Este blogue

Um moledro é um pequeno monte de pedras, muitas vezes erguido à beira das estradas por peregrinos, viajantes ou caminheiros, que ou criam o seu ou acrescentam a um já existente. As justificações modernas são várias, do assinalar de uma rota até à delimitação de terrenos e passando por uma expressão anónima do “eu estive aqui”. E embora estas explicações tenham razão de ser e haja motivos práticos tão válidos hoje como ontem, o acto de erguer um moledro é antigo e tem raízes que recuam milhares de anos na História da religiosidade humana. Parte desse passado remoto passa pela Grécia antiga, em especial por Hermes, deus dos viajantes cujo nome está ligado a herma, palavra grega que identifica precisamente um pequeno monte de pedras e que no período clássico incluiu colunas mais elaboradas.

Duas hermai clássicas (vaso grego do século V a. C.);  Mercúrio sentado num moledro (Les Emblemes, 1615).

Duas hermai clássicas (vaso grego do século V a. C.); Mercúrio sentado num moledro (Les Emblemes, 1615).

A Hermes os romanos chamaram Mercúrio, do latim merx ou “mercadoria”, e não, não estou a dizer que todos os deuses romanos são uma mera apropriação dos gregos. Isso é um simplismo que não corresponde à realidade histórica nem à complexidade das religiões e sincretismos do mundo antigo, mas é verdade que algumas divindades romanas são de facto de origem grega. Apolo é o exemplo mais óbvio e Mercúrio será por ventura outro. E é ele, o deus dos caminhos e viajantes, que está no cerne deste blogue, conforme sugere o título O Moledro.

Aqui fala-se de religião, de várias de um modo geral, sejam elas novas ou antigas, maioritárias ou minoritárias, mais ou menos filosóficas. Em especial, fala-se de politeísmo romano, que de forma religiosa morta na antiguidade tardia é hoje objecto de tentativas de reavivamento em várias partes do mundo e com todas as dificuldades inerentes, por um lado, a fontes de informação fragmentárias e, por outro, às diferenças de contexto que nos distinguem do mundo antigo.

Mas seguindo o trilho assinalado pelo moledro, neste blogue vai-se para lá do estritamente religioso e abre-se a possibilidade de falar de outros aspectos do mundo do deus Mercúrio. Coisas como viagens, astronomia, História, línguas, desporto, humor e tudo sem dar espaço à xenofobia, homofobia, transfobia, misoginia, racismo, extremismo ou intolerância religiosa. Porque eu não me revejo nessas posições – e sendo o meu blogue, ele é naturalmente um reflexo de quem eu sou – mas também porque o deus que está no centro desta página é o do movimento e mudança, da diversidade inerente ao cosmopolitismo de quem viaja e da liminalidade própria de um trapaceiro e mensageiro. Em suma, uma divindade que não se cinge a papéis rígidos ou à pequenez de quem não sai do seu mundo, que expressa a noção de fluidez e não tem receio de expor tudo e todos à sátira. Não esperem menos do que isso neste blogue.

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