noção de politeísmo romano remete-nos de imediato para Roma, seria errado concluir que consiste apenas nas tradições de uma única cidade. As religiões do mundo antigo eram frequentemente locais antes de serem “nacionais”, o que equivale a dizer que o politeísmo romano, no seu conjunto, não era uniforme, mas sim diverso. Tão diverso quanto as diferentes comunidades, cidades ou tribos que compunham ou foram integradas no mundo latino e mesmo quando os deuses e as práticas eram romanizadas.

Por exemplo, a carta ou “constituição” da cidade de Urso no sul de Espanha, citada por John Scheid no seu Introduction to Roman Religion (2003: 41), atribuía aos magistrados locais o poder de decidir que festividades deviam ser celebradas. E conforme referido no capítulo 7 do Companion to Roman Religion, editado por by Jörg Rüpke, enquanto em Tucci, também no sul de Espanha, as inscrições indicam que Hércules, Júpiter Optimus Maximus e Pietas Augusta tinham um lugar de destaque, o mesmo tipo de vestígios arqueológicos mostra que mais a norte, na região de Lugo, para além de Júpiter, as pessoas também adoravam deuses como Lahus, Bandua, Covetena e os Lares Viales (2011: 86). E muitos deles estariam ausentes da vida religiosa de comunidades nas ilhas Britânicas, Itália ou Balcãs.

Assim sendo, não te foques demasiado em Roma. Não assumas que tens que celebrar uma determinada festividade ou adorar uma certa divindade só porque era isso o que se fazia numa dada cidade, mesmo que ela fosse a capital e seja a origem de muita da nossa informação. Esse estatuto não fazia dela a totalidade das práticas religiosas do mundo latino de então, pelo que ser-se romano, religiosamente falando, não equivale a ser-se estritamente de Roma. Não era assim no passado e não tem que ser assim hoje, mais ainda quando a noção de romanidade perdeu o seu sentido político e tem actualmente um significado que se resume à herança latina de diferentes países e culturas.


2. Coisas que são necessárias:
2.1. Ter um larário

O politeísmo romano é na base uma religião doméstica. Muita da informação sobrevivente refere-se a cultos públicos e isso, conjugado com uma visão romântica de grandes templos e festividades, ajuda a esquecer que também havia uma dimensão familiar e pessoal, esta última conhecida, por exemplo, por via das devoções particulares de alguns imperadores (e.g. a de Domiciano por Minerva). Mas os cultos públicos eram essencialmente a religião doméstica elevada a um nível comunitário, de tal forma que o Estado, tal como uma habitação privada, dispunha da sua própria lareira e Lares – i.e. a chama mantida no templo de Vesta e os chamados Lares Públicos.

Por isso, ao contrário do que sucede no cristianismo, islão ou judaísmo, tradições mais bem conhecidas que servem com frequência de modelo de compreensão do religioso, um politeísta romano não precisa de ir a um templo todas as semanas. O primeiro espaço de culto é a sua casa, onde os que nela habitam são os seus sacerdotes, e no centro da religião doméstica está o larário.

Conforme o nome sugere, trata-se de um oratório aos Lares, nomeadamente aos Lares Familiares. Quem são eles ao certo é uma questão de fé pessoal: alguns veem neles deuses locais ligados à casa; outros acreditam tratar-se de antepassados liderados ou intermediados por um Lar, que pode ser um aspecto de uma divindade como Vénus ou Hércules; há também quem creia que os Lares Familiares incluem animais de estimação falecidos; e ainda quem veja neles antepassados que reencarnaram várias vezes e ascenderam a um estatuto acima dos mortos comuns. Estas e outras crenças fazem parte da teologia pessoal ou familiar de politeístas romanos modernos e encontra-se a mesma variedade a respeito dos chamados Penates, um grupo próximo dos Lares Familiares e cuja natureza é também vista de forma diferente, de génios da dispensa ou lar a qualquer divindade que esteja ligada aos habitantes da casa. A definição de Lares, tal como a de Penates, nunca foi fixada no mundo antigo e variou consoante o sítio e a época, à semelhança de tantas outras coisas no politeísmo romano, onde a teologia é acima de tudo uma matéria de livre especulação.

Se, estritamente falando, um larário é suposto ser um oratório dedicado aos Lares Familiares, isto é mais um principio geral do que uma regra absoluta. Por exemplo, se se identifica o Lar com um aspecto de Marte ou Minerva, então faz sentido que ele/ela tenha uma imagem no larário. E se se quiser acrescentar os Penates no sentido alargado de todas as divindades que têm um papel especial na vida de um individuo ou família – e consequentemente dentro da respectiva habitação – então isso pode levar à inclusão de múltiplos deuses e deusas. O que resulta num larário cheio, por ventura demasiado cheio de imagens e objectos, embora não tenha que ser obrigatoriamente assim. Se se quiser, pode-se ter oratórios ou edículas separadas para divindades individuais e reservar o larário apenas e só para os antepassados e talvez os génios da casa. Uma vez mais, depende da teologia de cada um, mas também dos recursos e espaço disponíveis.

