Contornos de um trilho

Não é fácil reavivar religiões pré-cristãs. Não basta fazer as coisas como no passado e não é só por causa das muitas lacunas no nosso conhecimento: mesmo que tivéssemos toda a informação, é impossível implementá-la por completo devido às muitas mudanças que ocorreram no mundo ao longo de vários séculos, cultural e socialmente. Não vale a pena lamentar esse facto. Épocas diferentes requerem religiões diferentes – de uma forma ou outra – e a mera imitação do passado arrisca-se a ser anacrónica, fossilizada ou, no pior dos casos, destrutiva por força da incapacidade de integração no presente. A História tem múltiplos exemplos de projectos que advogavam um regresso a um passado puro, muitas vezes romanceado, como solução para os problemas modernos, mas que acabaram mal porque a tentativa de voltar atrás no tempo sem mais tem custos. Materiais e humanos. Mas se o objectivo é encontrar um lugar moderno para religiões antigas, tal como a Renascença recuperou a cultura clássica e deu-lhe um novo lugar num novo tempo ou o Iluminismo reavivou sistemas clássicos e lançou as bases da democracia moderna, então a ideia de religiões diferentes para tempos diferentes tem que ter nuances. Em concreto, é necessária uma continuidade significativa com o passado, um elo substancial que vá além da identidade superficial de nomes, estética e deuses de modo a ser mesmo um reavivar, ainda que moderno.

Os fundamentos gerais
Isto equivale a um equilíbrio entre o velho e o novo. É preciso estudar a informação que se tem sobre o primeiro, pôr de parte ou adaptar o que é incompatível com o mundo moderno, estruturar o que sobra para servir de dinâmica básica e depois deixar que o resto do edifício cresça organicamente ligado ao presente. Mesmo que esse crescimento conduza a algo novo, o que é apenas normal que aconteça, já que as coisas vivas evoluem de forma natural, multiplicando-se e diversificando-se. Desde que permaneça dentro das bases herdadas do passado e que formam os traços fundamentais de uma religião reavivada hoje, não há mal nisso. A analogia que eu gosto de usar é a de uma árvore antiga cujas raízes descem até ao passado distante, mas cujos ramos erguem-se e crescem livremente no presente. Se só se tem as raízes – porque só o velho é que interessa – então não passa de um cepo morto; se só se tem os ramos – porque o que importa realmente é o novo – nem sequer é uma árvore. Os dois são necessários para se reavivar uma religião antiga no mundo moderno e deixá-la crescer como parte da realidade de hoje, não uma imitação da de ontem.

Isto não é fácil. Uma coisa é articulá-lo teoricamente, mas outra bem diferente é torná-lo numa realidade prática. E há bastante subjectividade pelo meio, bastante espaço para jogar com preferências pessoais, o que quer dizer que é possível obter-se algo que, mesmo sendo uma mistura do velho e do novo dentro do enquadramento tradicional de uma religião pré-cristã, pode não ser bem a mistura que outros fariam. Mas de um modo geral, também aqui não há mal nenhum. Se há muitos deuses com diferentes objectivos e se muitos deles não são monolíticos, mas possuem personalidades ricas e diversas que eles revelam de forma variada a pessoas diferentes, então é lógico concluir que haverão múltiplos cultos dentro de uma mesma religião, não só a diferentes deuses, mas também a diferentes formas ou perspectivas da mesma divindade. Quando se lida com religiões politeístas, deve esperar-se diversidade abundante, mesmo quando há uma base tradicional bem estruturada e estudada.

Se por esta altura há já quem se esteja a perguntar onde é que eu vou com isto, eis o cerne da questão: quando eu abri este blogue, tinha em mente publicar a seu tempo textos sobre um culto ibérico de Mercúrio. E é precisamente isso o que isto é! Este é o primeiro desses textos! Eu acabei de expor a teoria geral de algo em que estou a trabalhar e que terá que ser moderno – devido ao contexto e à escassez gritante de informação – mas também ligado ao ocidente ibérico e ao mesmo tempo firmemente dentro do reavivar actual do politeísmo romano. E apesar de ainda estar nos seus primeiros rebentos, alguns dos traços gerais têm vindo a ganhar forma há já algum tempo e sinto-me confortável o suficiente para torná-los públicos – pelo menos de forma preliminar.

Um moledro no caminho para Santiago (fonte).

