O portador do cão

Conta-me a história de quando Mercúrio encontrou Quangeio ainda bébé, abandonado à beira da estrada, e o filho de Maia acolheu-o, carregando-o nos braços até ao Olimpo.

Em Junho, escrevi este texto sobre os traços gerais de um culto moderno e ibérico a Mercúrio como parte do reavivar do politeísmo romano antigo no mundo actual, da sua regionalização – processo que também existia no passado – e da necessária criação de elementos novos, seja por força do contexto moderno, seja pela ausência de informação que obriga a preencher lacunas. No fundo e para retomar a analogia, uma religião que seja como uma árvore antiga, simultaneamente enraizada no passado remoto e por isso ligada a ele, mas cujos ramos crescem no céu presente de forma orgânica.

1. As ideias
Na altura, apresentei Mercúrio, Maia e Quangeio como as figuras centrais desse culto em construção, juntamente com os Lares Viales como hoste divina, e referi que cada um deles teria pelo menos uma festividade anual. Pois bem, a do terceiro elemento da tríade tem lugar amanhã, dia 24 de Agosto, sob o nome de Caniferalia – a festa do portador do cão.

Tanto quanto eu saiba, o termo é um neologismo, feito a partir da junção das palavras latinas canis (cão) e fero (levar, trazer), e alude a um mito ainda nos primeiros esboços em que Mercúrio adopta o deus cão ibérico Quangeio depois de o encontrar abandonado à beira de uma estrada. Obviamente, não se trata de um acontecimento histórico, mas de uma narrativa que visa codificar a relação entre os dois deuses e ao mesmo tempo transmitir uma componente ética que seja parte específica do culto (mas não necessariamente do resto do politeísmo romano).

Paralelamente, a data visa celebrar ainda a ascensão de Quangeio ao estatuto de príncipe entre os Lares Viales e como tal a membro destacado da hoste divina, algo que a seu tempo terá também um mito correspondente. O que, no seu conjunto, concede múltiplas camadas de significado à festividade: no nível mais básico, é a celebração anual de um deus canídeo e, desse modo, uma espécie de dia do cão; mas porque Quangeio é membro da tríade do culto que estou a construir, a data realça também a sua relação com Mercúrio e os Lares Viales; e depois as duas coisas ligam-se por via do cão como protector e companheiro de viajantes e da cinofilia de Mercúrio que é transmitida pelo mito, remetendo de volta para a Caniferalia como um dia dos cães.

Há ainda um sentido adicional relacionado com um ciclo mercurial de quatro festividades anuais no dia quatro de Janeiro, Abril, Julho e Outubro, mas isso é tema para outro texto numa oportunidade futura, quando as noções com que estou a jogar estiverem mais assentes.

2. As acções
Se isto explica as ideias, o que dizer da dimensão prática da Caniferalia? Que gestos e acções devem caracterizar a festividade? A mais óbvia é uma cerimónia formal em rito romano, a que se podem somar oferendas mais informais em pequenos oratórios, estejam eles dentro ou fora de casa, à beira de uma estrada ou mais isolados. Coisas como libações de vinho, trigo, grinaldas ou incenso. E é claro, em cada um desses momentos pequenas homenagens a Mercúrio, Maia e aos Lares Viales são igualmente apropriadas.

Aos actos de culto óbvios podem juntar-se gestos mais mundanos, mas que não deixam de ter uma dimensão religiosa no contexto da Caniferalia. Coisas como oferecer prendas aos cães de que se seja dono, levá-los a passear a sítios diferentes ou especiais, dar-lhes uma tarde de brincadeira numa praia ou prado, fazer um donativo em dinheiro ou géneros a um abrigo animal, se possível adoptar um cão ou, de preferência ao final do dia, visitar campas canídeas. O universo simbólico do cão é vasto e inclui o submundo ou a viagem para ele.

Por fim, sendo uma festividade de um culto centrado em Mercúrio Viator e nos Lares Viales, o simples gesto de deixar comida ou água na rua ou junto a uma estrada para cães abandonados tem também uma forte carga religiosa, mais ainda se for junto a moledros onde também se faça oferendas ao filho de Maia e aos Lares Viales. Cuidado apenas com a distância em relação à estrada para não haver risco de atropelamento enquanto os animais comem e nada de deixar recipientes de plástico ou papel de alumínio nas ruas ou espaços naturais.

3. Só mais uma coisa
Claro que muito disto – quase tudo, na realidade – é moderno. Mas isso é inevitável quando se lida com um deus como Quangeio, para o qual há muito pouca informação, o que quer dizer que adorá-lo no mundo moderno requer que se inove de modo a produzir algo vivo e funcional para o presente. O mesmo aplica-se à ideia de um culto ibérico de Mercúrio: no passado, os deuses romanos não eram adorados de forma uniforme pela Europa fora, mas havia variações e cultos locais e regionais, que é aquilo que eu estou a tentar criar. A tradição aqui vem sobretudo sob a forma de práticas rituais, deuses e dinâmicas.

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