De tais coisas é o mundo feito

Embora não sendo uma característica necessariamente universal – porque o politeísmo é uma categoria diversa e o que vale para uma parte pode não valer para outra – é pelo menos frequente entre politeístas encarar-se a vida como algo que tem uma dimensão religiosa em todos os seus aspetos. O que pode parecer totalitário e de facto seria esse o caso não fosse o princípio basilar da pluralidade, patente na ideia de poli- ou “muitos”, o qual implica que a religiosidade de uma pessoa pode não ser a de outras e sem que a diferença resulte em condenação.

Nesse sentido de dimensão quotidiana, como hoje é o meu dia de anos, planeei uma cerimónia em rito romano para sacrificar pequenas fatias do meu bolo de aniversário aos meus antepassados, génios da casa e a Mercúrio. É um gesto de partilha com membros da família falecidos, a fazer lembrar a refeição com parentes ainda vivos, e o reconhecimento do laço especial com algumas divindades, do mesmo modo que se evidencia os laços de amizade num dia de anos. E no mesmo contexto, no seguimento de uma breve conversa com um amigo meu, decidi acrescentar este texto às homenagens a Mercúrio, focando-me no seu lado menos popular para daí retirar ideias a respeito da sua identidade e o tipo de bênçãos ou castigos que ele oferece.

Entenda-se, no entanto, que o que eu vou dizer é a minha perspectiva – a de um português que associa o filho de Maia aos Lares Viales, integrando-o num contexto ibérico, e que além disso tem uma costela filosófica budista. As experiências e conclusões de outros devotos do Deus dos Pés Alados podem por isso ser diferentes das minhas e não há mal nenhum nisso.

1. Há que mexer, há que voar
Perguntava-me há uns dias o Aldrin como é que eu me sinto quando as pessoas dizem que Mercúrio não é de confiança por ser um trapaceiro mentiroso. E a minha resposta foi que eu tendo a rir-me quando não tento explicar que ele é um deus liminal e por isso mesmo fluído, incluindo no que à moralidade diz respeito. Porque uma das coisas que caracteriza um trapaceiro é o estar à vontade no espaço ambíguo que existe entre as noções de certo e errado, passando livremente de um lado para o outro. Não é por acaso que o filho de Maia é um mensageiro, diplomata, interprete, viajante – em suma, uma divindade que cruza os limites e faz a ponte entre ambos os lados de uma fronteira.

Mas fluidez é movimento, é mudança constante, o que é desconfortável para nós. O ser humano tende a ser mais adepto do conforto da certeza e da previsibilidade, o que é difícil de manter quando os limites das coisas deixam de ser claros. E como se isso não bastasse, somos igual e naturalmente avessos à mudança, que por regra tentamos evitar, mesmo quando ela é inevitável. E ela é quase sempre inevitável. A saúde, a beleza, o emprego ou a casa de sonho, a tarde ou o jantar perfeito, o casamento ideal ou a companhia insubstituível de um parceiro – tudo isso é precioso e digno de se obter, mas efémero e está sujeito à mudança, mesmo que não se goste. Recusar-se a aceitar isso é como ser um viajante que quer ficar perpetuamente à sombra de uma árvore, despreocupado e confortável, em vez de seguir caminho. O que é contrário à natureza de Mercúrio, que é um deus do movimento e permite, quando muito, pausas ao longo da estrada. Aliás, mais do que isso, ele oferece-as ou enriquece-as com bênçãos de sucesso, sorte, prazer, felicidade e prosperidade. Mas mais tarde ou mais cedo, é suposto seguir-se viagem e retomar o caminho. A vida é feita de mudança e movimento, por muito que gostássemos que as coisas fossem eternas, e o filho de Maia corporiza essa realidade. É o mundo dele.

2. Talvez um santo não seja aquilo de que precisam
Se apesar de desagradável a mudança é ainda assim passível de se aceitar, o mesmo não se poderá dizer do ato de roubar, que nunca é agradável para as vítimas. E é um facto que Mercúrio é um deus das mentiras e dos ladrões, o que não contribui para a sua popularidade, embora aqui também se deva perceber a origem dessa associação. Porque o que faz do filho de Maia um deus não só dos larápios, mas também dos comerciantes e do lucro, é a já referida natureza de trapaceiro. Ele é fluído, sempre em movimento e por isso difícil de apanhar, está armado com uma língua de prata e tem as manhas de um brincalhão, o que faz dele uma caixinha de surpresas constante. A ilusão, o dote de oratória, os gestos rápidos, o olhar atento, a capacidade inventiva, a agilidade e habilidade – tudo isso é próprio de um trapaceiro. É característico de um deus que se move nas sombras ou está em casa na ambiguidade que existe entre mundos, entre géneros, entre o certo e o errado e pode assumir vários papéis ou desempenhar a função de diplomata, interprete, espião ou mensageiro. É versátil e adaptável, porque tem essa capacidade de se integrar, camuflar, improvisar, inventar.

