Um olhar português

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Uma pessoa é produto da cultura e do lugar que a rodeia, embora nem sempre esteja consciente disso. Muitas vezes é apenas quando se é confrontado com alguém de outro sitio, que cresceu com outros pressupostos, que nos apercebemos de quem somos e é como é que isso nos distingue. Isto é verdade para vários aspectos da vida humana, incluindo o religioso, pelo menos num contexto politeísta. Por exemplo, não é raro haver um rancor mais ou menos latente em relação ao cristianismo, principalmente em países cuja identidade e cultura remontam ao período pré-cristão, em locais onde a conversão sistemática é um processo relativamente recente, senão mesmo corrente, ou então em sítios onde o fundamentalismo evangélico tem uma forte presença na vida pública. Entre pagãos e politeístas há por vezes também um sentimento anti-moderno que radica na crise ambiental, na objetificação da Natureza e, no caso de países extra-europeus, na memória dolorosa da colonização e consequente destruição de culturas nativas em nome da fé ou progresso.

Há nisto motivos de crítica legítimos que devem ser reconhecidos e resolvidos sempre que possível, mas há também uma diferença de atitude na forma como eles são encarados. Em concreto, entre as várias sensibilidades existentes no politeísmo ocidental moderno, há os que optam pelo protesto constante, pela rejeição da modernidade e ideia de progresso, pelo combate declarado aos monoteísmos e a apologia de um regresso a um passado romantizado. E em oposição há os que querem fazer parte do mundo moderno, que desfrutam das suas vantagens sem deixarem de criticá-lo e tentar melhorá-lo, mas sem que isso implique a sua rejeição por inteiro. Neste confronto de ideias, eu alinho pelo segundo grupo, em parte graças a uma consciência de ser português, não no sentido de um sentimento identitário nacionalista, mas de uma perspectiva histórica que molda a minha mundividência.

Escalas de tempo diferentes
O valor atribuído ao Iluminismo fornece um bom exemplo do que eu quero dizer, pois enquanto esse período tem conotações negativas entre politeístas americanos – não todos, mas vários – para mim, tal como para muitos europeus, o termo evoca as noções de liberdade, igualdade, cultura e pensamento crítico. E a diferença radica na perspectiva histórica, dado que eu posso fazer uma comparação entre o antes e depois do Iluminismo no meu país, mas esse exercício é mais difícil nos Estados Unidos da América por eles só foram fundados em 1776. É certo que a declaração de independência americana é um documento iluminista que consagra os valores de liberdade e igualdade, direitos naturais e a ideia de felicidade humana, mas a realidade prática da época e dos séculos subsequentes contrasta com a nobreza dos princípios escritos. Afinal, a declaração de independência não acabou com a escravatura nem com a pena de morte nos Estados Unidos da América; e após 1776, o país expandiu-se para ocidente, arrasando ou assimilando à força culturas e comunidades indígenas. Motivo pelo qual, num contexto politeísta americano, o Iluminismo chega a ser equiparado a genocídio e escravatura.

