Rito romano: exemplo

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A noção moderna de sacrifício refere-se a uma coisa penosa, ao abandono ou entrega custosa de algo ou alguém, senão mesmo a sua morte, de forma a atingir-se um objectivo. Há nisto um vestígio do sentido original da palavra, nomeadamente na ideia de troca, mas o sacrificium antigo tinha um significado mais formal e correspondia à noção de fazer (facio) algo sagrado (sacer), isto é, transformar uma coisa em propriedade do deuses. Por outras palavras, é o equivalente religioso de uma transacção de bens. E do mesmo modo que na nossa vida há trocas formais e informais, o mesmo é verdade para a nossa interacção com os deuses: tal como eu posso oferecer um copo a um amigo, dar-lhe um presente ou vender-lhe algo em troca de um preço simbólico, posso verter bebida ou trigo no chão, num rio ou praia, junto a uma árvore ou sobre um moledro como sacrifício informal; e tal como eu posso vender ou comprar uma coisa na presença de um advogado ou com recurso a um registo escrito com valor legal, eu posso fazer um sacrifício por via de uma cerimónia com testemunhas e uma transacção ritualizada. A compra de um carro ou casa, a aquisição de um terreno ou, no equivalente religioso, um voto ou uma festividade anual e por isso mesmo especial.

O que se segue é a estrutura do meu rito romano. Digo meu porque é a versão que eu construí a partir das fontes primárias (como o Da Agricultura de Catão ou os Fastos de Ovídio), em consonância com a ortopraxia moderna e com base na minha experiência – isto é, na repetição, reformulação e aperfeiçoamento constantes de gestos e palavras ano após ano, festividade após festividade. E meu porque é possível haver variações com mais ou menos deuses na abertura e encerramento, outros passos pelo meio e palavras diferentes. Também aqui não há uniformidade, mas apenas unidade num conjunto de elementos básicos que têm que estar presentes e sem prejuízo do acrescento ou diversificação de outros.

Há três fases essenciais nesta versão do rito romano: o prefácio, o sacrifício e o posfácio; ou dito de outra forma, o antes, o durante e o depois da transação formal. A segunda parte está subdividida em vários momentos, dado que é a fase central e por isso mesmo a mais complexa. Também está pensado para o uso de um fogo ritual, mesmo quando a divindade a ser adorada é terrestre ou ctónica, caso em que as oferendas principais são recolhidas numa taça circular com terra e o fogo serve para queimar, por exemplo, os tributos de abertura e encerramento. No entanto, para o caso de um sacrifício sem chamas, as adaptações são fáceis de fazer. Quanto à preparação, o essencial resume-se a ter o espaço da cerimónia limpo, algo que se aplica igualmente à roupa, cara e mãos de pelo menos a pessoa que cumpre o papel de sacerdote. Se se quiser, pode-se ter por perto uma taça com água para lavar as mãos entre cada fase, o que serve também para marcar a transição de uma parte da cerimónia para outra. E é igualmente possível ter música de fundo – à semelhança do que sucedia na antiguidade clássica – e usar um guião escrito para reduzir a probabilidade de se cometer lapsos.

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Rito Romano

1. Prefácio
Após acender a chama ritual e cobrir a cabeça com um capuz, lenço ou pequena toalha, faço uma primeira oração a Jano com as palmas das mãos viradas para cima:

Salvé a ti, Jano, o deus dos começos, o senhor dos inícios! Jano o guardião, Jano o ancião, Jano o primeiro entre os deuses e os homens! A ti, Pai Jano, eu saúdo antes de todos na abertura desta cerimónia. A ti eu dedico estas primeiras palavras, faço a primeira homenagem, e a ti eu dou as primeiras oferendas, livremente e de bom coração.

Segue-se uma oferenda de incenso e uma libação de vinho, postas separadamente no fogo ritual com as seguintes palavras:

A ti, Pai Jano, de boas preces e de bom coração, eu ofereço esta porção de incenso que derramo agora nas chamas, esperando que olhes com agrado para esta casa e quem nela habita. E a ti, Pai Jano, eu ofereço ainda esta porção de vinho que verto agora nas chamas, pedindo-te com ela que abençoes o começo desta cerimónia, ó deus dos começos.