Claro que isto são também ferramentas básicas para quem rouba, que tem que saber usar manhas e artimanhas, passar despercebido ou mover-se com rapidez. Mas eu não diria que Mercúrio é um trapaceiro por ser um deus ladrões. Bem pelo contrario! Ele é uma divindade dos ladrões precisamente por ser um trapaceiro! Isto é, ele tem qualidades vitais para qualquer amigo do alheio e pode concedê-las, mas nem sempre e nunca de forma exclusiva, porque o deus não é o mesmo que a ocupação, de tal modo que é possível enganar um ladrão se se fizer um melhor uso das ferramentas mercuriais. Os dotes estão lá, mas a sua aplicação prática…. isso é outra conversa.

Assim, se o furto e a mentira são um produto do mundo de Mercúrio, também é verdade que o que lhes está na raiz pode ser usado para múltiplos objetivos e com um mínimo de honestidade. Sê esperto, sê engenhoso, está atento e mexe-te. Se há quem o faça para magoar e roubar, também se pode fazê-lo para ajudar e ser bem sucedido. Longe de ser um exclusivo dos ladrões, a arte dos mil engenhos é com frequência uma necessidade da vida e muitos dos que fizeram do mundo um sítio melhor não eram santos.

3. Move-te depressa, nunca sabes o que é que está no teu encalço
Até agora, eu tenho estado a falar da identidade de Mercúrio como eu o entendo e das bênçãos que ele oferece, mas falta a parte menos agradável, que é a dos castigos ou maldições divinas. E estas podem assumir diferentes formas, sendo as mais óbvias o ser-se vítima das artes mercuriais de um modo brutal ou sistemático ou o ser-se desprovido delas, transformando uma pessoa num ser ingénuo que nunca convence e é sempre convencido ou enganado.

Claro que há nisto inúmeras nuances e não, não estou a dizer que cada assalto ou burla é um castigo de Mercúrio. Por um lado, porque a pluralidade divina impede que se atribua tudo a um único deus e, por outro, porque há sempre o elemento humano. E além disso, o deambular sem destino, perdido e em constante fluidez, também pode ser uma experiência mercurial e não necessariamente como castigo. O mundo também é feito de complexidades destas.

Há, no entanto, outra forma de maldição divina que nem sempre é tida em conta, mas que pode ser enunciada a partir do título desta secção: move-te depressa, nunca sabes o que é que está no teu encalço. A frase, já agora, é uma citação do Going Postal do Terry Pratchett, como de resto são todos os subtítulos e o título deste texto, e pode exprimir as já referidas ideias de ser esperto, ser engenhoso, estar atento e mexer. Mas levada ao extremo é também um sinónimo de paranóia e por vezes é esse o formato do castigo divino: não a remoção de bênçãos, mas a sua oferta hiperbolizada, como que em esteróides, e a subsequente espiral descendente rumo à loucura ou desastre. Neste caso, o estar atento e em movimento ao ponto exagerado da mania da perseguição até ao isolamento completo. Isto também faz parte do mundo do filho de Maia, que tal como outros deuses não está desprovido de aspetos menos agradáveis.

4. Tu sabes os teus andares
Qual então o caminho de Mercúrio que eu estou a descrever? Em poucas palavras, a consciência de que a vida é uma viagem constante. Podes fazer pausas, ter momentos em que descansas e desfrutas, tens sucesso e tudo o que queres, mas as coisas estão sujeitas à mudança e é suposto seguires viagem. Aceita-a e aprecia-a. E sê esperto, atento, astuto, engenhoso, embora isso não queira dizer que não venhas a tropeçar. Porque isso também faz parte da vida e o Mercúrio às vezes gosta de mandar umas bolas com efeito. Ele também é um deus dos jogos.

