Perguntas Frequentes

O discurso religioso dos nossos dias é dominado pelos monoteísmos e em menor grau pelo ateísmo – ou pela consciência de que há ateus, o que por si só já molda parte do discurso de quem não o é. Ser-se politeísta não é por isso fácil e com frequência provoca surpresa, curiosidade ou riso por ser tido como algo primitivo, irracional ou uma coisa do passado. Nem de outra forma podia ser após mais de mil anos de predomínio abraâmico na cultura europeia, o que, juntamente com uma boa dose de positivismo, tornou o politeísmo numa novidade de facto nas sociedades ocidentais, mesmo que historicamente não o seja. E por isso, porque as questões, críticas ou ideias pré-concebidas costumam ser muitas, o que se segue é uma lista de perguntas frequentes às quais procurei responder de forma clara e sucinta. Não esgota o tema – longe disso! – e de resto alguns dos pontos são analisados com mais detalhe noutras páginas do menu. Mas fornece, espero, uma primeira abordagem minimamente esclarecedora.

CONTEÚDO
Geral:

1. Acreditas mesmo nesses deuses?
2. E achas que eles se parecem mesmo com seres humanos?
3. Porquê o politeísmo?
4. Mas há princípios universais subjacentes à diversidade!
5. As diferentes religiões não são apenas formas diferentes de adorar Deus?
6. Qual é a diferença entre monismo, monolatrismo e politeísmo?
7. E o panteísmo?
8. Politeísmo é o mesmo que paganismo?
9. O politeísmo não é uma coisa do passado?

Politeísmo romano:
10. Porquê a escolha pelo politeísmo romano?
11. Então é uma coisa nacionalista?
12. Adoras só deuses romanos?
13. Adoras imperadores?
14. Um ser humano não é Deus! Como é que podes confundir os dois?
15. Ouvi falar em deuses infernais. Isso é o diabo?
16. Falas latim?
17. Sacrificas animais?
18. Qual é o teu livro sagrado?
19. Quais são as diferenças entre o politeísmo romano moderno e o antigo?

Politeísmo romano e outras religiões:
20. Acreditas que quem tem outra religião está condenado?
21. Mas os romanos lançavam os cristãos aos leões!
22. És anti-cristão?
23. Qual a diferença entre o politeísmo romano e outros politeísmos?
24. Qual a diferença entre o politeísmo romano e wicca?

Temas e debates:
25. Como é que explicas o mal?
26. De que servem os teus deuses se eles não podem fazer tudo?
27. És anti-ciência?
28. És anti-moderno?
29. O que é que a tua religião ensina sobre a homossexualidade ou o aborto?
30. Qual a utilidade de uma religião sem ensinamentos?


Geral:
1. Acreditas mesmo nesses deuses?

Sim! Mas é uma crença religiosa, não um facto científico. Os motivos para acreditar são por isso inteiramente subjectivos e baseados em coisas como sonhos, coincidências, momentos de sorte ou decisões fatídicas. Pode-se optar por ver nisso apenas processos químicos e acasos, mas também se pode explorar a ideia de haver algo mais. E seguindo-se a segunda hipótese, o tempo pode conduzir-nos à crença. No fundo, é uma questão de epifania religiosa, que é pessoal e subjectiva, pelo que há quem a tenha e quem não a tenha. E à partida, não há nada de errado em nenhuma das duas hipóteses.


2. E achas que eles se parecem mesmo com seres humanos?
Não, mas é assim que eles são tradicionalmente representados e é assim que eu opto por fazê-lo. Não faço ideia qual seja a aparência real de qualquer divindade, não finjo ter a resposta a essa pergunta e, para ser sincero, não é assunto que me tire o sono. Também não ando a pensar qual será o aspecto real de um som, contentando-me por usar a representação escrita do alfabeto latino.


3. Porquê o politeísmo?
Porque o universo é naturalmente diverso e plural, pelo que é apenas natural que o mesmo seja verdade para o mundo divino. Afinal, não há só uma espécie animal, uma espécie vegetal, uma estrela, um planeta, um rio, uma montanha, um ser humano, um idioma, uma cultura ou uma cor. A pluralidade é uma constante da vida, mesmo quando há leis universais. E isto é algo que é demasiadas vezes esquecido ou preterido em favor de visões mais unívocas que não dão espaço à diversidade ou reduzem-na a meras manifestações de uma mesma força.