Depois saúdo Vesta de palmas das mãos viradas para o fogo ritual antes de lhe oferecer incenso e uma libação de leite com as seguintes palavras:

Salvé a ti, Vesta, a virgem do fogo! A ti, Mãe Vesta, eu presto também homenagem no começo desta cerimónia, de boas preces e de bom coração, livremente, oferecendo-te esta porção de incenso que derramo agora no foco, esperando que olhes com agrado para esta casa e quem nela habita. E a ti, Mãe Vesta, eu ofereço ainda esta libação de leite que verto agora nas chamas, pedindo-te que as abençoes, ó virgem do fogo, para que elas ardam bem e consumam as oferendas nelas depositadas.

E por fim Júpiter, que é saudado de palmas das mãos viradas para cima e recebe incenso e uma libação de vinho com as seguintes palavras:

Salvé a ti, Júpiter, o rei dos deuses, senhor do céu e do trovão. A ti, Pai Júpiter, eu presto também homenagem no começo desta cerimónia, de boas preces e de bom coração, livremente, oferecendo-te esta porção de incenso que derramo agora no foco, esperando que olhes com agrado para esta casa e quem nela habita. E a ti, Pai Júpiter, eu ofereço ainda esta porção de vinho que verto agora nas chamas, pedindo-te com ela que testemunhes e santifiques esta cerimónia, ó deus altíssimo.

2. Sacrifício
A lista exacta do que é preciso para esta parte da cerimónia varia consoante o formato das oferendas principais. Se o objectivo é oferecer algo que é depois servido para consumo humano, a comida deve ser consagrada na sua totalidade, uma pequena porção cortada e colocada nas chamas e o resto é depois ritualmente profanado. Neste caso, é necessário ter por perto os talheres necessários para esse efeito. Mas também se pode oferecer apenas pequenas porções previamente postas de parte, bastando assim uma consagração elementar com farinha e sal antes de colocá-las no fogo ritual. Nessa situação, não há qualquer profanação ritual.

    I. Após lavar as mãos numa taça com água, a divindade principal é saudada com uma oração ou hino e convidada a assistir à cerimónia, sendo indicado o motivo (e.g. nesta Saturnália ou neste Ano Novo) e feita uma oferenda de boas vindas, como uma porção de incenso, uma libação ou uma folha de louro depositada no fogo ritual;

    II. São listadas as oferendas principais pela ordem em que serão depositadas nas chamas e é indicado o motivo da cerimónia. Exemplo:

    Salvé, Pai Jano, o senhor dos começos. Nestas calendas de Janeiro, ó deus dos inícios, eu trago-te oferendas de vinho, pão, queijo e mel, que a ti ofereço de boas preces e de bom coração, esperando honrar-te neste teu dia, neste Ano Novo, e que tu olhes com agrado para esta casa e quem nela habita, concedendo-nos a tua benção e protecção durante os doze meses que hoje começam;

    *III. Este passo corresponde ao antigo immolatio, termo com raiz em mola salsa ou farinha de trigo salgada, a qual era polvilhada sobre as vítimas sacrificiais de forma a consagrá-las; os registos dos Irmãos Arvais, uma sociedade religiosa romana, sugerem ainda o uso de vinho e de uma faca. Na ausência de sacrifícios animais, esta parte da cerimónia é ainda assim necessária para quem optar por consumir as oferendas. Para isso, elas devem ser consagradas pelo polvilhar de farinha de trigo com sal e a passagem de uma faca ou colher – dependendo da oferenda – sobre a comida que é entregue aos deuses. Os gestos podem ser acompanhados de palavras como “a ti [deusa/a X] eu entrego este/a [nome da oferenda], de boas preces e de bom coração”;

    IV. Se se optar por pequenas porções previamente separadas, elas são polvilhadas com farinha de trigo e sal e depositadas no fogo ritual, uma a uma, com uma pequena oração. Exemplo:

    A ti, Pai Jano, eu ofereço esta porção de mel sobre a qual polvilho agora farinha com sal e verto no foco, de boas preces e de bom coração, esperado honrar-te e agradar-te com ela.