Um trilho em formação
A característica mais óbvia desse culto novo e ainda em construção é o deus principal, que é Mercúrio, especificamente Mercúrio o Viajante. Forma uma tríade com a sua mãe Maia e o deus ibérico Quangeio e lidera a hoste divina dos Lares Viales, de quem a primeira é rainha e o segundo um membro de destaque.

Dado que é suposto ser um ramo do politeísmo romano moderno, os ritos são realizados de acordo com a ortopraxia, o que inclui a celebração das calendas, nonas e idos, motivo pelo qual Jano, Juno e Júpiter são parte natural do panteão. Outras divindades de interesse para o culto mercurial que estou a construir são Silvano e Proserpina, o primeiro por oferecer sombra e comida aos viajantes – é afinal um deus das árvores – mas também pode vir a ter uma função fúnebre. Essa parte ainda está no seu esboço muito preliminar e por isso também o papel exacto da rainha do submundo está por definir, mas estou de olho em novas formas de enterro, como a bio-urna ou a capsula mundi.

Seguindo o simbolismo numérico do universo mercurial, há quatro grandes festividades anuais, todas num quarto dia: uma em Janeiro (Vialia), outra em Abril (o aniversário de Mercúrio), depois em Julho (Peregrinalia) e por fim em Outubro (nome ainda incerto, mas de momento a pender para Momentalia). Há uma carga simbólica e um sentido filosófico para todos eles, mas isso fica para um texto futuro, dado que também essa parte está ainda na sua infância. E para além das grandes quatro datas, há outras celebrações ao longo do ano, uma para cada um dos membros do panteão do culto, o que se traduz em oferendas mensais no caso de Maia (nos idos) e Quangeio (no 24º dia), a juntar às de Mercúrio na primeira quarta-feira de cada mês.

A opção de me focar no aspecto viajante do Deus Veloz não foi acidental, dado que nesse papel ele cruza-se com os Lares Viales, que eram bastante populares na antiga Galécia. Torná-los na hoste divina dele é por isso uma forma bastante sólida de construir um culto ibérico de Mercúrio, mais ainda quando o noroeste da península continua a ser uma terra profundamente marcada pela ideia de caminho, mesmo que a prática presente seja católica e esteja focada no santuário de Santiago de Compostela. Mas em vez de rejeitar esse contínuo religioso que liga o passado pré-cristão ao presente cristão, eu vou beber dele e fazer da vieira um dos símbolos do culto mercurial que tenho em mente, ainda que com algumas modificações para distinguir da concha de uso católico.

Outro elemento ibérico óbvio é o lugar de Quangeio na tríade. A relação dele com Mercúrio não me é ainda inteiramente clara e pode ir da profunda amizade e devoção, talvez à semelhança da de Hanuman para com Rama, até um companheirismo mais intimo ou mesmo de tons eróticos (ou as duas coisas). É algo que ainda está por determinar e exige uma boa dose de interacção com os dois deuses antes de assentar um pouco mais as ideias. O que posso dizer com alguma segurança, pelo menos por agora, é que Quangeio pode surgir como um membro destacado dos Lares Viales, quase como uma segunda figura de comando, e cumprir um papel que abrange muito do vasto leque simbólico do cão: o guardião, o providente, o companheiro, o curandeiro, o guia. Todos eles ligados de alguma forma à estrada, mas também à vida diária – tal como Mercúrio. Eventualmente, hei-de começar a escrever histórias que codifiquem a relação entre os dois de uma forma narrativa.

Também a deusa Maia acrescenta à identidade ibérica do culto, embora de uma forma menos óbvia. Como mãe de Mercúrio, ela é uma candidate natural para uma posição na tríade, mas o que adiciona um extra ao papel dela no culto que estou a estruturar é a antiguidade e força do feminino divino na religiosidade do ocidente ibérico. Fátima é actualmente a maior manifestação disso, mas antes dela foi a Nossa Senhora da Conceição, que foi coroada como rainha de Portugal em 1646, e a Nossa Senhora da Nazaré, que foi bastante popular, e antes dela houve ainda deusas como Nabia e Ataécina. Desse modo, acrescentar Maia à tríade, realçando o seu papel de mãe do deus principal do culto e rainha da hoste divina, junta a mitologia tradicional da Antiguidade com um traço ibérico assimilável.

Por fim, dentro da mesma nota territorial, as línguas preferíveis para fins rituais são naturalmente o português, o galego-português e o mirandês, com o latim e o espanhol a serem alternativas próximas e embora não haja nada de errado no uso de outros idiomas, incluindo o inglês. É apenas uma preferência que realça a identidade ibérica do culto, mas dado que a divindade principal é o poliglota que é Mercúrio, qualquer língua pode ser usada, se necessário.