Embora eu possa compreender os motivos desse raciocínio, ele não faz sentido de um ponto de vista português. E isso acontece porque Portugal, ao contrário dos Estados Unidos, remonta ao século XII, o que permite um exercício comparativo onde o Iluminismo surge com contornos positivos. Afinal, o Portugal pré-iluminista tinha uma população esmagadoramente analfabeta, não existia um sistema de ensino ou saúde públicos, a liberdade religiosa era limitada ou mesmo inexistente, a tortura e a pena de morte eram legais e amplamente aplicadas, o poder estava concentrado no topo e os governos não eram eleitos livremente por sufrágio universal. Tudo isso começou a mudar no século XVIII, não de forma imediata – porque a História não se faz de instantâneos – mas progressiva e em resultado do Iluminismo e, mais tarde, da Revolução Francesa e da propagação dos seus ideias por via das guerras napoleónicas. A primeira constituição portuguesa, a de 1822, é um produto desses antecedentes e consagrava a separação de poderes, a igualdade perante a lei, a presunção de inocência, o direito à propriedade, a cidadania universal de todos os portugueses livres e limitava a autoridade régia. Não era um texto perfeito, dado que não abolia a escravatura ou a pena de morte e não consagrava o sufrágio universal nem a liberdade religiosa, algo que se manteve em larga medida nas leis fundamentais subsequentes. Por algum motivo a sinagoga de Lisboa viria a ser construída num pátio interior, sem fachada directa para a rua. Mas a Constituição de 1822, tal como a Carta Constitucional de 1826, foram ainda assim uma ruptura e melhoria claras em relação ao estado de coisas anterior. Foram os primeiros grandes passos portugueses rumo à democracia, liberdades e direitos de hoje, que não se fizeram de forma imediata e exponencial, mas sim progressiva e não-linear, com um misto de avanços e recuos. Claro que eu posso fazer este exercício comparativo porque a História de Portugal recua até ao século XII. Ou, para recuperar o exemplo da sinagoga de Lisboa, posso concluir que apesar das limitações impostas pelo quadro legal da monarquia constitucional, foi o primeiro templo hebraico em solo português desde a expulsão ou conversão forçada dos judeus na década de 1490. Há uma escala temporal alargada que me permite ver avanços e melhorias onde um americano, por ter um país criado em 1776, pode ver apenas promessas quebradas de liberdade e igualdade.

Daí também que eu não consiga atribuir um valor negativo à modernidade. Não é que ela seja perfeita – longe disso! – ou que não tenha problemas – tem e muitos! – mas se eu comparar o Portugal de hoje com o que existia antes do Iluminismo, então eu posso concluir que o presente é bastante melhor do que o passado. Devo à modernidade muitos dos direitos e liberdades de que disponho hoje, incluindo a de escrever este texto e tornar pública a minha opção religiosa, coisas que não teriam sido possíveis em Portugal antes do século XIX. E sim, a modernidade trouxe problemas ambientais graves, mas a evolução da tecnologia para um modelo mais sustentável, tanto na produção de energia como na organização das nossas vidas, oferece soluções que não passam pela rejeição do mundo moderno. Tal como continua a haver racismo, fobias e desigualdades sociais, mas já estivemos bem pior, melhorámos nos últimos séculos e temos ferramentas para continuar a progredir. Não é uma questão de achar que o futuro é sempre melhor e só traz vantagens – porque isso seria ingénuo – mas de perceber que o saldo entre o ontem e o hoje é positivo. Algo que pode não ser o caso em países comparativamente recentes, como os Estados Unidos, e principalmente se as condições sociais, ambientais e politicas de hoje forem mais adversas.

Antiguidade e origens
O mesmo contraste aplica-se ainda à forma como eu vejo os monoteísmos abraâmicos, em especial o cristianismo e o islamismo, pois enquanto um politeísta grego pode ver neles uma força invasora ou um americano um movimento genocida, um português que tenha consciência da História do seu país e integre-a na sua mundividência tem uma visão diferente.

A questão aqui radica uma vez mais na idade dos diferentes países ou das suas culturas. Veja-se o caso da Grécia, que embora só tenha nascido como Estado unificado em 1830, tem uma língua e sentido de identidade que recuam até vários séculos antes de Cristo. Mais: a época áurea da civilização helénica remonta ao período pré-cristão, seja na arquitectura, filosofia, ciência, literatura ou política, e a transição para o cristianismo equivaleu a uma ruptura com esse passado, senão mesmo à destruição de parte dele. E como se isso não bastasse, a Igreja Ortodoxa Grega conserva ainda hoje uma mentalidade e privilégios medievais, o que faz com que vários politeístas helénicos olhem para o cristianismo como uma religião invasora, inimiga, opressiva. Tal como entre politeístas americanos ela é vista como genocida graças ao papel que desempenhou na assimilação violenta das tribos índias, processo esse que é relativamente recente ou continua ainda.