    Sê claro nas palavras usadas! O que é oferecido é o que é vertido, não o que tens em mãos, sob pena, por exemplo, de ficares com restos de oferendas consagradas nos talheres. Se se optou por consagrar comida que depois é usada para consumo humano, este é também o passo onde uma pequena porção é colocada nas chamas, mas sem ser necessário voltar a polvilhá-la com farinha e sal;

    V. Após depositar as oferendas principais no fogo ritual, é necessário saber se elas foram aceites ou lidar com a possibilidade de se ter ofendido a divindade central da cerimónia. Para isso, recorre-se a divinação ou faz-se uma oferenda expiatória;

    VI. Honrada a divindade a quem a cerimónia é dedicada, é possível fazer oferendas adicionais. Por exemplo, aos Lares Familiares na categoria de deuses da lareira; se forem as calendas, nonas ou idos, a Jano, Juno ou Júpiter ou queimar oferendas feitas previamente durante as orações matinais; na cerimónia de Ano Novo, dado o seu carácter inaugural, pode-se usar este passo para honrar outras divindades de importância para o indivíduo, família ou comunidade; e noutras alturas do ano, esta parte da cerimónia pode ainda servir para oferendas a um deus ou deusa que nos seja particularmente próximo/a (no meu caso, Mercúrio);

    *VII. Este passo interessa apenas se no ponto III. se consagrou comida que agora se quer devolver à posse humana para poder ser consumida. Para tal, lava-se as mãos e, com elas erguidas, diz-se o que se pretende fazer. Exemplo:

    Salvé, Pai Jano, a quem de boas preces e de bom coração eu ofereci um pão de castanha. A ti eu consagrei-o e parte queimei e agora peço que partilhes connosco o que é teu, para que sentados à tua mesa possamos ser abençoados por ti. Com a minha mão direita eu toco na tua oferenda e tomo-a para mim e para os meus com a tua permissão, peço;

    VIII. Faz-se uma última oferenda expiatória, dado que a primeira foi unicamente para a divindade central da cerimónia e depois disso ainda houve os passos VI e VII. Exemplo da oração correspondente:

    Se alguém eu ofendi no decorrer desta cerimónia, se algum deus ou deusa ficou desagradado com palavras que eu tenha dito, gestos que eu tenha feito ou oferendas que eu tenha apresentado, ofereço esta porção de incenso que derramo agora no foco como expiação, para que não deixem de olhar com agrado para esta casa e quem nela habita.

3. Posfácio
O encerramento da cerimónia resume-se a libações aos mesmos deuses da abertura, mas em ordem inversa. Assim, começa-se por uma oferenda de vinho a Júpiter com as seguintes palavras:

Salvé, Pai Júpiter! A ti eu agradeço a tua atenção e a tua benção e ofereço-te ainda, de boas preces e de bom coração, esta porção de vinho que verto agora no foco, em agradecimento e homenagem a ti.

Segue-se uma libação de leite a Vesta com uma oração idêntica e depois uma oferenda de vinho a Jano com palavras um pouco diferentes:

Salvé, Pai Jano, o guardião, o das portas. Contigo esta cerimónia teve início, contigo ela termina; com uma oferenda a ti ela foi aberta, com uma oferenda a ti ela é encerrada. A ti, Pai Jano, eu agradeço a tua atenção e a tua benção e ofereço-te ainda, de boas preces e de bom coração, esta porção de vinho que verto agora no foco, em agradecimento e homenagem a ti, e pedindo-te com ela, Pai Jano, que abençoes o final desta cerimónia, tal como com uma libação a ti eu pedi para abençoares o seu início.

