A casa tem alma

Em casa vive-se e na igreja reza-se, certo? Ok, em casa também se pode ter uma imagem numa prateleira e rezar, mas a missa de domingo faz-se numa igreja. Ou pelo menos é essa a ideia predominante, segundo a qual o espaço doméstico é secular e claramente distinto do religioso, não se podendo usar o primeiro para funções próprias do segundo. Mas numa perspectiva politeísta baseada numa mundividência pré-cristã, isso não é necessariamente verdade.

Para além do reconhecimento religioso de muitos deuses, entendidos na acepção comum de entidades maiores, há um animismo presente no politeísmo que atribui espírito ou alma a objectos, fenómenos, plantas e animais, convertendo-os facilmente em divindades e no foco de cultos religiosos. É a tal ideia expressa nas palavras atribuídas a Tales de Mileto, que tudo está cheio de deuses, e isso inclui o espaço doméstico. Ou dito de outra forma, a casa como uma estrutura que também tem alma. Não no sentido de ser um sítio singular ou com sentimento, mas por ser um local imbuído de presença religiosa, nomeadamente a dos antepassados, que têm um elo com os seus descendentes e mantêm por isso uma ligação com o domínio familiar por excelência que é a casa. E paralelamente há ainda os génios domésticos, os pequenos deuses locais da habitação ou do sítio onde ela foi construída, que são assim co-habitantes das residências humanas.

A consequência mais imediata desta mundividência é que a casa surge como um local de culto. Longe de ser um espaço puramente secular, ela é o sítio óbvio para se prestar homenagem aos deuses domésticos e aos espíritos ancestrais, o que atribui aos seus habitantes – aos pais, aos filhos, aos avós, aos irmãos, ao parceiro – o papel de sacerdotes. Não é preciso ir a um local especificamente consagrado para se levar a cabo cerimónias diárias ou semanais, porque o essencial e a mais fundamental das ligações religiosas – a que se estabelece com o divino local e familiar – está em casa. E por isso mesmo ela é também um espaço onde se pode honrar deuses maiores para os quais se reserve um ou mais oratórios domésticos. O que não faz da habitação humana um templo ou área sagrada, porque isso implicaria o estatuto de propriedade divina e como tal regras e tabus que limitariam e muito o quotidiano de qualquer pessoa. Mas faz da casa um local imbuído de presença e como tal funções religiosas, não por falta de opções ou tempo – embora isso também possa ser um factor – mas porque ela é um espaço com ritos, divindades e datas festivas próprias.

Larário na casa dos Vetti, Pompeia.  É uma das expressões materiais mais conhecidas do culto doméstico romano.

Larário na casa dos Vetti, Pompeia. É uma das expressões materiais mais conhecidas do culto doméstico romano.

Há uma segunda consequência, mais abrangente, e que consiste no sentimento de respeito não só pelo domínio doméstico, mas também pela envolvência natural, rural ou urbana, ela própria cheia de deuses e por isso uma espécie de vizinhança religiosa paralela à secular. Assim, a árvore ao lado da casa não é apenas uma planta que se pode abater sem mais, mas um ser vivo imbuído de valor que merece ser respeitado. A rua não é apenas uma via ou o cruzamento uma mera confluência de estradas, mas algo habitado ou transitado por deuses. A fonte, rio ou ribeira adjacente à casa não é só uma massa de água em movimento ou uma estrutura artificial, mas um espaço habitado por divindades, tal como a própria terra onde assentam os alicerces, o rochedo junto ao muro ou mesmo o céu local. E tudo isso merece respeito, merece reverência, nem que a única forma de o expressar seja o simples gesto de limpar, manter ou preservar. Ou quando as necessidades práticas obrigam à remoção ou destruição, tentar-se mitigar ou compensar de alguma forma.

Há nisto um impulso para o respeito pelo ambiente, o civismo ou a preservação do património, dado que as coisas quotidianas deixam de ser meros objectos inanimados ou recursos por explorar. Mas entenda-se que eu não estou a querer dizer que a religião, seja ela qual for, é essencial para se ter um “bom comportamento”. Por um lado, porque a diversidade inerente à categoria religiosa que é o politeísmo e o facto de vários dos seus ramos não terem uma ortodoxia significa que nem todos partilham de uma perspectiva animista. E por outro, porque nem os cristãos, judeus ou muçulmanos agem todos de forma correcta e apesar de terem escrituras que regulam a crença e acções humanas. Portanto, não se caia na asneira de concluir que é preciso ser-se politeísta para respeitar o ambiente ou agir como uma pessoa civilizada. Mas isso não quer dizer que o elemento religioso não possa reforçar a motivação secular. Não tem que se ter uma coisa ou outra, como se elas se excluíssem mutuamente, mas pode-se ter ambas a operar em simultâneo e a níveis diferentes. Por exemplo, eu não mando lixo para o chão – e às vezes até apanho algum do que encontro – por ter noção do quão prejudicial é a presença de químicos e plásticos no meio natural e que o que é largado numa rua não se fica por ela, podendo ser arrastado para os campos, florestas, rios ou mar pelo vento ou chuva. Isto é uma consciência ecológica e uma postura cívica baseadas numa análise puramente material da acção humana. Mas ao mesmo tempo, eu posso acrescentar-lhe uma consciência religiosa que atribui valor espiritual aos espaços naturais e humanos e por isso acrescenta à motivação para agir de uma dada forma.