Onde é que o larário deve estar localizado? A resposta volta a variar consoante as preferências e possibilidades: se tens uma lareira, a cornija é o local ideal, até porque o latim lararium está ligado ao português “lareira”. Em alternativa, uma prateleira ou móvel na sala de estar ou de jantar é uma excelente opção, uma vez que essas divisões, para todos os efeitos, funcionam como um foco da casa. Outra hipótese é o vestíbulo ou hall de entrada, o que continua a ser altamente simbólico por ser um espaço de acesso à habitação. Mas se partilhas casa ou vives com familiares, podes ter que te ficar pelo teu quarto. Dito de forma simples, tenta combinar o simbolismo com o sentido prático.

Quanto ao que deve fazer parte do larário, voltam a ser decisivos a opção teológica, os meios e o espaço disponíveis. Mas se eu tivesse que fazer uma lista básica, seria a seguinte:

  • fotografias de familiares falecidos (podendo incluir animais de estimação);
  • uma fonte de luz (como uma vela, mas cuidado se o larário estiver numa prateleira);
  • uma imagem do Lar Familiar, que pode ou não ser igual às estátuas antigas;
  • um pequeno prato ou taça para recolher libações e outras oferendas.

E é só! Se se quiser acrescentar alguma coisa, é-se livre de o fazer. Por exemplo, o meu larário inclui uma imagem de uma ninfa, que representa o meu Lar Familiar (um aspecto local da deusa Nabia), taças pequenas para recolher oferendas de vinho, farinha com sal e incenso, uma lamparina, duas figurinhas de anões para simbolizar os Penates e fotos de antepassados e animais de estimação falecidos. Em ocasiões especiais, como no Ano Novo, penduro ainda uma coroa de flores por cima da estátua do Lar.

Por último, o larário deve ter um uso diário, no mínimo rezando-se diante dele ou pelo menos saudando os que nele estão representados uma ou mais vezes por dia. No meu caso, eu faço-o depois de acordar e antes de deitar e ainda antes de uma viagem, ao chegar a casa após um ou mais dias fora ou numa altura importante para mim ou para a minha família (e.g. nascimento ou finalização de um curso). E a isto juntam-se ainda as oferendas feitas três vezes por mês – nas calendas, idos e nonas – o que é explicado no ponto seguinte.


2.2. Seguir a ortopraxia básica
Sendo uma religião que no seu conjunto não tem uma ortodoxia, escrituras ou doutrina moral, não está ligada a um Estado, cultura nacional, língua ou território em particular e, para mais, não tem uma atitude exclusivista em relação a deuses exteriores ao panteão latino tradicional, o politeísmo romano moderno define-se quase unicamente pela seu ortopraxia. Isto significa que é preciso pôr de parte a atitude infantil de não admitir qualquer autoridade para lá da vontade individual e aceitar que, no contexto ritual, há regras a seguir para se poder ser um politeísta romano. Não quer dizer que se pratique exactamente da mesma forma que na antiguidade clássica, não só por se ter perdido parte da informação, mas também porque o contexto social, político e cultural é hoje (muito) diferente do de há dois milénios. Mas entre o oito e o oitenta – isto é, entre a rejeição de quase tudo o que é moderno por não ser tradicional e a do passado apenas por estarmos a viver no presente – há um meio termo onde se reaviva uma religião antiga para ser parte do mundo moderno. Caso contrário, estar-se-á apenas a criar uma coisa inteiramente nova, sem qualquer elo fundamental com o passado, ou a encenar a forma que uma religião tinha há dois mil anos atrás.

Em que é que consiste ao certo a ortopraxia romana moderna? As discussões dos últimos anos, embora não permitam ainda fixar por inteiro as regras rituais, têm vindo a dar forma à seguinte lista:

    Calendário
    1. Pode-se usar o calendário gregoriano ou o juliano e assinalar o Ano Novo a 1 de Janeiro ou a 1 de Março;
    2. Um mês romano tradicional tem três momentos essenciais: as calendas ou primeiro dia, os idos ou meio do mês e ainda as nonas;
    3. Originalmente, as datas exactas eram determinadas pelas fases da lua, mas mais tarde foram fixadas de acordo com o calendário solar. Ambas as opções são válidas para os politeístas romanos modernos. Se se preferir a primeira, as luas nova, meia e cheia correspondem às calendas, nonas e idos; se se preferir datas fixas, as nonas ocorrem no dia 5 de cada mês, excepto em Março, Maio, Julho e Outubro, quando calham a 7, e os idos têm lugar nove dias depois, isto é, por norma a 13, mas a 15 nas quatro excepções referidas;
    4. Por tradição, Jano e Juno são honrados nas calendas, Júpiter nos idos e os Lares Familiares nos três momentos mensais. As nonas não estão atribuídas a qualquer divindade em particular;
    5. Um individuo, família ou comunidade pode, se assim o entender, prestar homenagem a outras divindades nessas três datas ou realizar outros sacrifícios mensais.
    Estrutura ritual
    1. Por norma, em rito romano, o qual deve ser empregue pelo menos na maioria das cerimónias levadas a cabo por politeístas romanos, Jano é uma das primeiras divindades a ser honrada e Vesta uma das últimas. Pode-se acrescentar outros deuses e deusas à abertura e encerramento das cerimónias;
    2. Em rito romano, a cabeça de pelo menos a pessoa que conduz a cerimónia deve estar coberta. No passado, usava-se a toga para esse efeito, mas hoje pode-se consegui-lo com uma pequena toalha, lenço ou capuz, desde que limpo;
    3. Diferentes tipos de divindades ou aspectos divinos exigem diferentes tipos de altar onde são queimadas as oferendas: para os deuses celestiais, o altar deve ser quadrado ou rectangular; para os terrestres ou ctónicos, circular e por ventura parcialmente dentro de um fosso; para as divindades infernais, é necessário um buraco;
    4. Durante uma cerimónia, ao consagrar as principais oferendas, elas devem ser pelo menos polvilhadas com farinha de trigo e sal;
    5. Se se quiser consumir ou disponibilizar para consumo comida consagrada, ela deve ser primeiro profanada durante a cerimónia (geralmente com uma oração nesse sentido e tocando-lhe com a mão direita), mas apenas se a comida foi oferecida a divindades celestiais ou terrestres. Se foi dada aos deuses infernais, ela pertence-lhes por inteiro;
    6. No final da cerimónia ou num momento próximo do encerramento, deve-se recorrer a divinação para perceber se as oferendas foram aceites ou, no mínimo, fazer uma oferenda expiatória – como incenso ou uma libação de vinho – para o caso de uma ou mais divindades terem sido ofendidas;
    7. Um fogo ritual serve para queimar as oferendas, pelo que não pode ser apenas uma vela. No entanto, dada a prevalência da electricidade nas habitações modernas, nem sempre é possível acender uma pequena fogueira dentro de casa. Assim, se não se tiver uma lareira, há várias alternativas: pode-se fazê-lo num terraço, varanda ou jardim usando uma taça devidamente isolada para conter as chamas; também se pode fazê-lo na cozinha, usando um recipiente para acender o fogo ritual e a chaminé ou extractor de fumo para a ventilação; em último caso, pode-se usar taças para recolher as diferentes oferendas, sem as queimar, e depois depositá-las em locais simbólicos, como colinas para as divindades celestiais e florestas, praias ou rios para as terrestres (dependendo da natureza exacta do deus ou deusa). As divindades infernais não são adoradas em casa, mas apenas no exterior;
    8. É possível fazer uma combinação de oferendas queimadas e não-queimadas numa mesma cerimónia, dependendo da divindade a quem se presta culto. Por exemplo, se for Silvano, que é um deus inteiramente terrestre, as oferendas de abertura e encerramento podem ser depositadas no fogo ritual, mas as principais podem ser recolhidas numa taça circular para depois, após o final da cerimónia, serem vertidas junto de uma árvore ou num bosque enquanto se profere uma oração a Silvano.
    Gestos
    1. O modo como as mãos são usadas, tanto numa cerimónia como numa simples oração, também é determinado pela divindade ou aspecto ao qual se reza ou presta homenagem: se for celestial, as palmas das mãos devem estar viradas para cima; se for terrestre ou ctónico, devem estar viradas para o chão ou, no caso de uma divindade florestal ou aquática, para as árvores, rio ou mar; se for um deus ou deusa infernal, as palmas das mãos devem estar viradas para baixo, para o submundo;
    2. À excepção das divindades celestiais, por óbvia impossibilidade física, é possível fazer mais do que virar as palmas e tocar no ponto de referência. Por exemplo, no caso de uma oração a Silvano ou Ceres, pode-se fazê-lo enquanto se tem a mão direita numa árvore ou no solo, respectivamente. Ou no caso dos deuses infernais, tocar numa campa ou terra com a esquerda;
    3. Há nuances a considerar e que dependem do contexto exacto das acções. Por exemplo, se se tem um oratório doméstico dedicado a uma divindade celestial, pode-se virar as palmas das mãos para as imagens em vez de para cima. E ao rezar aos mortos num cemitério, elas podem estar menos orientadas para baixo e um pouco na direcção da campa;
    4. No fundo, o princípio básico é o de virar as palmas das mãos para a divindade ou aspecto divino ao qual nos estamos a dirigir. Se para cima, frente ou baixo, isso já depende do ponto de onde o deus emana ou está representado;
    5. Qual a mão que é usada para saudar a divindade ou verter as oferendas, isso também é determinado pela sua natureza: se é celestial ou terrestre, deve-se usar a direita; se for infernal, usa-se a esquerda;
    6. Há dois outros gestos de importância, um dos quais é o chamado adoratio e que é usado para saudar os deuses, tanto em situações formais como informais. Já vi diferentes formas de o fazer, mas eu prefiro a mais simples, que consiste em beijar a parte de dentro da ponta dos dedos e depois virar ou tocar com eles no oratório, altar, imagem ou animal. É quase idêntico ao que é hoje feito por católicos para saudar imagens ou mostrar-lhes respeito;
    7. O segundo gesto importante é a chamada mano fico, que faz-se pondo o polegar da mão direita entre os dedos indicador e anelar. É empregue para manter à distância entidades pouco amigáveis, em especial quando se presta homenagem a divindades infernais, e é um gesto que sobreviveu até aos nossos dias sob a forma de amuleto.

É a soma de todas estas coisas, não apenas uma ou duas, que consiste na forma latina de prestar culto. E desse modo, a ortopraxia básica identifica um politeísta romano moderno, independentemente da sua preferência filosófica e teológica, nacionalidade, língua nativa, opinião sobre a eutanásia ou casamento, se presta culto apenas a deuses tradicionalmente latinos ou se também adora divindades nórdicas, egípcias ou indianas. E friso que isto é apenas a ortopraxia básica: é o mínimo denominador comum sobre o qual cada indivíduo, família ou comunidade pode construir as suas práticas de acordo com a sua mundividência e podendo também integrar costumes e divindades locais. Não é uma questão de uniformidade, mas sim de unidade na diversidade.