Um problema inexistente

O jornal britânico The Guardian publicou há uns dias um artigo de opinião sobre o impacto que a descoberta de vida noutros planetas terás no universo religioso. A pergunta é pertinente, mas, falando por mim, o problema é inexistente.

Não o digo por achar que não há vida fora do nosso planeta. A Terra é excepcional no seu somatório de condições que permitiram o aparecimento e evolução de vida complexa, mas não é especial no sentido de ser exclusiva. Condições semelhantes noutros locais poderão ter resultados parecidos com os que foram produzidos na Terra. E por ventura nem será preciso sair do nosso sistema solar, dada a presença de uma fonte de calor e água em estado líquido numa lua de Júpiter e noutra de Saturno – Europa e Encélado, respectivamente. Não quer dizer que haja vida inteligente nesses sítios ou em muitos dos mais de três mil exoplanetas já descobertos, mas quer certamente dizer que não somos tão especiais quanto por vezes gostamos de pensar, como se a vida fosse um privilégio exclusivo da Terra. E nesse sentido, à medida que desenvolvemos a tecnologia necessária, a descoberta de seres extra-planetários, mesmo que apenas vegetais ou animais, não será tanto uma questão de “se”, mas “quando”.

Também não digo que, falando por mim, o problema é inexistente por achar que ele não tem razão de ser. Para religiões baseadas em textos de onde retiram uma ortodoxia universal e reclamam-se donas da verdade ou pelo menos de um acesso privilegiado a ela, a possibilidade de vida noutras planetas levanta questões importantes. Principalmente se, para mais, forem também religiões que aceitam a existência de apenas uma divindade. O que é que acontece quando as escrituras descrevem o nosso mundo como um espaço exclusivo? Como conceber um deus único que enviou um salvador com uma mensagem universal, mas que pelos vistos é desconhecido noutros planetas? A “salvação” é só para a Terra e não para outros sítios no universo? E se sim, onde é que isso deixa a universalidade da mensagem e da divindade que são apresentadas como absolutas? Ou se não, porque é que a dita revelação divina não chegou a outros mundos, se ela é suposto ser “para todos” e a divindade omnipotente e omnipresente? Onde fica o valor de escrituras que se dizem reveladoras da verdade, mas que ignoram a existência de vida fora da Terra ou do sistema solar? O artigo refere esta problemática usando o cristianismo como exemplo, e o que é verdade para essa religião é válido para outras formas de monoteísmo. Mas não para os politeísmos.

O motivo pelo qual eu digo que, falando por mim, o problema é inexistente prende-se com a questão abordada no texto anterior sobre pluralismo sem rodeios, sem medo de aceitar e valorizar a diversidade pelo que ela é: uma abundância de diferenças que são reconhecidas como tal, sem que com isso se tenha que menorizar, desprezar, discriminar, eliminar ou tentar reduzir a uma unicidade artificial. Muitos deuses, muitas tradições, muitas teologias e formas de ver o mundo – ou mundos. E não há mal nenhum nisso! Não mal em ser diferente, dizer que não há só um deus e que não é tudo o mesmo.

Assim, quando o artigo pergunta, e passo a citar, “como é que podemos resolver a teoria de muitos deuses e muitos mundos?”, as respostas vão variar primeiramente consoante o tipo de religião. Os monoteísmos, em especial os exclusivistas, terão que encontrar forma de contornar o desfasamento natural de textos sagrados escritos há milhares de anos, quando se tinha uma perspectiva geocêntrica das coisas, e saber adaptar o seu discurso, como de resto o cristianismo tem feito desde o século XVI, a bem ou a mal. E sempre com a questão de até onde se pode esticar a hermenêutica de textos antigos sem que eles percam o valor de autoridade.

Já um politeísta limita-se a encolher os ombros com alguma indiferença. Muitos deuses e muitos mundos? Isso é a essência do politeísmo! Diversidade divina e religiosa, de caminhos, destinos, ideias e mundividências e sem tentar reduzir tudo a uma mesma coisa. Porque é que a eventual descoberta futura de crenças e tradições extraplanetárias havia de ser um problema para quem já acredita que há muitos deuses e muitos mundos e sem ver mal nenhum nisso?