Isto é só o começo
Conforme disse, isto ainda são os primeiros passos na formação de um culto novo dentro do reavivar moderno do politeísmo romano. Para ser sincero, estou a encará-lo como um trabalho de uma vida inteira, mas a vida é curta e imprevisível e por isso decidi publicar o pouco que já tenho e ir acrescentado à medida que vou avançando e revendo. No final, espero, deverei reunir tudo num único livro que deverá incluir formulas rituais, organização básica de espaços sagrados, contos e listas de símbolos, entre outras coisas. Mas esse é o objectivo final e ainda há um longo caminho a percorrer antes de chegar a esse ponto. Tem que ser uma árvore de raízes profundas com ramos vivos que se estendam organicamente para o céu moderno, o que requer tempo, e a viagem é tão importante quanto o destino, se não mais.

De tais coisas é o mundo feito

Embora não sendo uma característica necessariamente universal – porque o politeísmo é uma categoria diversa e o que vale para uma parte pode não valer para outra – é pelo menos frequente entre politeístas encarar-se a vida como algo que tem uma dimensão religiosa em todos os seus aspetos. O que pode parecer totalitário e de facto seria esse o caso não fosse o princípio basilar da pluralidade, patente na ideia de poli- ou “muitos”, o qual implica que a religiosidade de uma pessoa pode não ser a de outras e sem que a diferença resulte em condenação.

Nesse sentido de dimensão quotidiana, como hoje é o meu dia de anos, planeei uma cerimónia em rito romano para sacrificar pequenas fatias do meu bolo de aniversário aos meus antepassados, génios da casa e a Mercúrio. É um gesto de partilha com membros da família falecidos, a fazer lembrar a refeição com parentes ainda vivos, e o reconhecimento do laço especial com algumas divindades, do mesmo modo que se evidencia os laços de amizade num dia de anos. E no mesmo contexto, no seguimento de uma breve conversa com um amigo meu, decidi acrescentar este texto às homenagens a Mercúrio, focando-me no seu lado menos popular para daí retirar ideias a respeito da sua identidade e o tipo de bênçãos ou castigos que ele oferece.

Entenda-se, no entanto, que o que eu vou dizer é a minha perspectiva – a de um português que associa o filho de Maia aos Lares Viales, integrando-o num contexto ibérico, e que além disso tem uma costela filosófica budista. As experiências e conclusões de outros devotos do Deus dos Pés Alados podem por isso ser diferentes das minhas e não há mal nenhum nisso.

1. Há que mexer, há que voar
Perguntava-me há uns dias o Aldrin como é que eu me sinto quando as pessoas dizem que Mercúrio não é de confiança por ser um trapaceiro mentiroso. E a minha resposta foi que eu tendo a rir-me quando não tento explicar que ele é um deus liminal e por isso mesmo fluído, incluindo no que à moralidade diz respeito. Porque uma das coisas que caracteriza um trapaceiro é o estar à vontade no espaço ambíguo que existe entre as noções de certo e errado, passando livremente de um lado para o outro. Não é por acaso que o filho de Maia é um mensageiro, diplomata, interprete, viajante – em suma, uma divindade que cruza os limites e faz a ponte entre ambos os lados de uma fronteira.

Mas fluidez é movimento, é mudança constante, o que é desconfortável para nós. O ser humano tende a ser mais adepto do conforto da certeza e da previsibilidade, o que é difícil de manter quando os limites das coisas deixam de ser claros. E como se isso não bastasse, somos igual e naturalmente avessos à mudança, que por regra tentamos evitar, mesmo quando ela é inevitável. E ela é quase sempre inevitável. A saúde, a beleza, o emprego ou a casa de sonho, a tarde ou o jantar perfeito, o casamento ideal ou a companhia insubstituível de um parceiro – tudo isso é precioso e digno de se obter, mas efémero e está sujeito à mudança, mesmo que não se goste. Recusar-se a aceitar isso é como ser um viajante que quer ficar perpetuamente à sombra de uma árvore, despreocupado e confortável, em vez de seguir caminho. O que é contrário à natureza de Mercúrio, que é um deus do movimento e permite, quando muito, pausas ao longo da estrada. Aliás, mais do que isso, ele oferece-as ou enriquece-as com bênçãos de sucesso, sorte, prazer, felicidade e prosperidade. Mas mais tarde ou mais cedo, é suposto seguir-se viagem e retomar o caminho. A vida é feita de mudança e movimento, por muito que gostássemos que as coisas fossem eternas, e o filho de Maia corporiza essa realidade. É o mundo dele.