Se isto parece confuso ou demasiado, faz as coisas com calma, passo a passo, e tenta e volta a tentar até conseguires acertar. Ninguém nasce ensinado e isto é um pouco como aprender uma língua, neste caso ritual e gestual, na medida em que a fluidez é o resultado da prática constante. Há que trabalhar e persistir. A seguinte tabela talvez seja útil nesse esforço e sem esquecer as já referidas nuances:

tabela-ortopraxia


2.3. Construir um calendário festivo
Note-se que na listagem das regras ortopráxicas eu não falei de festividades anuais, pelo simples motivo de que, para lá das calendas, nonas e idos, a escolha de celebrações depende do indivíduo ou dos grupos dos quais ele faz parte.

Por diversos motivos, da globalização moderna ao impacto cultural das tradições abraâmicas, nós estamos habituados à dinâmica da religião centralizada e assumimos a necessidade de um calendário festivo único. Afinal, os muçulmanos assinalam as mesmas datas na mesma altura e independentemente do sítio onde vivem, o que vale também para os católicos e judeus. Dentro do movimento neopagão, os wiccans têm um calendário festivo universal, celebrando Imbolc no início de Fevereiro ou Beltane no começo de Maio, esteja-se onde estiver no hemisfério norte e mesmo que essas datas não coincidam exactamente com os ciclos locais ou regionais. E assim, no caso do politeísmo romano, que estava profundamente ligado ao Estado e porque a maioria da informação sobrevivente refere-se a Roma, há uma tendência para se assumir que as festas religiosas dessa cidade eram obrigatoriamente válidas no resto do mundo latino e devem, como tal, ser celebradas pelos politeístas romanos modernos. Quase como uma espécie de calendário católico, mas com um conteúdo pré-cristão. Desse modo, se os habitantes da Roma antiga prestavam culto a Juturna, celebravam a Carmentalia ou assinalavam a Vinalia a 23 de Abril, então o mesmo tem que ser feito por aqueles que hoje se dizem politeístas romanos. Certo? Errado!

Conforme referido no ponto 1.5., não precisas de te limitar ao que era feito numa cidade em particular e mesmo que ela fosse a capital. O politeísmo romano nunca foi uma religião uniforme, dado que o panteão e calendário festivo tinham variações locais, e não há motivo para que não seja assim nos tempos modernos. Quaisquer que fossem as pressões passadas a favor de uma maior centralização, elas deviam-se acima de tudo à necessidade de unidade política, necessidade essa que foi apagada pelo tempo, o colapso do império e o nascimento da Europa das nações. Hoje resta apenas o imperativo da unidade no rito perante a diversidade de filosofias, teologias, códigos morais, origens, línguas e práticas. Mas no que ao calendário diz respeito, a ortopraxia básica já está assegurada por via da celebração das calendas, nonas e idos e os sacrifícios correspondentes às divindades que presidem a esses dias. Tudo o resto é da responsabilidade de indivíduos, famílias e comunidades, sejam elas locais, regionais ou nacionais, orientadas para uma ou mais escolas filosóficas, focadas num ou noutro grupo de deuses. Roma pode ter sido o berço do politeísmo romano, mas isso faz dela um ponto de partida, não a totalidade de uma religião, antiga ou moderna. Por isso, em vez de se olhar para os festivais que eram celebrados anualmente em Roma como uma coisa universal e obrigatória, deve-se ver neles uma inspiração, referência ou modelo a copiar ou adaptar noutras partes do mundo.

Em termos práticos, isto quer dizer que não se é obrigado a adorar todos os deuses que recebiam culto na Roma antiga, alguns dos quais podem ter sido apenas divindades locais ou não ter relevância na vida de uma pessoa ou família. Uma vez aplicada a ortopraxia básica, podes honrar apenas os deuses que são importantes para ti ou para os teus, sejam eles padroeiros, devoções pessoais ou deidades que presidam a partes importantes do ambiente local. Por exemplo, se moras junto à costa, podes focar-te mais em divindades da água e mar, enquanto se residires numa zona montanhosa do interior, podes ter um foque noutros membros de um ou mais panteões tradicionais. E no que se refere à escolha de datas festivas, tem em atenção os ciclos locais e as suas fases. Coisas como colheitas, movimentos anuais de pessoas ou animais, fenómenos atmosféricos ou tradições características do sítio onde vives ou de onde vens. Liga as tuas celebrações ao teu contexto, escolhendo datas que são localmente relevantes em vez de optares pelas de uma cidade a milhares de quilómetros de distância ou numa latitude completamente diferente da tua. Por exemplo, se vives no hemisfério sul, o mês mais quente do ano é Janeiro ou Fevereiro, não Julho ou Agosto, pelo que fará mais sentido celebrar a Neptunalia a 23 de Janeiro. Queres comemorar a Cerialia? Na região onde resides, quando é que os campos de cultivo estão em flor ou são ceifados? Desejas assinalar a Vinalia? Quais os costumes locais de produção e consumo de vinho? Talvez haja um mercado anual, o que seria uma boa altura para celebrar a Vinalia Prioria. Não tenhas problema em ligar as tuas festividades religiosas a efemérides seculares, mas permite que elas se cruzem do mesmo modo que o politeísmo romano antigo cruzava-se com a vida civil de diferentes sítios.