4. Mas há princípios universais subjacentes à diversidade!
Princípios esses que não tem que ser uma divindade única e suprema, mas apenas forças às quais os próprios deuses estão sujeitos ou nas quais eles participam de forma diversa. O que pode parecer estranho para alguns monoteístas, nomeadamente os que têm por hábito perguntar como é que deuses diferentes podem criar algo único, pressupondo que uma coisa só pode ter um “criador”. Mas o mundo é diverso e existe no seu estado actual graças a processos diferentes, alguns deles concorrentes, outros paralelos ou derivados, o que leva-nos de volta à diversidade e pluralidade.


5. As diferentes religiões não são apenas diferentes formas de adorar Deus?
É uma ideia popular hoje em dia, principalmente no contexto do diálogo inter-religioso, ao ponto de haver até quem afirme que não há religiões verdadeiramente politeístas, mas apenas monistas. Por exemplo, o padre Anselmo Borges escreveu que o politeísmo é uma atribuição da força divina a divindades que mais não são do que personificações dessa entidade única (Religião e diálogo inter-religioso 2010: 49-50). Mas isso é uma simplificação grosseira – para não dizer mentira descarada – que tem uma origem dupla: por um lado, a dificuldade monoteísta em lidar com a diversidade religiosa, optando por uma redução da pluralidade a um falso denominador comum que evita o reconhecimento de religiões diferentes com deuses diversos; e por outro, a noção de tolerância como indiferença ou deixa andar, postura que se tenta justificar pela tese de que é tudo a mesma coisa e que por isso não vale a pena discutir. O que por sua vez radica no desinteresse ou medo do confronto de ideias. Mas correndo o risco de dizer o óbvio, tolerar só faz sentido quando se está perante o que é diferente de nós, pelo que o conceito de tolerância requer necessariamente o reconhecimento da diversidade e não a sua redução ou anulação por via de simplismos e denominadores comuns sem aderência à realidade religiosa.


6. Qual é a diferença entre monismo, monolatrismo e politeísmo?
A diferença reside nos parâmetros da pluralidade, isto é, se ela se aplica apenas à crença, à prática ou a ambas. Assim, enquanto o monolatrismo consiste no reconhecimento da existência de muitos deuses com a adoração de apenas um, o monismo corresponde à adoração de muitos com a crença de que são todos faces de uma mesma divindade. O politeísmo enfatiza a pluralidade de ambas, da crença e da prática, reconhecendo a existência de muitos deuses independentes e prestando culto a vários. Pode incluir um grau de monolatrismo no enfoque numa divindade, embora sem excluir o culto a outras, ou de monismo na ideia de que alguns deuses são os mesmos. Mas se se reduzir o culto ou a crença à unicidade, então está-se para lá da definição de politeísmo.


7. E o panteísmo?
O panteísmo consiste na ideia de que tudo o que existe é parte de um deus imanente, estando por isso mais próximo do monismo do que do politeísmo. Uma noção politeísta similar seria a que foi supostamente expressa por Tales de Mileto, que o mundo está cheio de deuses, mas isso implica que há muitas divindades em tudo, o que é diferente da crença de que tudo se resume a uma entidade universal.


8. Politeísmo é o mesmo que paganismo?
Não necessariamente. Pagão é tudo aquilo que não é judeu, cristão ou muçulmano, o que é uma definição suficientemente vaga para poder incluir não só politeístas, mas também monistas, monolatristas e duoteístas (os que acreditam apenas em duas divindades). A confusão entre paganismo e politeísmo deve muito à equiparação do primeiro ao conceito de pré-cristão – algo que acontece muito no wicca, por exemplo – mas a realidade não é tão simples assim.


9. Mas o politeísmo não é uma coisa do passado?
A ideia de que há uma evolução inexorável de religiões primitivas para refinadas, nomeadamente do animismo para o politeísmo e por fim monoteísmo, é uma teoria que tem pouca aderência à realidade. Não só por haver um cruzamento de categorias religiosas – como no caso do substrato animista em religiões politeístas ou nos traços politeístas do catolicismo – mas também porque a História da Humanidade não se faz de avanços absolutos que pura e simplesmente eliminam o passado. Bem pelo contrário, muitos vezes há um regresso e não no sentido de perda ou recuo: por exemplo, o Renascimento não se fez com o pressuposto de que a cultura clássica era uma coisa do passado que não merecia ser recuperada; o Iluminismo e a Revolução Francesa, não obstante o ímpeto modernizador bastante vincado, foram beber ideias e modelos às civilizações grega e romana; o progresso industrial, que tem inúmeras vantagens, criou ainda assim uma crise ambiental que obriga muitas vezes a uma renaturalização, reflorestação, reintrodução de espécies, recuperação de cursos de água, etc. Não se trata de um regresso puro e simples ao passado, de uma espécie de viagem no tempo, mas sim de um resgate de ideias ou condições e a sua adaptação ao presente por se achar que pode ser benéfico. E aqui é um pouco a mesma coisa: há um reavivar de religiões politeístas no mundo ocidental por se achar que há nisso mérito e uma mais-valia civilizacional, a começar pelo ênfase nas ideias de pluralidade e diversidade.