2. Talvez um santo não seja aquilo de que precisam
Se apesar de desagradável a mudança é ainda assim passível de se aceitar, o mesmo não se poderá dizer do ato de roubar, que nunca é agradável para as vítimas. E é um facto que Mercúrio é um deus das mentiras e dos ladrões, o que não contribui para a sua popularidade, embora aqui também se deva perceber a origem dessa associação. Porque o que faz do filho de Maia um deus não só dos larápios, mas também dos comerciantes e do lucro, é a já referida natureza de trapaceiro. Ele é fluído, sempre em movimento e por isso difícil de apanhar, está armado com uma língua de prata e tem as manhas de um brincalhão, o que faz dele uma caixinha de surpresas constante. A ilusão, o dote de oratória, os gestos rápidos, o olhar atento, a capacidade inventiva, a agilidade e habilidade – tudo isso é próprio de um trapaceiro. É característico de um deus que se move nas sombras ou está em casa na ambiguidade que existe entre mundos, entre géneros, entre o certo e o errado e pode assumir vários papéis ou desempenhar a função de diplomata, interprete, espião ou mensageiro. É versátil e adaptável, porque tem essa capacidade de se integrar, camuflar, improvisar, inventar.

Claro que isto são também ferramentas básicas para quem rouba, que tem que saber usar manhas e artimanhas, passar despercebido ou mover-se com rapidez. Mas eu não diria que Mercúrio é um trapaceiro por ser um deus ladrões. Bem pelo contrario! Ele é uma divindade dos ladrões precisamente por ser um trapaceiro! Isto é, ele tem qualidades vitais para qualquer amigo do alheio e pode concedê-las, mas nem sempre e nunca de forma exclusiva, porque o deus não é o mesmo que a ocupação, de tal modo que é possível enganar um ladrão se se fizer um melhor uso das ferramentas mercuriais. Os dotes estão lá, mas a sua aplicação prática…. isso é outra conversa.

Assim, se o furto e a mentira são um produto do mundo de Mercúrio, também é verdade que o que lhes está na raiz pode ser usado para múltiplos objetivos e com um mínimo de honestidade. Sê esperto, sê engenhoso, está atento e mexe-te. Se há quem o faça para magoar e roubar, também se pode fazê-lo para ajudar e ser bem sucedido. Longe de ser um exclusivo dos ladrões, a arte dos mil engenhos é com frequência uma necessidade da vida e muitos dos que fizeram do mundo um sítio melhor não eram santos.

3. Move-te depressa, nunca sabes o que é que está no teu encalço
Até agora, eu tenho estado a falar da identidade de Mercúrio como eu o entendo e das bênçãos que ele oferece, mas falta a parte menos agradável, que é a dos castigos ou maldições divinas. E estas podem assumir diferentes formas, sendo as mais óbvias o ser-se vítima das artes mercuriais de um modo brutal ou sistemático ou o ser-se desprovido delas, transformando uma pessoa num ser ingénuo que nunca convence e é sempre convencido ou enganado.

Claro que há nisto inúmeras nuances e não, não estou a dizer que cada assalto ou burla é um castigo de Mercúrio. Por um lado, porque a pluralidade divina impede que se atribua tudo a um único deus e, por outro, porque há sempre o elemento humano. E além disso, o deambular sem destino, perdido e em constante fluidez, também pode ser uma experiência mercurial e não necessariamente como castigo. O mundo também é feito de complexidades destas.

Há, no entanto, outra forma de maldição divina que nem sempre é tida em conta, mas que pode ser enunciada a partir do título desta secção: move-te depressa, nunca sabes o que é que está no teu encalço. A frase, já agora, é uma citação do Going Postal do Terry Pratchett, como de resto são todos os subtítulos e o título deste texto, e pode exprimir as já referidas ideias de ser esperto, ser engenhoso, estar atento e mexer. Mas levada ao extremo é também um sinónimo de paranóia e por vezes é esse o formato do castigo divino: não a remoção de bênçãos, mas a sua oferta hiperbolizada, como que em esteróides, e a subsequente espiral descendente rumo à loucura ou desastre. Neste caso, o estar atento e em movimento ao ponto exagerado da mania da perseguição até ao isolamento completo. Isto também faz parte do mundo do filho de Maia, que tal como outros deuses não está desprovido de aspetos menos agradáveis.