Pluralismo sem rodeios

Há um conjunto de artigos que têm vindo a ser publicados no blogue Povo de Bahá, traduções e não originais do Marco Oliveira, mas que valem a pena ler pelas questões que abordam. Em concreto, o tema do exclusivismo religioso, da noção de tolerância ou dos problemas que ela levanta e ainda o conceito de pluralismo. O que me levou a escrever sobre este último, tocando em pontos aflorados pelo David Langness, mas oferecendo uma perspectiva em última análise diferente da Bahá’i

Suponho que a definição elementar do conceito não levanta dúvidas. Plural significa mais do que um, o que aplicado ao universo religioso traduz-se na aceitação de mais do que uma perspectiva. Quais, quantas e até que ponto, com que critérios, justificação ou objectivos, isso já é sair da definição básica e entrar nas especificidades de diferentes sistemas religiosos. A título de exemplo, o Islão moderno tem pelo menos oito escolas de jurisprudência aceites como legítimas por muitos, senão mesmo a maioria dos muçulmanos, o que constitui uma forma de pluralismo interpretativo do Corão. Também o budismo tibetano acolhe diferentes correntes e linhagens com ensinamentos específicos e mais notório é o caso do hinduísmo, que é plural não só ao nível das escolas de teologia e filosofia, mas ainda do panteão e do enfoque diverso numa ou mais divindades, produzindo ramificações como o Xivaísmo e o Vixnuísmo. Mas o Islão não deixa de ser uma religião monoteísta, enquanto o hinduísmo, pelo menos em muitas das suas vertentes, é em última análise monista – isto é, aceita a pluralidade como meras manifestações de uma única entidade. O que é igualmente verdade para a fé Bahá’i e é aqui que a minha teologia diverge da do Marco e de outros.

O pluralismo que eu advogo não é direccionado para a convergência, mas para a celebração da diversidade, que é aceite como tal, sem hesitações teológicas ou apologias de unidades últimas. Não está por isso limitado pelo conteúdo de um livro, as palavras de um profeta, um panteão específico ou pela crença de que tudo se resume a uma só entidade. É um pluralismo diverso, sem medo de abraçar a diferença ou tentar reduzi-la a uma singularidade universal pela crença de que, no fundo, é tudo o mesmo, tudo formas diversas de ver e adorar um deus único. Não é, não tem que ser, não tem que se resumir tudo à mesma entidade. E não há mal nenhum nisso! Não é preciso ver-se as diferentes religiões, deuses e escolas como manifestações de uma única fonte para se poder tolerá-las, aceitá-las ou valorizá-las. Ou para haver paz, respeito e uma coexistência frutífera. Basta aceitar a diferença pelo que ela é – diferente e não idêntica – e saber viver com ela em vez de se tentar reduzi-la a uma singularidade, como se a diversidade a sério – e não apenas aparente – fosse uma espécie de anátema.

Isto é problemático? Certamente! Em primeiro lugar, para os que advogam uma perspectiva exclusivista, mas querem ainda assim fazer parte de um mundo diverso. O que não raras vezes conduz à escapatória da unidade última para se poder dizer que se é detentor da verdade e que os outros, no fundo, acreditam no mesmo. Problema semelhante afecta o monoteísmo que tenta conviver com outras religiões sem querer parecer intolerante, passando assim a ideia de que o deus é o mesmo, único e universal, e que o resto são somente especificidades culturais, locais ou históricas. O discurso interreligioso é rico neste tipo de ideias e é uma forma de fazer as pazes com a diversidade, de certo modo integrando-a, sem no entanto comprometer o fundamental de teologias exclusivistas ou monoteístas. Mas é também algo de profundamente redutor e que, em última análise, mais não faz do que tentar lidar com a diferença anulando-a. Não tenta aceitá-la e conviver com ela como tal, sem rodeios, mas tenta reduzi-la a uma unidade última. Como se aceitar algo obrigasse a nivelar por baixo, o que no fundo contradiz a própria noção de tolerância, que se aplica ao que é diferente de nós, não ao que é idêntico. Tolerar o que é igual é fácil; tolerar o que é distinto, isso já é mais difícil e parece ser algo que ainda custa, porque quando se tenta fazê-lo não falta quem puxe do argumento de que no fundo é tudo o mesmo. E não há nisso um verdadeiro exercício de tolerância, porque estamos a tentar reduzir o outro a uma cópia de nós. No fundo, é fugir à questão, contornando-a.