Por vezes, podes querer usar um critério que não era empregue no passado, mas que pode ser relevante para ti. Por exemplo, se vives a curta distância de um vulcão activo ou adormecido, podes optar por assinalar a Volcanalia no aniversário da última erupção conhecida, o que é uma razão tão válida quanto o pico das temperaturas de verão. Se quiseres, até podes usar os dois critérios e adicionar uma segunda Volcanalia à que era celebrada na Itália antiga, principalmente se fores um devoto de Volcano, caso em que podes também honrá-lo com um sacrifício mensal, por exemplo, no dia 23 de todos os meses. Até podes criar festividades novas se achares que faz sentido e enriquece as tuas práticas. Não há mal nisso! As antigas celebrações romanas não foram criadas de uma só vez por decreto divino, mas foram sendo acrescentadas, retiradas e alteradas ao longo do tempo. És livre de fazer o mesmo, de ser igualmente criativo e prático na forma como te ligas ao teu contexto e quando é que prestas culto a que deuses.

Entenda-se que isto não quer dizer que não vale a pena olhar para o que era feito e quando na Roma antiga. Deve-se estudá-lo para se ter uma ideia da lógica por detrás das diferentes celebrações e poder-se assim construir um calendário de uma forma pensada. Os exemplos da Neptunalia e Volcanalia são paradigmáticos, pois ao perceber-se que eles estavam relacionados com as elevadas temperaturas e fogos de verão, percebe-se também que, se se seguir o mesmo critério, a data mais lógica no hemisfério sul será Janeiro ou Fevereiro. E podes, se assim o entenderes, celebrar algo no mesmo dia que na Roma antiga, principalmente se não houver critérios alternativos ligados aos ciclos ou festividades locais. Por exemplo, se quiseres prestar culto aos Dióscuros, há pelo menos três possibilidades: a data de uma experiência pessoal importante, como o cumprimento de um voto a Cástor e Pólux; o aparecimento da constelação de Gémeos no horizonte nocturno do sítio onde moras; ou o aniversário do templo deles em Roma. São todos critérios válidos! Não tens que te ficar pelo último com base numa ideia errada de que és obrigado a seguir as festividades anuais de uma dada cidade antiga, por muito importante que ela fosse. Mas também não tens que o rejeitar como se não tivesses qualquer utilidade.


3. Coisas que podes fazer:
3.1. Podes ligar-te a uma cultura latina moderna

Há outras coisas que, embora não sendo estritamente necessárias, podem ainda assim ser enriquecedoras e dar vida moderna a práticas antigas. O uso ritual de uma língua românica, referido no ponto 1.1., é um exemplo disso e há outro, bastante próximo, que é a ligação a uma forma actual da latinidade.

Todos os idiomas são uma espécie de fonte de epifanias, isto é, uma janela que revela mundividências e costumes associados às palavras. Por exemplo, o uso do vocábulo di ou deuses, como em Di Parentes ou Di Manes (os “deuses bons”, i.e. os mortos), transmite uma noção de divindade que seria comum no mundo antigo, mas muito diferente da que é tida por normal no mundo ocidental de hoje. Ou a palavra sacrificium, que é uma combinação de facio (fazer) e sacer (sagrado, propriedade dos deuses), contém um sentido ritual – e por isso mesmo de valor ortopráxico – que é distinto do significado corrente de “sacrifício”. Já agora, estes são também bons exemplos de como é importante ter um conhecimento básico do latim, o que é diferente de dizer que a fluência é fundamental. Conforme dito no ponto 1.1., longe de ter desaparecido sem mais, a língua latina evoluiu e deu origem a diferentes idiomas nacionais que são hoje usados de forma quotidiana por milhões de pessoas. E tal como o vernáculo romano do qual descendem, essas línguas modernas podem revelar um mundo de cultura e significado.

Veja-se o caso da palavra portuguesa “lareira” – a eira ou área do Lar – que está ligada ao latim lararium, por certo graças ao uso do fogo doméstico para queimar oferendas. A cristianização eliminou a tradição, mas a memória dela está preservada na palavra e isso permite fazer o processo inverso, isto é, usar o vocábulo para dar nova vida à prática. Assim, a cornija de uma lareira pode ser usada como larário e os Lares Familiares ser vistos como os seus deuses, o que por sua vez leva a que eles recebam uma libação imediatamente após a deposição de oferendas no fogo ritual. Ou mesmo que não se tenha uma lareira, eles podem ainda assim ser tidos como divindades do foco doméstico, papel que é normalmente visto como um exclusivo de Vesta. E por ser usada no português moderno com o sentido de casa ou espaço familiar, a palavra “lar” pode influenciar a forma como se encara deuses a quem se atribui esse termo – como Silvano, que é chamado de Lar Rústico. Isto é, pelo menos nesse aspecto divino, eles podem ser tidos como algo próximo, semelhante a um amigo ou parente, em vez de um poder distante ou uma entidade infernal rodeada de tabus. O caso dos mortos como Lares Familiares é um bom exemplo, dado que, ao contrário de outros deuses do submundo, eles têm um lugar na religião doméstica.