E já agora, os monoteístas que usam o argumento de uma evolução religiosa como arma contra o politeísmo deviam pensar duas vezes, porque a conclusão óbvia dessa ideia é que o passo seguinte é o ateísmo. Ou como disse em tempos um amigo meu, alguém que só reconhece um deus está mais próximo de acreditar em nenhum do que alguém que reconhece muitos.


Politeísmo romano:
10. Porquê a escolha pelo politeísmo romano?

Em boa medida, foi uma questão de identidade. Sendo eu português, nativo de uma língua e cultura latinas e descendente de uma família que vive em Portugal há pelo menos alguns séculos, o aspecto cultural acabou por se impor ao final de vários anos como pagão e depois politeísta.


11. Então é uma coisa nacionalista?
Não, porque eu não acho que ser português obrigue a ser politeísta romano ou sequer a ter uma religião. Primeiro, porque aquilo a que corresponde hoje o território de Portugal foi habitado por uma série de povos com culturas e religiões diferentes, do politeísmo fenício ao cristianismo e islão, pelo que qualquer uma delas pode reclamar uma ligação à terra e identidade portuguesas, mesmo que em graus distintos. E segundo, porque a liberdade religiosa, que é a consequência natural do reconhecimento da pluralidade, inclui a liberdade de escolher, criar ou de não ter uma religião.


12. Adoras só deuses romanos?
Não. Sendo eu politeísta, não reconheço um limite ao número de divindades e por norma não nego a existência de qualquer deus – incluindo o judaico-cristão. E se tiver motivos para isso, nem que seja curiosidade ou mera predilecção, incluo nas minhas práticas deuses tradicionalmente pertencentes a outros panteões. Por exemplo, eu presto culto à deusa ibérica Nabia, em grande medida por ter sido adorada no que é hoje território português, e ainda aos deuses egípcios Khnum e Anubis por motivos meramente pessoais. Também já pensei em honrar a deusa hindu Sarasvati desde que tive um sonho com ela há alguns anos atrás e são vários os politeístas que eu conheço – romanos e não só – que participam em cerimónias em honra do deus elefante Ganexa. Esta abertura é algo comum no politeísmo moderno.


13. Adoras imperadores?
A obrigação de prestar culto a líderes políticos desapareceu a partir do momento em que deixou de haver uma relação directa entre cidadania e religião. O que resta é a predilecção ou admiração pessoais por figuras históricas – os nossos heróis – o que depende inteiramente da vontade individual ou, quando muito, da tradição familiar. Por exemplo, eu presto culto ao imperador Juliano, dito “o Apóstata”, por ter sido a última grande figura politeísta da antiguidade clássica e ser por isso uma referência para mim, embora sem qualquer conotação política. E depois também honro personalidades históricas portuguesas, como reis, escritores ou navegadores, aos quais faço oferendas e adoro como pequenos deuses nacionais. Uma vez mais, é uma consequência da minha nacionalidade e da ligação que eu faço entre ela e a religião que escolhi ter, mas sem achar que todos os portugueses têm a obrigação de fazer o mesmo.


14. Um ser humano não é Deus! Como é que podes confundir os dois?
Porque quando não há um monopólio do divino, que é o caso num politeísmo sem limite ao número ou origem dos deuses, a diferença entre divindade grandes, pequenas, universais, locais e os próprios mortos esbate-se. Não é por acaso que os romanos antigos chamavam aos defuntos Di Manes – os deuses Manes ou deuses bons. O que diz logo duas coisas: que o antigo conceito latino de deus era semelhante ao de kami no xintoísmo, na medida em que aplica-se não apenas a grandes divindades, mas também aos pequenos deuses das árvores, rochas, montanhas, rios, ventos, caminhos e ainda aos espíritos ancestrais. E que estes últimos incluem não só figuras ilustres que contribuíram para o bem de uma comunidade ou família, mas todos os mortos em geral, dos antepassados aos defuntos anónimos. É a tal ideia de que tudo está cheio de deuses. Não no sentido de que tudo é uma única divindade – o que seria panteísmo ou monismo, não politeísmo – mas que há deuses individuais em tudo, incluindo nos mortos.


