Devoção mercurial

Há muito por escrever neste blogue, muitos textos planeados por publicar, por isso vou pôr fim ao silêncio de meses e retomar a escrita falando de coisas mercuriais, do aniversário a pequenas oferendas ao Filho de Maia e outros.

1. O quarto dia do quarto mês
Conforme já explicado noutras ocasiões, não há qualquer registo histórico de uns Ludi Mercuriales ou de que em algum momento os romanos antigos celebraram o aniversário de Mercúrio. Mas como não se está a falar de uma religião fossilizada, nem eu pratico uma encenação do passado, é natural que o tempo, devoções e experiências religiosas originem novas festividades. O 4 de Abril – o quarto dia do quarto mês – é um desses casos: com base na ligação, essa sim histórica, entre Hermes/Mercúrio e o número quatro, escolhi esse dia para celebrar o nascimento desse deus. E reforcei o simbolismo expandindo a festividade de modo a incluir os primeiros quatro dias de Abril, mês que começa com o Dia das Mentiras, que é outra data apropriada para honrar um trapaceiro.

O ano passado, o 4 de Abril foi também uma quarta-feira, motivo pelo qual as oferendas que fiz e homenagens que prestei foram tanto quanto possível em grupos de quatro: quatro pratos doces, quatro brindes, quatro moledros sobre os quais verti quatro oferendas, quatro apostas de sorte, quatro oferendas matinais durante quatro dias, quatro tributos florais, etc. Este ano, a data calhou a uma quinta e por isso o ênfase numérico foi menos acentuado.

NM 2019

Este ano, para o aniversário de Mercúrio, eu fiz dois pratos doces – aletria e bolo de bolacha – e ainda várias panquecas sem açúcar para poderem ser comidas pelas minhas cadelas e elas terem assim lugar à mesa do deus. Tudo consagrado a Mercúrio na cerimónia da manhã de 4 de Abril, a primeira porção de cada prato entregue à divindade e depois o resto devolvido à esfera humana para poder ser ingerido por mim e pela minha família. Houve ainda libações de licor de medronho e mel, oferendas de erva doce, canela, vinho e mel, uma grinalda para o oratório, outra para pendurar na porta de casa e um medronheiro que será plantado num terreno da família ainda este mês, também ele consagrado a Mercúrio com porções de farinha e sal, mel e licor. E para completar, a somar à caminhada, oferendas e moledros do dia anterior, assim como ao sacrifício a Maia no dia 2, fez-se ainda uma aposta de sorte.

No final, ficou a sensação que seria de esperar: sentimento de trabalho feito, dever cumprido, devoção piamente expressa e de laços nutridos. E alegria.

2. A tríade e a família
A minha devoção a Mercúrio não vem sozinha. É parte de um todo maior, de um culto moderno em construção focado nas estradas, vias e caminhos, no movimento perpétuo e interconexão de todas as coisas, ligado ao ocidente ibérico e, no que a filosofia diz respeito, conscientemente influenciado pela escola budista de Madhyamaka. No foco do panteão está Mercúrio, ladeado pela sua mãe Maia e pelo seu companheiro Quangeio, o deus cão ibérico, e juntos formam a tríade central do culto em questão. À sua volta orbitam outras divindades: Fauno, Silvano, Proserpina e os Lares Viales, que são a hoste divina de Mercúrio Viale – o Itinerante Senhor dos Caminhos. E porque se pretende que o culto em questão seja um ramo ibérico do politeísmo romano moderno, acrescem ainda Jano, Júpiter, Juno e Vesta, os Lares Familaires e os Penates, divindades fundamentais da ortopraxia romana.

Como forma de aprofundar a minha devoção mercurial e com a possibilidade de vir a alagar o panteão, tenho vindo a considerar alguns dos familiares maternos de Mercúrio, em especial Plêione e Atlas. A primeira, ao ser uma das Oceânides, surge como um dilema, pois obriga a decidir por uma das versões de Oceano, se a antiga, segundo a qual ele era entendido como o titã do grande rio que se acreditava circundar a terra e origem de todas as fontes de água doce, terrenas e celestiais, se a versão tardia, segundo a qual é o titã dos oceanos e por isso da água salgada.

Dado que o teónimo Plêione tem o sentido de “aquela que multiplica”, em especial os rebanhos, ambos as hipóteses têm mérito, pelo menos num contexto português, já que as nuvens podem ser religiosamente entendidas como um rebanho celestial – caso em que a avó de Mercúrio seria uma multiplicadora de nuvens e como tal uma divindade que traz neblina e chuva – mas em Portugal a espuma das ondas marítimas em dias de vento é coloquialmente chamada de carneirinhos, e nesse sentido Plêione seria a agitadora das águas marítimas. Mas dado que a sua filha Maia é uma ninfa das montanhas, a minha preferência vai para a primeira hipótese.

A reforçá-lo está a ideia de Atlas como deus da astronomia, interpretação rica em possibilidades, já que atribuiu ao titã a responsabilidade pelo movimento do céu, o que num sentido moderno que tenha em conta o conhecimento atual sobre o planeta e o sistema solar faz de Atlas o deus do eixo da Terra. E isso equivale a um aspeto celestial que se cruza assim com a esfera de Plêione enquanto deusa dos rebanhos das alturas, sendo Maia, a filha de ambos, uma ninfa das montanhas, extremidades terrestres onde a neblina e nuvens poisam – onde o rebanho de Plêione pasta – e que tocam no céu que gira em torno de Atlas.

Isto ainda são ideias preliminares, mas de momento é o percurso mental que estou a seguir

3. Um por todos…
Por fim, há um pequeno hábito ritual que eu tenho vindo a adquirir: o de, cada vez que faço um sacrifício mensal a um dos elementos da tríade acima mencionada, acrescentar uma oferenda aos outros dois. Isto é, ao prestar homenagem a Mercúrio na primeira quarta-feira de cada mês, oferecer a Maia uma porção de mel e outra a Quangeio. Quando honro a filha de Plêione nos idos, verter uma oferenda a Mercúrio e outra ao deus cão ibérico. E quando, no dia 24 de cada mês, eu faço um pequeno sacrifício a Quangeio, oferecer uma colher de mel a Maia e outra ao seu filho.

É algo que se soma à inclusão da mãe e do companheiro de Mercúrio nas orações que lhe dirijo de manhã e de noite e às porções de trigo que, por vezes, dedico aos dois quando presto homenagem ao Deus dos Pés Velozes sobre um moledro ou junto a uma estrada. Expressão ritual da ligação entre eles e de uma devoção que não existe isolada, mas como parte de um todo maior.

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