Isto não quer dizer que não haja uma base comum. É verdade que somos todos seres humanos, que habitamos o mesmo planeta e temos igual direito à dignidade, liberdade, oportunidades e igualdade perante a lei. Mas isso não obriga a fazer tábua rasa da individualidade de cada pessoa, comunidade, escola ou religião, como se fosse impossível conviver com a diferença sem reduzi-la a uma mesma coisa. Ou como se fossemos incapazes de perceber que algo diferente tem direito à mesma dignidade sem que ter que ser idêntico. Ou que a igualdade perante a lei obriga muitas vezes a compreender as especificidades de cada pessoa ou grupo para se lidar melhor com os seus desafios particulares. Exemplo prático: perceber o que distingue um deficiente permite implementar medidas que melhorem a acessibilidade física a espaços públicos. Ou, no contexto interreligioso, entender o que distingue várias religiões ajuda a identificar pontos de discórdia e como melhor lidar com eles, sem saltar para a conclusão de que não importam por ser tudo o mesmo. O que, por sua vez, transforma a tolerância num exercício de análise crítica com vista à coexistência plural e não mera indiferença ou uma dança à volta da fogueira em que fingimos ser tudo idêntico ou a mesma entidade. Um excelente do que não se deve fazer são as palavras do padre Anselmo Borges no seu livro Religião e diálogo inter-religioso, onde ele diz muito claramente que não há verdadeiros politeístas, porque o politeísmo é na realidade uma atribuição de diferentes personificações a uma mesma entidade (2010: 49-50). O que é falso, mas muito conveniente para alguém que quer aceitar a validade de outras religiões sem abrir mão do monopólio divino da sua. Tudo o mesmo deus, logo nem tem repensar o seu monoteísmo, nem ser intolerante. Problema resolvido… ou não!

Não há nisto verdadeira tolerância. Há sim um reducionismo a uma identidade comum que se pode respeitar ou valorizar por ser no fundo idêntica à que eu adoro. É tolerar o igual, o que é fácil. Mais difícil é tolerar o diferente, porque isso seria incómodo ou não daria a melhor das imagens. Afinal, como é que uma religião que afirma haver apenas um deus pode conviver com outras sem afirmar que todas as divindades são as mesmas ou, se não o fizer, sem parecer intolerante ao dizer que só o seu deus é verdadeiro e que todos os outros são falsos?

É por isso que eu prefiro um pluralismo mais genuíno, mais honesto, menos acessório de ideias de unidade última. Uma perspectiva plural sem rodeios, sem exclusivismos e sem monopólios divinos, onde a variedade de deuses, tradições e religiões não tem limites. O diferente é mesmo diferente e não há mal nenhum nisso. Não é menos digno, respeitável ou válido e não é preciso reduzi-lo a uma unicidade para se poder tolerá-lo ou coexistir com ele. Basta aceitar a diferença tal como ela é, neste caso a de que as religiões não são todas iguais, não são formas diversas de adorar o mesmo deus, não são produtos de uma mesma fonte divina e todos os deuses não são o mesmo. Afirmar que sim é, muitas vezes, querer fugir à diversidade e consequente desafio da diferença, anulando-a.

A casa tem alma

Em casa vive-se e na igreja reza-se, certo? Ok, em casa também se pode ter uma imagem numa prateleira e rezar, mas a missa de domingo faz-se numa igreja. Ou pelo menos é essa a ideia predominante, segundo a qual o espaço doméstico é secular e claramente distinto do religioso, não se podendo usar o primeiro para funções próprias do segundo. Mas numa perspectiva politeísta baseada numa mundividência pré-cristã, isso não é necessariamente verdade.

Para além do reconhecimento religioso de muitos deuses, entendidos na acepção comum de entidades maiores, há um animismo presente no politeísmo que atribui espírito ou alma a objectos, fenómenos, plantas e animais, convertendo-os facilmente em divindades e no foco de cultos religiosos. É a tal ideia expressa nas palavras atribuídas a Tales de Mileto, que tudo está cheio de deuses, e isso inclui o espaço doméstico. Ou dito de outra forma, a casa como uma estrutura que também tem alma. Não no sentido de ser um sítio singular ou com sentimento, mas por ser um local imbuído de presença religiosa, nomeadamente a dos antepassados, que têm um elo com os seus descendentes e mantêm por isso uma ligação com o domínio familiar por excelência que é a casa. E paralelamente há ainda os génios domésticos, os pequenos deuses locais da habitação ou do sítio onde ela foi construída, que são assim co-habitantes das residências humanas.