15. Ouvi falar em deuses infernais. Isso é o diabo?
Não! A palavra “infernal” tem raiz no latim infra e refere-se ao que está debaixo, neste caso o submundo. O conceito original era simplesmente o do reino dos mortos, que por serem enterrados habitam naturalmente debaixo da terra e sem que isso obrigue a conceber um local de punição ou inferno no sentido cristão. Os deuses infernais são os próprios defuntos ou as divindades que governam o submundo. Claro que são tenebrosos, porque a morte é um sinónimo natural de doença, decadência e decomposição, apagando a presença física dos nossos entes queridos, o que faz com que os deuses infernais sejam rodeados de tabus que visam manter uma separação “saudável” entre vivos e mortos. Mas isso não exclui a sua adoração, porque outra característica de religiões politeístas é a ausência de um julgamento moral na atribuição do título de deus e consequentemente de um culto. Isto é, não é uma coisa reservada para o que é bom ou agradável, mas aplica-se igualmente ao que é agressivo, destrutivo e tenebroso. Basicamente, tudo o que tem qualidades numinosas pode ser uma divindade e o objectivo de um culto tanto é a aquisição de bençãos como o apaziguamento ou afastamento de um deus que é reconhecido e adorado como tal, mas que se quer a uma distância segura. E isto é talvez uma das coisas mais difíceis de compreender quando o nosso enquadramento mental é o do monoteísmo, fazendo com que se caia muito facilmente em noções de bem e mal e se ache que um deus, para o ser e merecer ser adorado, tem que ser virtuoso, bondoso, perfeito ou luminoso.


16. Falas latim?
Conheço minimamente a língua e leio um pouco, mas não falo. Não que isso tenha impacto nas minhas práticas, uma vez que eu estou interessado em reavivar o politeísmo romano para ser parte do mundo moderno – o que inclui as culturas e nações actuais – e não uma mera encenação da antiguidade clássica. E sendo o português uma língua latina, serve perfeitamente como idioma ritual. Caso contrário, seria como argumentar que um católico, para o ser, tem que falar, comer, vestir-se e viver como um europeu do século XI.


17. Sacrificas animais?
Não, mas também não sou vegetariano, pelo que não me choca a ideia de sacrificar um animal se no final a sua carne for consumida. Desde que seja feito da forma mais rápida e indolor possível, sem transformar o sacrifício numa morte lenta para prazer alheio, cumpra os necessários requisitos legais e não quebre convenções sociais acerca de quais os animais que é aceitável consumir (e.g. vaca sim, cão não), não me oponho à ideia. O que não quer dizer que um politeísta romano tenha que obrigatoriamente sacrificar animais ou comer carne. É perfeitamente legítimo ser-se vegetariano e fazer apenas oferendas inócuas.


18. Qual é o teu livro sagrado?
Nenhum! O politeísmo romano, no seu conjunto, é uma religião sem escrituras e como tal sem ortodoxia. Há obras literárias, textos antigos sobre os cultos clássicos e reflexões filosóficas de eruditos da antiguidade, mas nenhum desses textos equivale a palavra sagrada, divina ou revelada. Podem certamente inspirar ou servir de guia, mas o seu valor religioso é relativo, dependendo muito do enfoque ou preferências filosóficas de diferentes pessoas, grupos ou comunidades.


19. Quais são as diferenças entre o politeísmo romano moderno e o antigo?
São várias e derivam essencialmente de duas coisas: por um lado, das lacunas na informação existente sobre as práticas religiosas antigas; por outro, do contexto moderno, que diverge em muito do antigo. A sociedade mudou, as fronteiras e identidades nacionais são outras, a cultura política é diferente e tudo isto tem um impacto na forma de praticar, organizar e viver o politeísmo romano. Dois exemplos: a ausência do fogo na maioria das habitações modernas significa que nem todos têm a possibilidade de queimar oferendas em casa, o que obriga a criar alternativas; e existe uma separação entre Estado e religiões (e ainda bem!), o que cria a necessidade de adaptar ao contexto moderno uma religião que estava profundamente ligada a estruturas políticas.