A língua é no fundo uma porta para a memória e cultura. Se o latim tivesse simplesmente desaparecido, então sim, um politeísta romano teria que aprender esse idioma para poder aceder a uma mundividência latina. Mas a língua não só não se esfumou, como evoluiu e tem hoje vários descendentes directos, pelo que embora quem queira ser fluente em latim possa fazê-lo se assim o entender, não há nisso um requisito essencial para uma ligação à latinidade. É perfeitamente possível consegui-lo por via dos idiomas e culturas latinas de hoje – como o português, o espanhol, o francês ou o italiano – e com a vantagem adicional de com isso ajudar-se a reavivar uma religião antiga como parte do mundo moderno. Porque ao estabelecer-se uma ligação com a latinidade de hoje, criando-se um elo por via de palavras e costumes quotidianos, reduz-se a necessidade de recuar no tempo, de imitar uma sociedade ou cultura passadas por força de um sentimento de não se ser romano o suficiente. Ou dito de outra forma, quanto mais ligado se está à latinidade de hoje, menos se tem que recuar à de ontem.

E sim, o vocabulário português, tal como a cultura, não é inteiramente idêntico ao espanhol ou francês, pelo que há ligações linguísticas que nem todos poderão fazer. Mas porque é que isso haveria de ser um problema se, conforme dito nos pontos 1.5. e 2.3., a religião romana não era uniforme? Se tinha variações locais e regionais, então não há nada de novo na possibilidade de haver perspectivas e tradições diferentes consoante o politeísmo romano é praticado de um ponto de vista português, francês, espanhol ou italiano. Não há nada de errado em alguns adorarem os Lares Familiares como deuses da lareira – porque o seu idioma latino permite-lhes fazer essa ligação – enquanto outros reservam o papel para Vesta. A diversidade está no cerne do politeísmo e este é mais um aspecto dessa característica. Desde que se siga a ortopraxia elementar e tenha-se um conhecimento básico do latim para se compreender a versão antiga que serve de base à variante actual, é-se livre de dar nova vida e sentido a práticas antigas por via de uma cultura latina moderna. E ao fazê-lo, estar-se-á a criar uma ligação ao quotidiano presente em vez de se fingir que se vive na Roma do passado.


3.2. Podes focar-te na tua nacionalidade ou local de origem
Outra forma de cruzar as práticas religiosas com o dia-a-dia passa por uma ligação à História da tua cidade, concelho ou país. O raciocínio é semelhante ao da natureza local do calendário, referido no ponto 2.3., mas aqui o enfoque está na adoração de mortos ilustres ou heróicos, prática que no passado serviu de base ao culto imperial. São vários os politeístas romanos de hoje que prestam homenagem a imperadores como Augusto ou Marco Aurélio, o que de certo modo parece-me estranho quando, ao mesmo tempo que honram líderes de um Estado que já não existe, essas mesmas pessoas ignoram figuras históricas dos países dos quais são cidadãos a sério. E isso é talvez um dos melhores exemplos de fossilização, de imitar em vez de reavivar no contexto actual.

Há essencialmente dois motivos pelos quais os imperadores romanos eram adorados: o primeiro era teológico, dado que se atribuía qualidades divinas aos mortos (daí a já referida expressão Di Manes) e os heróis em particular eram objecto de homenagens religiosas no mundo mediterrânico; o segundo motivo era político, pois o culto imperial concedia aos governantes um estatuto que reforçava a sua autoridade e providenciava um elemento unificador numa sociedade multi-étnica e multi-religiosa. Mas com o desaparecimento do império, a transformação do seu território nas nações europeias e a disseminação da sua cultura de uma forma diversa, o segundo motivo deixou de fazer sentido. Após mais de mil anos, resta apenas o princípio teológico. E em vez de se imitar o seu produto num determinado tempo e local, pode-se aplicá-lo a um contexto moderno e deixá-lo produzir novos cultos.

Isto quer dizer que tal como os antigos honravam os fundadores, heróis e líderes falecidos das suas cidades ou comunidades, um politeísta romano moderno pode fazer o mesmo com os da sua localidade, região ou país e mesmo que eles tenham nascido depois do século V. Porque uma vez mais, se o objectivo é reavivar uma religião como parte do mundo moderno em vez de apenas encenar a sua versão passada, então uma pessoa não tem que se limitar ao que existia até certo período da História. Só porque um rei medieval, erudito renascentista, navegador do século XVI, pensador iluminista ou militar do século XX não viveram durante o império romano, isso não quer dizer que eles não possam ser adorados como heróis ou antepassados comunitários. Porque o politeísmo romano era e é mais do que a religião da cidade de Roma e reavivá-la hoje passa por ligá-la ao mundo moderno – o que inclui as nacionalidades actuais! E porque se nos recusamos a honrar homens e mulheres do passado só por eles terem tido uma religião que não o politeísmo romano – ou um código moral que não o nosso – então mais vale excluir do culto dos antepassados uma grande parte da nossa árvore genealógica. Correndo o risco de dizer o óbvio, todo e qualquer um de nós tem na nossa linhagem pessoas de diferentes religiões, etnias e origens cujas mentalidades não eram as nossas. A pureza cultural, tal como a racial, é uma ilusão romântica e perigosa e ou aceitamos a diversidade como um facto da vida, que diferentes épocas regem-se por valores diferentes e que a nossa vai ser igualmente julgada por gerações futuras, ou mas vale dizer que vamos pôr de parte o culto dos antepassados, que era um elemento fulcral da generalidade das religiões antigas.