O tema reveste-se de outros contornos em Portugal. Aqui, a cristianização ocorreu há mais de mil anos, com as primeiras comunidades cristãs organizadas a remontarem ao final do século II, e depois disso ainda houve uma fase de islamização após a conquista muçulmana da península Ibérica em 711-14. E tudo isto ocorreu séculos antes do aparecimento de um país chamado Portugal, que nasceu apenas em 1143 ou, quando muito, em c. 1096, quando foi criado uma terra portucalense a partir dos territórios dos antigos condados de Coimbra e Porto (ou Portucale). E essa fundação foi feita sob a égide do cristianismo, pelo que falar dele como uma religião invasora é, no contexto português, ridículo na melhor das hipóteses.

Para mais, não só Portugal é uma construção política e cultural cuja origem não pode ser desligada dos dois grandes monoteísmos, não tendo assim uma identidade pré-cristã bem definida, como aquilo que é hoje o seu território foi habitado por diferentes povos ao longo dos séculos. Aqui viveram tribos indo-europeias não-celtas, celtas e celtibéricas, fenícios, alguns gregos e muitos romanos, germanos, árabes e berberes do norte de África. Todos eles fixaram-se na parte ocidental da península ibérica e trouxeram consigo costumes e religiões que passaram a fazer parte do património e tecido cultural da região. É certo que nem todos deixaram vestígios no mesmo grau, seja porque a presença de alguns foi há demasiado tempo ou o seu domínio do território muito ténue ou efémero. Mas este território foi para todos eles um lar, o sítio onde se fixaram e de certo modo naturalizaram, pelo que também as suas religiões podem reclamar alguma forma de ligação ao que é hoje a terra portuguesa. E isso inclui os dois grandes monoteísmos, que já cá estavam muito antes do nascimento de Portugal e tornam-se em parte da cultura deste território, tal como os politeísmos celta e romano séculos antes.

Isto não quer dizer que o cristianismo ou o islão devam ter privilégios, dominar o discurso religioso, determinar a vida pública ou vetar a legislação civil; tal como não equivale a que concorde com a sua teologia, seja obrigado a aderir à sua doutrina ou ignore os erros do passado. Ser-se português não obriga a ter uma religião ou a sofrer de uma crise de amnésia. Mas ao perceber que o meu país nasceu séculos após a evangelização da península e que a sua fundação foi precedida por diferentes camadas que fazem parte do património cultural português, então eu tenho que não só admitir a sua matriz multi-étnica, mas também que o cristianismo e o islão são parte da História e cultura do meu país, não os vendo por isso como religiões invasoras ou inimigos a abater. É certo que no passado foram responsáveis por atrocidades e fizeram do politeísmo um alvo preferencial, mas a menos que eu sofra de uma memória histórica mal digerida, os conflitos de ontem não são motivo para impedir uma convivência pacífica hoje.

O fantasma nacionalista
Depreende-se disto que eu não separo a minha vivência religiosa da minha identidade nacional. Não é que sejam uma e a mesma coisa, mas ligam-se e cruzam-se de uma forma que tem o seu quê de orgânico: os deuses locais da minha terra natal, onde a minha família tem raízes com vários séculos, confundem-se em parte com os meus antepassados; o ser português e como tal nativo a um idioma e cultura latinas ganha um sentido religioso ao ser-se politeísta romano; os heróis a quem presto culto são quase todos figuras da História de Portugal; e eu honro divindades nativas ao que é hoje território português, atribuindo-lhes epítetos modernos correspondentes, como no caso de Nabia Portugalensis, deusa que eu ligo assim aos meus antepassados.