Politeísmo romano e outras religiões:
20. Acreditas que quem tem outra religião está condenado?

Não! Ser diferente não é uma ofensa ou crime e eu aplico este princípio ao universo religioso, caso em que ter uma religião distinta equivale apenas a uma mundividência, ritos, regras e destinos também eles diversos. Posso discordar ou ter preferências, mas isso tem como único resultado a prática de uma tradição diferente de outras. Não equivale a dizer que a minha é superior ou que quem não a segue está errado ou condenado. Uma vez mais, é a questão da pluralidade e diversidade.


21. Mas os romanos lançavam os cristãos aos leões!
A execução de cristãos durante a antiguidade clássica tinha vários motivos, nenhum deles relacionado com uma suposta ortodoxia romana. Em vez disso, estava ligada à noção de ortopraxia, isto é, que o bem-estar da comunidade dependia da realização de ritos de acordo com fórmulas tradicionais e que havia um dever de participação, independentemente das crenças. O que colocava os cristãos numa posição difícil, dado que o reconhecimento de apenas um deus e a recusa em adorar outros impedia-os de tomar parte em cerimónias politeístas. Para além disso, havia uma questão política, nomeadamente a recusa em reconhecer a autoridade do imperador, que por ser também uma figura religiosa de um Estado confessional, recebia provas de lealdade por via da participação em actos de culto. E a isto depois juntou-se a associação entre práticas nocturnas, escondidas da vista de todos, e formas de magia ou divinação que se achava poderem causar a morte ou doença, o que levou à ideia de que o cristianismo era uma coisa perigosa. Nenhuma destas questões se põe actualmente a partir do momento e que o Estado é laico, a lealdade política não depende da filiação ou prática religiosas e o politeísmo romano existe num formato moderno.


22. És anti-cristão?
Não! Discordo do cristianismo em muita coisa – motivo pelo qual não sou cristão – mas no seguimento da resposta à pergunta 20, discordar não é o mesmo que achar que quem tem crenças diferentes deve ser eliminado ou discriminado. E para mais eu não tenho problema em reconhecer que o cristianismo, tal como o islão, fazem parte do património cultural do meu país, que vários dos meus antepassados professaram essas duas religiões, tal como muitos dos membros da minha família actual são católicos. Não quer dizer que eu ache que o cristianismo ou qualquer outra religião deva ter privilégios, ditar a vida pública ou vetar a legislação civil, mas isso não equivale a achar que uma religião deva ser suprimida só pelo facto de ser diferente da minha.


23. Qual a diferença entre o politeísmo romano e outros politeísmos?
É na sua maioria prática, embora se possam encontrar diferenças de outra ordem. Por exemplo, a distinção entre os politeísmos romano e gaulês pode radicar nas tradições mitológicas e cosmologia, mas dado que em ambos os casos estamos a falar de religiões sem ortodoxia e de origem indo-europeia, as diferenças maiores acabam por ser as fórmulas e estruturas rituais – como e quando é que os deuses são adorados. Já no caso do politeísmo egípcio, que é de raiz afro-asiática, a questão é mais complexa por haver escrituras com um valor semi-sagrado que contêm regras para o comportamento quotidiano.


24. Qual a diferença entre o politeísmo romano e wicca?
Ao nível ritual, no recurso a círculos mágicos e na celebração de oito festivais anuais, algo que está ausente do politeísmo romano, cujas festividades são bastante mais diversas e a estrutura ritual é distinta. Também há diferenças ao nível das ferramentas rituais, a começar pelo conceito de altar, que no wicca consiste numa superfície de trabalho variada, enquanto que no politeísmo romano, estritamente falando, o altar é o sítio onde as oferendas são queimadas e distingue-se do espaço onde são mantidas as imagens dos deuses. E depois há ainda conceitos teológicos, na medida em que o wicca é tendencialmente duoteísta ou monista, com as diferentes divindades a serem reduzidas a um casal divino – o Deus e a Deusa – ou a uma força universal. O que, conforme se explicou na resposta às perguntas 6 e 7, não é o mesmo que politeísmo.


Temas e debates:
25. Como é que explicas o mal?