Não quero com isto dizer que os imperadores romanos não têm lugar no politeísmo romano moderno ou que devemos adorar líderes vivos. A bem da sanidade, há que estabelecer uma espécie de cláusula de segurança segundo a qual o estatuto divino dos mortos é deles e apenas deles, não de homens ou mulheres ainda em vida. E há motivos válidos pelos quais uma pessoa pode prestar culto a imperadores romanos: por exemplo, para quem for um devoto de Antínuo, é natural que Adriano seja uma figura religiosa fundamental; ou se se tiver uma admiração profunda por Marco Aurélio e os seus escritos, faz sentido que se lhe preste culto. Mas nesses casos, como noutros, estamos a falar de algo radicado na relevância dessas figuras enquanto fontes de inspiração ou referências religiosas. É basicamente o mesmo que honrar Platão, Apuleio, Séneca, Leonardo da Vinci, John Locke ou Isaac Newton, o que é diferente de prestar culto a líderes políticos por força de um dever cívico inexistente a um Estado ou império desaparecido. E isso ao mesmo tempo que se ignora figuras históricas do país do qual se é realmente cidadão.

Em vez de se imitar as formas específicas do politeísmo romano num dado tempo e espaço, deve-se aplicar os princípios e dinâmicas gerais ao contexto moderno. Ou seja, tal como os heróis, líderes e fundadores recebiam um culto religioso no mundo antigo, pode-se fazer o mesmo com figuras históricas de um país actual. Atenção: isto não é obrigatório, mas apenas algo que se pode fazer para enriquecer e dar vida moderna a práticas antigas, ligando-as a quem tu és hoje e não quem imaginas ser numa encenação de uma sociedade passada. Não está isento de problemas porque, mesmo descontando a divergência de atitudes morais e cultura das diferentes épocas, há figuras históricas que podem ser demasiado tóxicas para serem postas num oratório. É por isso que este é um aspecto do politeísmo romano que deve ser usado à medida das sensibilidades de cada um, embora não tenha que se resumir a líderes políticos ou militares. Também se pode prestar culto a artistas, atletas, filantropos, cientistas ou activistas – no fundo, qualquer pessoa falecida cuja vida teve um impacto positivo ou surge como um exemplo nos nossos dias.


3.3. Podes prestar culto a deuses não-romanos
Uma questão que surge ocasionalmente é se um politeísta romano pode adorar deuses de outras culturas e panteões tradicionais – como o celta, egípcio ou eslavo – e a resposta é um sim sem qualquer hesitação. Estamos a falar de uma religião politeísta e sem ortodoxia, pelo que ela é facilmente um sistema aberto que não reclama um monopólio divino ou da verdade e por isso não limita o número ou origem das divindades em que se crê ou adora. Os romanos antigos são um bom exemplo histórico desse tipo de atitude, uma vez que a sua vida religiosa foi sendo enriquecida com deuses importados: Apolo veio da Grécia, os Dióscoros das colónias gregas no sul de Itália, Cibele foi trazida do que é hoje a Turquia e recebida como uma mãe dos romanos, a deusa celta Epona tinha um templo em Roma e o mesmo era verdade para a egípcia Ísis. Regra geral, a religião não era vista como um jogo de soma zero.

Isto pode parecer confuso e, mesmo entre politeístas, suscita algumas questões teológicas e rituais, nomeadamente como integrar e lidar com a diversidade quase sem limites. E as respostas possíveis são várias, podendo cada indivíduo, família ou comunidade optar por uma ou mais: por exemplo, pode-se escolher uma abordagem sincrética em que diferentes deuses são vistos como manifestações culturalmente diversas das mesmas divindades (e.g. Thor é o aspecto nórdico de Júpiter ou Hércules, mas não de Apolo ou Neptuno); pode-se enveredar pela ideia de que são entidades individuais e independentes, mas que podem ser adoradas em rito romano; também se pode optar por uma solução ritualmente intermédia, mantendo a ortopraxia latina, mas com elementos da cultura nativa da divindade em questão; e há ainda a possibilidade de aplicar todas estas soluções dependendo do deusa ou deusa em causa. Por exemplo, identificar Týr com Marte, mas distinguir Odin de Mercúrio e dar a ambos um culto romano ao mesmo tempo que se mantém um egípcio para divindades egípcias e um galo-romano para Epona.

Esta flexibilidade permite também uma ligação ao nível local, pois a menos que se viva no centro de Itália, os deuses locais ou regionais não são os do panteão tradicional de Roma. E em vez de ignorá-los por não caberem num politeísmo romano restrito que se resume ao que se fazia numa única cidade antiga, pode-se integrá-los por via da sua latinização total ou parcial, com ou sem sincretismo. Não há nada de novo nisto: os deuses ibéricos foram alvo do mesmo processo, conhecendo-se os nomes de muitos deles por via de altares à romana. Um dos casos mais emblemáticos é o da chamada ara de Marecos, que regista um sacrifício latino ou latinizado a Nabia, outras divindades nativas e a Júpiter. E a mesma liberdade deve existir hoje, mas com um senão: se o que o define o politeísmo romano moderno não é a crença, mas sim a prática ritual, então a forma como se adora os deuses – quaisquer deuses! – tem impacto na identidade religiosa. Se a maioria das tuas práticas estiver de acordo com a ortopraxia elementar, então, mesmo que prestes culto a divindades germânicas ou celtas, continuarás a ser um politeísta romano; caso contrário, serás outra coisa. O que não tem nada de mal, mas as palavras têm significados e práticas diferentes configuram religiões distintas.