Claro que há nisto o risco óbvio do nacionalismo religioso. É um mal que atinge várias grupos politeístas, especialmente em países cuja fundação ou identidade são mais antigos do que a sua cristianização, levando, por exemplo, a que haja quem afirme que se ser grego há que praticar a respectiva religião pré-cristã, dado que só ela é verdadeiramente nacional, enquanto o cristianismo é universal. Desconstruir estas ideias sem rejeitar politeísmos tradicionais é por vezes difícil, mas no caso português, a questão é facilitada pelo que já se disse acima.

Em concreto, que Portugal não tem uma identidade pré-cristã. Não foi fundado na antiguidade remota ou sequer até século IV, mas mil anos após as primeiras comunidades cristãs no ocidente ibérico e vários séculos depois da islamização da península. Falar num politeísmo português como se fosse uma religião tradicional ligada à origem da nacionalidade, isso é uma manifestação de ignorância ou um exercício do absurdo que muitas vezes não passa de uma apropriação de práticas pré-portuguesas para fins políticos, racistas ou xenófobos. As únicas religiões que podem reclamar um elo à fundação nacional são o catolicismo e, até certo ponto, o islão sunita. De resto, há apenas uma ligação com o território que veio a ser Portugal, mas nenhum lusitano, túrdulo, calaico, romano, suevo ou visigodo se reconheceria como português dado que essa identidade não existia ainda.

Assim sendo, não se pode aplicar a Portugal a argumentação que alguns usam para a Grécia, de identificação da nacionalidade com uma dada religião pré-cristã. Nem sequer se pode usar o argumento etnocêntrico que por vezes se ouve no norte da Europa, de que a cultura nativa europeia é diferente da do Médio Oriente ou norte de África, porque ambos os sítios contribuíram para a matriz cultural portuguesa. Basta pensar nos fenícios, nos árabes ou nos berberes. Não deixa de ter piada ver a extrema-direita portuguesa falar numa identidade nacional que exclui muçulmanos, esquecendo-se,por exemplo, das raízes árabes de topónimos como “Algarve” ou “Alcântara” ou até mesmo do arabizado “Lisboa”, que antes de ser al-Ushbuna foi Olisipo, nome que sugere influência oriental ou semítica. A pureza cultural é uma fantasia que tem ainda menos aderência à realidade no sul da Europa, que conta com pelo menos três mil anos de migrações e influências vindas da margem sul do Mediterrâneo.

O ontem e o hoje
Em que consiste então o tal olhar português que enforma a minha vivência do mundo e do politeísmo em particular? Acima de tudo, radica na consciência das origens e História do meu país, que nasceu no século XII, é um dos herdeiros da língua e cultura latinas do mundo antigo e ocupa um território que foi habitado por diferentes povos com costumes distintos. O que oferece uma escala temporal onde a modernidade surge de uma forma positiva, permite-me fazer uma ligação natural entre a minha nacionalidade e a opção pelo politeísmo romano e ao mesmo tempo leva-me a reconhecer que são múltiplas as tradições que podem reclamar uma ligação ao território português ou à sua cultura. E isso, essa consciência das origens e identidade, dá forma a uma vivência religiosa que não é anti-moderna, não procura substituir a cidadania de hoje por uma encenação de tribos de ontem, não olha para os monoteísmos como inimigos a abater e não se refugia na romanidade passada, porque já faz parte da latinidade presente.

Dito de forma simples, a vivência de uma religião com raízes antigas, mas adaptada ao mundo moderno e para ser parte viva dele, associando-se por isso a valores, identidades e perspectivas igualmente modernas. O que no meu caso passa pelo ser português – quem eu sou e não quem eu poderia ser numa encenação do passado ou numa fantasia purista sem aderência à realidade. Não será idêntica à vivência de outros politeístas noutras partes do mundo, porque a História deles e o seu quotidiano são diferentes, mas isto é quem eu sou. Eu nasci, cresci e vivo em Portugal, onde a minha família tem raízes multisseculares. Não posso ser outra coisa que não eu mesmo.