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Finalizada a cerimónia, dependendo do contexto e tempo disponível, pode-se fazer duas coisas. Uma é a observação do espaço em redor, nomeadamente se o rito foi realizado ao ar-livre, e ver se há algo que possa ser interpretado como um sinal. Não quer dizer que tenha que acontecer alguma coisa – e importa ter isto em mente para não se andar a ver sinais em tudo – mas por vezes pode haver algo que salte à vista. Coisas como a presença invulgar de um animal, um trovão isolado ou um momento breve e localizado de chuva. E a cerimónia também pode ser seguida por uma festa em que a comida consagrada e posteriormente profanada de forma ritual é partilhada entre os presentes.

Variações
Como em tudo, há nuances que dependem das circunstâncias e da natureza dos deuses a quem a cerimónia é dedicada, já para não falar nos ritos romanizados, os quais podem ter diferenças na parte central. Em concreto:

    a. O modelo ritual acima descrito é aquele que eu uso em cerimónias anuais – como o Ano Novo ou a Mercuralia – mas para sacrifícios mensais como o das calendas ou idos, o formato é normalmente simplificado. Assim, as oferendas de abertura resumem-se a três libações e o sacrifício aos passos IV e VIII, dado que eu costumo fazer as oferendas ao acordar, colocando-as nos oratórios domésticos, e só mais tarde é que as queimo. A cerimónia serve por isso para completar o sacrifício, uma vez que parte do gesto de oferecer algo aos deuses é feito juntamente com as orações matinais;

    b. Para o caso de não haver fogo ritual, as orações aqui usadas como exemplo têm que naturalmente ser alteradas para não conterem alusões ao fogo ou chamas. E pelo mesmo motivo, os tributos a Vesta são desnecessários, devendo ser retirados se se usar taças onde as oferendas são apenas depositadas em vez de queimadas;

    c. Porque o rito acima descrito foi feito a pensar em divindades celestiais ou terrestres, a mão usada para verter ou derramar as oferendas é a direita, mas no caso de deuses infernais, deve-se usar a esquerda e, por ventura, utilizar a direita para fazer uma manu fico (veja-se o ponto 7 da lista de gestos no guia para principiantes);

    d. Há também a possibilidade de criar variantes para divindades de origem não-latina. Um exemplo histórico é o chamado rito grego, o qual, apesar do nome e como John Scheid em tempos escreveu, era na realidade um rito bastante romano. Tinha elementos helénicos que o tornavam algo exótico, mas mantinha uma estrutura básica latina. E era usado para divindades tidas como sendo de proveniência helénica, de que Apolo é o exemplo mais claro, embora não houvesse um critério claro e uniforme. Por exemplo, Saturno era adorado em rito grego, apesar de ser uma divindade romana, mas atribuía-se-lhe uma origem helénica; já os Dióscuros vêm claramente da Grécia, mas parecem ter sido aceites como romanos e por isso mesmo adorados com o rito correspondente. Não há uma relação óbvia entre origem e formato ritual, mas existe ainda assim um sentido de ortopraxia, isto é, de respeito pelas tradições nativas de deuses “estrangeiros” ou pelo menos dos que não foram assimilados;

    e. Em concreto, o rito grego distingue-se pela utilização de palavras gregas ou hinos homéricos no convite à divindade central da cerimónia, o uso da cabeça destapada durante o sacrifício e o recurso a grãos de cevada e gotas de água na consagração das oferendas. O resto – a estrutura, a abertura e o encerramento – mantém-se iguais ao rito romano;

    f. Usando o rito grego como modelo, pode-se criar novos formatos rituais romanos ou romanizados para divindades de outros panteões tradicionais, como deuses nórdicos ou egípcios. No entanto, atenção à ortopraxia e às suas consequências identitárias: se se preservar a abertura, encerramento e regras rituais latinas, o culto a essas divindades continuará dentro do politeísmo romano e mesmo que tenha elementos exteriores; caso contrário, o rito será quando muito romanizado e, nesse caso, se constituir a maioria das práticas de uma pessoa, ela será não um politeísta romano, mas algo intermédio. Nada de errado nisso, mas as palavras têm significados.

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