A consequência mais imediata desta mundividência é que a casa surge como um local de culto. Longe de ser um espaço puramente secular, ela é o sítio óbvio para se prestar homenagem aos deuses domésticos e aos espíritos ancestrais, o que atribui aos seus habitantes – aos pais, aos filhos, aos avós, aos irmãos, ao parceiro – o papel de sacerdotes. Não é preciso ir a um local especificamente consagrado para se levar a cabo cerimónias diárias ou semanais, porque o essencial e a mais fundamental das ligações religiosas – a que se estabelece com o divino local e familiar – está em casa. E por isso mesmo ela é também um espaço onde se pode honrar deuses maiores para os quais se reserve um ou mais oratórios domésticos. O que não faz da habitação humana um templo ou área sagrada, porque isso implicaria o estatuto de propriedade divina e como tal regras e tabus que limitariam e muito o quotidiano de qualquer pessoa. Mas faz da casa um local imbuído de presença e como tal funções religiosas, não por falta de opções ou tempo – embora isso também possa ser um factor – mas porque ela é um espaço com ritos, divindades e datas festivas próprias.

Larário na casa dos Vetti, Pompeia.  É uma das expressões materiais mais conhecidas do culto doméstico romano.

Larário na casa dos Vetti, Pompeia. É uma das expressões materiais mais conhecidas do culto doméstico romano.

Há uma segunda consequência, mais abrangente, e que consiste no sentimento de respeito não só pelo domínio doméstico, mas também pela envolvência natural, rural ou urbana, ela própria cheia de deuses e por isso uma espécie de vizinhança religiosa paralela à secular. Assim, a árvore ao lado da casa não é apenas uma planta que se pode abater sem mais, mas um ser vivo imbuído de valor que merece ser respeitado. A rua não é apenas uma via ou o cruzamento uma mera confluência de estradas, mas algo habitado ou transitado por deuses. A fonte, rio ou ribeira adjacente à casa não é só uma massa de água em movimento ou uma estrutura artificial, mas um espaço habitado por divindades, tal como a própria terra onde assentam os alicerces, o rochedo junto ao muro ou mesmo o céu local. E tudo isso merece respeito, merece reverência, nem que a única forma de o expressar seja o simples gesto de limpar, manter ou preservar. Ou quando as necessidades práticas obrigam à remoção ou destruição, tentar-se mitigar ou compensar de alguma forma.

Há nisto um impulso para o respeito pelo ambiente, o civismo ou a preservação do património, dado que as coisas quotidianas deixam de ser meros objectos inanimados ou recursos por explorar. Mas entenda-se que eu não estou a querer dizer que a religião, seja ela qual for, é essencial para se ter um “bom comportamento”. Por um lado, porque a diversidade inerente à categoria religiosa que é o politeísmo e o facto de vários dos seus ramos não terem uma ortodoxia significa que nem todos partilham de uma perspectiva animista. E por outro, porque nem os cristãos, judeus ou muçulmanos agem todos de forma correcta e apesar de terem escrituras que regulam a crença e acções humanas. Portanto, não se caia na asneira de concluir que é preciso ser-se politeísta para respeitar o ambiente ou agir como uma pessoa civilizada. Mas isso não quer dizer que o elemento religioso não possa reforçar a motivação secular. Não tem que se ter uma coisa ou outra, como se elas se excluíssem mutuamente, mas pode-se ter ambas a operar em simultâneo e a níveis diferentes. Por exemplo, eu não mando lixo para o chão – e às vezes até apanho algum do que encontro – por ter noção do quão prejudicial é a presença de químicos e plásticos no meio natural e que o que é largado numa rua não se fica por ela, podendo ser arrastado para os campos, florestas, rios ou mar pelo vento ou chuva. Isto é uma consciência ecológica e uma postura cívica baseadas numa análise puramente material da acção humana. Mas ao mesmo tempo, eu posso acrescentar-lhe uma consciência religiosa que atribui valor espiritual aos espaços naturais e humanos e por isso acrescenta à motivação para agir de uma dada forma.