Somar em vez de subtrair, acrescentar em vez de limitar, incluir em vez de excluir. As coisas não têm que ser um jogo de soma-zero! Podem ter que operar a níveis diferentes para não entrarem em conflito, saber-se o que fazer quando há choques ou não se confundir dinâmicas distintas, porque uma é subjectiva e pessoal enquanto a outra é mais objectiva. Mas isso não anula a possibilidade de elas co-existirem de forma paralela. Tal como o facto de a casa ser uma residência humana e não um templo não significa que ela não tenha um valor religioso profundo e que não seja um espaço de culto. Há deuses em tudo e há mérito num raciocínio mais conjuntivo e menos disjuntivo.

Primeiro passo

Depois de anos na blogosfera anglófona, é hora de me juntar à lusófona. Porque o português é a minha língua nativa, logo aquela em que eu me devia expressar primeiro, e Portugal tem idiossincrasias que são melhor esmiuçadas num espaço pensado para esse fim, sem necessidade de estar a ultrapassar barreiras linguísticas ou culturais. E porque o ano passado foi de ruptura, em 2017 exige-se uma resposta que eleve bem alto e de todas as formas possíveis os valores da diversidade, inclusividade e tolerância, incluindo no universo religioso, que é uma das raízes e veículos de expressão dos desafios actuais.

Assim, tomei a decisão de abrir um blogue em português focado no conceito de politeísmo – nas ideias, dinâmicas, práticas e devoções, minhas e de outros – com o objectivo expresso de partilhar, informar, debater e, com um pouco de sorte, influenciar consciências e atitudes. Porque o religioso não tem que ser um jogo de soma zero, uma construção ideológica facilmente tomada por inadaptados violentos, um reducionismo grosseiro em nome da paz ou um cardápio moral a ser imposto a todos. Bem pelo contrário, o religioso pode e deve ser uma força inclusiva que não anule a diversidade nem condene a diferença; mas para isso ele tem que ser reformulado na raiz e não apenas maquilhado com boas intenções ou discursos sobre unidade numa uniformidade. Provavelmente estou a ser críptico, mas refiro-me a coisas como as conversas de surdos sobre quem é dono da verdade, o fundamentalismo como arma de quem se dá mal com a modernidade, o diálogo inter-religioso feito na base de que tudo se resume essencialmente ao mesmo, o policiamento da lei civil segundo critérios religiosos e a condenação do outro – a um inferno ou estatuto menor – só por ser outro. Nada disto tem que ser inerente ao discurso e vivências religiosas, por muito que a realidade presente pareça dizer que sim. É uma questão de mudar o ponto de partida. A seu tempo falar-se-á dessas e de outras coisas, mas por agora, como primeira abordagem, basta o conteúdo do menu superior, em especial textos como as Perguntas Frequentes.

Também há um motivo pelo qual este blogue abriu hoje e não noutro dia: é que Janeiro é o mês de Jano, divindade dos começos, e quatro é o número do deus Mercúrio. Daí que quarta-feira seja miércoles em espanhol, mercredi em francês, mercoledi em italiano, miercuri em romeno, dimecres em catalão ou mércores em galego – do latim dies Mercurii, que não era o quarto dia da semana por acaso. Já os gregos faziam a associação entre o deus e o referido número e, se dúvidas há, leia-se o hino homérico a Hermes, em particular os versos 18 e 19. A língua portuguesa perdeu a construção dos nomes com base nos teónimos, fruto talvez da recristianização do noroeste ibérico no século V e à semelhança do que aconteceu mais tarde na periferia norte da Europa, onde se verificou uma alteração parecida no islandês. Mas mesmo a troca pela denominação eclesiástica das feriae não apagou a ligação mercurial com o número quatro; bem pelo contrário, tornou-a mais óbvia uma vez feita a comparação com línguas latinas que mantiveram a referência teonímica. Para mais, 4 de Janeiro de 2017 é também a primeira quarta-feira do ano, pelo que, tudo somado, era inevitável que eu escolhesse este dia para inaugurar um blogue que vai buscar o nome e muito do seu enfoque ao universo do deus Mercúrio. E para completar o ramalhete, esta entrada foi publicada às 16:04 horas. São quatro quatros e um dezasseis pelo meio para dar à coisa um extra especial.

mercurio

Não sei quantos seguidores vai ter, que impacto terá ou sequer quanto tempo durará. Mas venha o que vier, este blogue está aberto e pronto a usar ou a ser lido. Por isso, neste primeiro passo de uma viagem que espero ser longa, venha um brinde a Jano, deus dos começos, e outro a Mercúrio, o filho ágil de Maia!