Se por mal quere-se dizer a capacidade humana para causar sofrimento aos outros, a resposta está no livre-arbítrio, na personalidade, no contexto que ajudou a formá-la ou nas condições que contribuíram para determinadas acções. Ninguém é inerentemente mau ou bom, mas faz-se ou age de uma forma boa ou má. E isso é já um juízo de valor que pode depender da perspectiva de cada um.

Algo do género é também verdade para o mal enquanto sinónimo de sofrimento sem intervenção ou intencionalidade humana. Porque correndo o risco de dizer o óbvio, nós não estamos no centro do universo e o cosmos não está organizado com vista ao nosso sucesso e felicidade. É verdade que vivemos num planeta propício à vida, mas ele é fruto de vários processos e episódios que podiam ter tido outro resultado – é olhar para Marte para se ter uma ideia disso. Também é verdade que podemos ser felizes e bem sucedidos, mas isso depende de condições que não estão garantidas só pelo simples facto de existirmos. E o que é destrutivo para os seres humanos pode ser benéfico para o planeta no seu conjunto e a longo prazo. Exemplo: os terramotos são capazes arrasar cidades e eliminar ou mutilar milhares de vidas, milhares de entes queridos de alguém, causando sofrimento a quem sobrevive. Mas os tremores de terra são também uma consequência do facto de o subsolo do planeta ser composto de rochas e metais derretidos, os quais fazem parte do ciclo de dióxido de carbono que sustenta a nossa atmosfera e geram o campo magnético que nos protege do vento solar. Os únicos mundos onde não há actividade geológica – sem vulcões, sem terramotos, sem interiores activos – são aqueles cujo núcleo arrefeceu e solidificou. Mas esses são também aqueles que não têm vida.

Isto quer dizer que a realidade é bastante mais complexa do que o simplismo do bem contra o mal. Há múltiplos processos em jogo, de curto, médio ou longo prazo, concorrentes, paralelos ou derivados, benéficos ou prejudiciais consoante o momento ou a perspectiva, com os humanos a serem apenas uma roda na maquinaria universal e as diferentes divindades a participarem de forma diversa. Numa mundividência politeísta, não se põe a questão de porque é que os deuses permitem o nosso sofrimento. Isso é uma pergunta a fazer aos monoteístas, aos que acreditam numa única divindade omnipotente e têm por isso que explicar como é que ela não usa os seus poderes absolutos para impedir certas coisas ou reformular os processos naturais. Quando a perspectiva é a da pluralidade, uma entidade divina nunca controla tudo e todos pelo simples motivo de, passo a expressão, não ser o único jogador em campo. Há múltiplos deuses e deusas em palco, uns pequenos e outros grandes, uns amigáveis e outros hostis, uns focados no longo prazo e outros no curto prazo, uns neutros e outros próximos da Humanidade, uns com mais poder que outros, com áreas de influência reduzidas, alargadas, distintas ou sobrepostas. E nem todos puxam para o mesmo lado, nem todos têm os mesmos planos, vontade ou capacidade de intervenção, complexidade à qual se junta ainda a variável que é a acção humana.

Queres que um deus impeça o teu sofrimento? Tens que ter em conta que não depende apenas dele. Há outras divindades com as quais pode ser preciso negociar, algumas que não estão focadas nos teus interesses particulares, processos que podem apenas ser ajustados em vez de alterados, divindades cujos objectivos são contrários aos teus e tudo isto assumindo que a entidade a quem pedes ajuda está sequer disposta a dar-te uma mão. Porque também há uma coisa chamada liberdade divina ou de como um deus não é obrigado a fazer o que tu queres só porque lhe pediste. Não é uma máquina na qual basta meter uma moeda e carregar num botão para sair a tua bebida preferida, havendo sempre a possibilidade de receberes um “não” como resposta. Mas ao contrário do que sucede nos monoteísmos, também há a hipótese de tentares outra divindade.


26. De que servem os teus deuses se eles não podem fazer tudo?
De que serve um médico se ele não pode curar todas as doenças e salvar todas as vidas? De que serve um amigo se ele não pode ajudar-nos em tudo? De que serve um familiar se ele não pode apoiar-nos sempre e resolver todos os nossos problemas? A omnipotência não é o critério de utilidade de uma coisa, tal como também não é um critério de divindade. Um deus ou deusa é algo que eu defino como numinoso, sábio ou poderoso, mas isso não é o mesmo que absoluto, omnisciente ou omnipotente. Há todo um mundo diverso e complexo entre o oito e o oitenta.