Somar em vez de subtrair, acrescentar em vez de limitar, incluir em vez de excluir. As coisas não têm que ser um jogo de soma-zero! Podem ter que operar a níveis diferentes para não entrarem em conflito, saber-se o que fazer quando há choques ou não se confundir dinâmicas distintas, porque uma é subjectiva e pessoal enquanto a outra é mais objectiva. Mas isso não anula a possibilidade de elas co-existirem de forma paralela. Tal como o facto de a casa ser uma residência humana e não um templo não significa que ela não tenha um valor religioso profundo e que não seja um espaço de culto. Há deuses em tudo e há mérito num raciocínio mais conjuntivo e menos disjuntivo.

Primeiro passo

Depois de anos na blogosfera anglófona, é hora de me juntar à lusófona. Porque o português é a minha língua nativa, logo aquela em que eu me devia expressar primeiro, e Portugal tem idiossincrasias que são melhor esmiuçadas num espaço pensado para esse fim, sem necessidade de estar a ultrapassar barreiras linguísticas ou culturais. E porque o ano passado foi de ruptura, em 2017 exige-se uma resposta que eleve bem alto e de todas as formas possíveis os valores da diversidade, inclusividade e tolerância, incluindo no universo religioso, que é uma das raízes e veículos de expressão dos desafios actuais.

Assim, tomei a decisão de abrir um blogue em português focado no conceito de politeísmo – nas ideias, dinâmicas, práticas e devoções, minhas e de outros – com o objectivo expresso de partilhar, informar, debater e, com um pouco de sorte, influenciar consciências e atitudes. Porque o religioso não tem que ser um jogo de soma zero, uma construção ideológica facilmente tomada por inadaptados violentos, um reducionismo grosseiro em nome da paz ou um cardápio moral a ser imposto a todos. Bem pelo contrário, o religioso pode e deve ser uma força inclusiva que não anule a diversidade nem condene a diferença; mas para isso ele tem que ser reformulado na raiz e não apenas maquilhado com boas intenções ou discursos sobre unidade numa uniformidade. Provavelmente estou a ser críptico, mas refiro-me a coisas como as conversas de surdos sobre quem é dono da verdade, o fundamentalismo como arma de quem se dá mal com a modernidade, o diálogo inter-religioso feito na base de que tudo se resume essencialmente ao mesmo, o policiamento da lei civil segundo critérios religiosos e a condenação do outro – a um inferno ou estatuto menor – só por ser outro. Nada disto tem que ser inerente ao discurso e vivências religiosas, por muito que a realidade presente pareça dizer que sim. É uma questão de mudar o ponto de partida. A seu tempo falar-se-á dessas e de outras coisas, mas por agora, como primeira abordagem, basta o conteúdo do menu superior, em especial textos como as Perguntas Frequentes.

Também há um motivo pelo qual este blogue abriu hoje e não noutro dia: é que Janeiro é o mês de Jano, divindade dos começos, e quatro é o número do deus Mercúrio. Daí que quarta-feira seja miércoles em espanhol, mercredi em francês, mercoledi em italiano, miercuri em romeno, dimecres em catalão ou mércores em galego – do latim dies Mercurii, que não era o quarto dia da semana por acaso. Já os gregos faziam a associação entre o deus e o referido número e, se dúvidas há, leia-se o hino homérico a Hermes, em particular os versos 18 e 19. A língua portuguesa perdeu a construção dos nomes com base nos teónimos, fruto talvez da recristianização do noroeste ibérico no século V e à semelhança do que aconteceu mais tarde na periferia norte da Europa, onde se verificou uma alteração parecida no islandês. Mas mesmo a troca pela denominação eclesiástica das feriae não apagou a ligação mercurial com o número quatro; bem pelo contrário, tornou-a mais óbvia uma vez feita a comparação com línguas latinas que mantiveram a referência teonímica. Para mais, 4 de Janeiro de 2017 é também a primeira quarta-feira do ano, pelo que, tudo somado, era inevitável que eu escolhesse este dia para inaugurar um blogue que vai buscar o nome e muito do seu enfoque ao universo do deus Mercúrio. E para completar o ramalhete, esta entrada foi publicada às 16:04 horas. São quatro quatros e um dezasseis pelo meio para dar à coisa um extra especial.

mercurio

Não sei quantos seguidores vai ter, que impacto terá ou sequer quanto tempo durará. Mas venha o que vier, este blogue está aberto e pronto a usar ou a ser lido. Por isso, neste primeiro passo de uma viagem que espero ser longa, venha um brinde a Jano, deus dos começos, e outro a Mercúrio, o filho ágil de Maia!