3.4. Podes ser criativo com as oferendas
A informação sobrevivente sobre o politeísmo romano antigo inclui referências a oferendas tradicionais, incluindo vítimas sacrificiais: animais machos eram dados a deuses, fêmeas a deusas; exemplares brancos a divindades celestiais e pretos às infernais; a espécie também variava consoante o destinatário do sacrifício, com bois castrados a serem oferendas tradicionais a Júpiter e os suínos a Ceres; e na escolha das vítimas contava ainda a idade e estado de saúde. Depois há também referências a oferendas inócuas como libum, que basicamente é um bolo de queijo com mel, e outras mais simples como incenso e libações de vinho.

O sacrifício de animais não é proibido no politeísmo romano moderno, mas requer treino e aptidão para ser feito de forma correcta e de acordo com os requisitos legais. Caso contrário, mais vale pôr de parte a ideia e evitar quebrar a lei ou sujeitar o animal a um sofrimento desnecessário. Quanto a oferendas não-violentas, pode-se usar as que se conhecem das fontes primárias ou agarrar num livro de receitas e reproduzir ou adaptar algumas delas. Ou então deitar mão de alimentos como pão, lacticínios, compotas, caramelo, chocolate, vinho branco, tinto ou verde, leite, sumos, licores, chá e por aí fora. Tal como na questão das escolas filosóficas ou dos heróis, não precisas de te limitar ao que era conhecido ou comido no mundo mediterrânico até ao século V, mas podes agarrar em produtos modernos. E podes trabalhar as oferendas usando o simbolismo dos sacrifícios animais: por exemplo, oferecer a Ceres um pão caseiro com a forma de um porco ou a Júpiter um bolo com a aparência de um boi e coberto com açúcar para ter uma cor branca.

Sê criativo, mas com duas coisas em mente: se for para deixar as oferendas ao ar-livre, sem as queimar, cuidado com o que estás a introduzir no meio-ambiente, pois há comida que é relativamente inofensiva para o ser humano, mas nociva para os animais (o açúcar é um exemplo); e se vais fazer experiências com oferendas não tradicionais, há sempre a possibilidade de elas não serem do agrado de uma ou mais divindades. À semelhança de tudo o que é novo, há um período de tentativa e erro, por isso há que estar preparado para rejeições e, se necessário, repensar as coisas. Porque oferendas novas consistem, em essência, numa (re)negociação com os deuses na tentativa de dar forma a práticas novas e isso, como é óbvio, pode levar o seu tempo e produzir uma dose de erros até se chegar a algo durável.

Não digo isto para desencorajar, até porque há uma clara vantagem no recurso à criatividade e (re)negociação: permite incorporar produtos locais. Pode haver enchidos, pastelaria ou pratos tradicionais na tua área de residência ou terra natal, um tipo de fruta produzida em grande quantidade ou até mesmo receitas de família que podes querer usar. Se são idênticas ou semelhantes ao que era oferecido no mundo antigo, isso é perfeito! Caso contrário, não tenhas medo de tentar e inovar. Experimenta, adapta e nisto, como na questão do calendário no ponto 2.2., liga as tuas práticas ao sítio onde vives. Conforme já disse várias vezes, o politeísmo romano era e é mais do que apenas a religião da cidade de Roma.


4. O resultado final
Dito isto e no final de contas, o que é um politeísta romano moderno? A resposta simples é alguém que pratica uma forma moderna de uma religião antiga. Alguém que está ligado ao passado, retirando dele práticas, elementos e dinâmicas de carácter romano que formam a ortopraxia moderna, mas que não se limita à realidade de há dois mil anos atrás. Alguém que se inspira numa civilização antiga, mas que não deixa de viver na actualidade, ligado a este tempo e às identidades, culturas e valores de hoje. Uma pessoa que pratica uma religião oriunda de uma dada cidade, mas que não se restringe a ela e liga-se à História, usos e costumes de outros locais. No fundo, alguém que é como uma árvore centenária: raízes antigas que chegam ao passado distante, mas ramos que se erguem até ao céu presente e produzem novas folhas e formas. Se há apenas raízes, a árvore morre; se houver apenas ramos, a árvore não existe sequer.

Os politeístas romanos são um grupo diverso. Mesmo entre os que concordam com o que eu escrevi aqui, há divergências noutros pontos. E não há mal nisso! Estamos a falar de uma categoria religiosa marcada pela pluralidade que é inerente ao reconhecimento de múltiplos deuses individuais e logo de muitas mundividências. Há mérito e beleza na diversidade, tal como há na liberdade – a de construíres a tua teologia, escolher a tua filosofia, determinar as tuas opiniões, ligares a tua religião ao teu país, à tua região, à tua cidade, à tua casa. Fazer dela uma parte vibrante de quem tu és enquanto indivíduo moderno, membro de uma família, habitante de uma povoação e cidadão de um país actual, não de um Estado morto que é recriado anacronicamente. E nestas coisas, os politeístas romanos modernos são naturalmente diversos. Não falamos a mesma língua, não temos a mesma cultura e não vemos os deuses, a morte, o sentido da vida, as mudanças na sociedade, os seus problemas e soluções da mesma maneira. Isto é natural, é expectável, porque os seres humanos são tão diversos quantos os deuses. E o que nos une não são questões de fé, escrituras, moralidade, língua ou nacionalidade, mas sim um protocolo ritual comum que por ser tradicional e partilhado liga-nos a todos – os deuses e os politeístas romanos, vivos e mortos. É essa a linha ortopráxica que nos une no meio da diversidade.


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