27. És anti-ciência?
Não. Eu não confundo as minhas crenças religiosas com factos ou teorias científicas e embora estas últimas possam influenciar as primeiras (como se viu pela resposta à pergunta 25). Mas o oposto já não acontece – ou não devia acontecer – porque ciência e religião são coisas diferentes, com uma linguagem e dinâmicas distintas, e desse modo com critérios e formas de prova também eles diferentes.


28. És anti-moderno?
Não. Bem pelo contrário, sou muito adepto das virtudes da modernidade, uma vez que reconheço que o mundo actual é melhor em múltiplos aspectos. Há mais liberdade, mais justiça, mais direitos, mais conhecimento e melhores condições de vida do que no passado. Aliás, eu não estaria a escrever isto, não teria a oportunidade de escolher a minha religião e de praticá-la de forma aberta sem os meios e a liberdade que a modernidade me proporciona. Não é que ela não tenha problemas ou consequências negativas, porque tem, da crise ambiental aos desafios colocados por algumas das novas tecnologias, mas possui também meios para criar soluções, de novas formas de energia a maior transparência. E não, não há nisto uma contradição com o ser-se politeísta: tal como eu disse na resposta à pergunta 9, alguns dos momentos fundamentais na construção da modernidade – o Renascimento, o Iluminismo, a Revolução Francesa – fizeram-se com o recurso a ideias e modelos da Antiguidade Clássica. Recuperar algo passado não é sinónimo de voltar atrás no tempo: por vezes é mesmo uma forma de dar passos em frente.


29. O que é que a tua religião ensina sobre a homossexualidade ou o aborto?
Não ensina. No seu conjunto, o politeísmo romano não possui escrituras ou ortodoxia e, como tal, também não tem uma doutrina moral. O que não quer dizer que eu ou outros como eu sejamos amorais, mas apenas que vamos buscar os nossos princípios a uma variedade de fontes.

Por exemplo, podemos inspirar-nos num ou mais deuses, embora divindades diferentes transmitam ideias distintas e por vezes contraditórias: Silvano enfatiza o valor e preservação das florestas, Minerva os mecanismos e produtos da civilização, Hércules transmite força, Mercúrio opta pela astúcia, Vesta é adepta do pudor, Vénus da luxúria, para dar apenas alguns exemplos. É outra vez a questão da pluralidade divina e da consequente diversidade que obriga à coexistência. Algo que é mais difícil de identificar nos monoteísmos, onde o reconhecimento de um único deus faz com que as suas ideias sejam absolutas por ausência de concorrência ou contraditório divino. E isso contribui para que o politeísmo romano não tenha mandamentos morais, dado que é uma religião de muitos deuses. A diversidade retrai a uniformidade.

Outra opção consiste em beber princípios morais de uma ou mais filosofias, mas também aqui a ausência de escrituras e ortodoxia origina diversidade, uma vez que pessoas diferentes são adeptas de escolas filosóficas distintas. O que enfatiza a natureza ortopráxica do politeísmo romano, cujo enfoque está nos ritos e não nas crenças ou moralidade. Não quer dizer que seja uma religião sem crenças ou princípios morais, mas sim de muitos e diferentes. E isso é algo que me satisfaz bastante, porque oferece-me a liberdade de pensar livremente, de construir a minha teologia e debater assuntos como a homossexualidade, o aborto ou o suicídio sem estar amarrado ao “diz que” de textos escritos há séculos atrás e que, no fundo, cristalizam como dogma os valores e regras de uma sociedade e tempo diferentes.


30. Qual a utilidade de uma religião sem ensinamentos?
Para além da inspiração, motivação ou consolo, que não deixam de existir mesmo quando não há ortodoxia, a resposta pode resumir-se a duas palavras: continuidade e conexão. A primeira porque torna o passado da minha família, cidade ou país em mais do que memória, elevando-o a uma parte viva da minha vida com muito mais clareza do que apenas a consciência de que o presente é um produto do passado. Ou como em tempos eu disse a alguém, um membro da família continua a sê-lo mesmo depois da morte. E nesse sentido há uma conexão, um estar e sentir-se ligado ao mundo em redor, humano e natural, visível e invisível, presente e passado e na sua diversidade. Não quer dizer que isso só se possa fazer por via da religião, mas é uma das formas possíveis para quem opta por ver nas coisas mais do que processos químicos ou acasos e explora a ideia de haver algo mais.