4. Tu sabes os teus andares
Qual então o caminho de Mercúrio que eu estou a descrever? Em poucas palavras, a consciência de que a vida é uma viagem constante. Podes fazer pausas, ter momentos em que descansas e desfrutas, tens sucesso e tudo o que queres, mas as coisas estão sujeitas à mudança e é suposto seguires viagem. Aceita-a e aprecia-a. E sê esperto, atento, astuto, engenhoso, embora isso não queira dizer que não venhas a tropeçar. Porque isso também faz parte da vida e o Mercúrio às vezes gosta de mandar umas bolas com efeito. Ele também é um deus dos jogos.

Um problema inexistente

O jornal britânico The Guardian publicou há uns dias um artigo de opinião sobre o impacto que a descoberta de vida noutros planetas terás no universo religioso. A pergunta é pertinente, mas, falando por mim, o problema é inexistente.

Não o digo por achar que não há vida fora do nosso planeta. A Terra é excepcional no seu somatório de condições que permitiram o aparecimento e evolução de vida complexa, mas não é especial no sentido de ser exclusiva. Condições semelhantes noutros locais poderão ter resultados parecidos com os que foram produzidos na Terra. E por ventura nem será preciso sair do nosso sistema solar, dada a presença de uma fonte de calor e água em estado líquido numa lua de Júpiter e noutra de Saturno – Europa e Encélado, respectivamente. Não quer dizer que haja vida inteligente nesses sítios ou em muitos dos mais de três mil exoplanetas já descobertos, mas quer certamente dizer que não somos tão especiais quanto por vezes gostamos de pensar, como se a vida fosse um privilégio exclusivo da Terra. E nesse sentido, à medida que desenvolvemos a tecnologia necessária, a descoberta de seres extra-planetários, mesmo que apenas vegetais ou animais, não será tanto uma questão de “se”, mas “quando”.

Também não digo que, falando por mim, o problema é inexistente por achar que ele não tem razão de ser. Para religiões baseadas em textos de onde retiram uma ortodoxia universal e reclamam-se donas da verdade ou pelo menos de um acesso privilegiado a ela, a possibilidade de vida noutras planetas levanta questões importantes. Principalmente se, para mais, forem também religiões que aceitam a existência de apenas uma divindade. O que é que acontece quando as escrituras descrevem o nosso mundo como um espaço exclusivo? Como conceber um deus único que enviou um salvador com uma mensagem universal, mas que pelos vistos é desconhecido noutros planetas? A “salvação” é só para a Terra e não para outros sítios no universo? E se sim, onde é que isso deixa a universalidade da mensagem e da divindade que são apresentadas como absolutas? Ou se não, porque é que a dita revelação divina não chegou a outros mundos, se ela é suposto ser “para todos” e a divindade omnipotente e omnipresente? Onde fica o valor de escrituras que se dizem reveladoras da verdade, mas que ignoram a existência de vida fora da Terra ou do sistema solar? O artigo refere esta problemática usando o cristianismo como exemplo, e o que é verdade para essa religião é válido para outras formas de monoteísmo. Mas não para os politeísmos.

O motivo pelo qual eu digo que, falando por mim, o problema é inexistente prende-se com a questão abordada no texto anterior sobre pluralismo sem rodeios, sem medo de aceitar e valorizar a diversidade pelo que ela é: uma abundância de diferenças que são reconhecidas como tal, sem que com isso se tenha que menorizar, desprezar, discriminar, eliminar ou tentar reduzir a uma unicidade artificial. Muitos deuses, muitas tradições, muitas teologias e formas de ver o mundo – ou mundos. E não há mal nenhum nisso! Não mal em ser diferente, dizer que não há só um deus e que não é tudo o mesmo.

Assim, quando o artigo pergunta, e passo a citar, “como é que podemos resolver a teoria de muitos deuses e muitos mundos?”, as respostas vão variar primeiramente consoante o tipo de religião. Os monoteísmos, em especial os exclusivistas, terão que encontrar forma de contornar o desfasamento natural de textos sagrados escritos há milhares de anos, quando se tinha uma perspectiva geocêntrica das coisas, e saber adaptar o seu discurso, como de resto o cristianismo tem feito desde o século XVI, a bem ou a mal. E sempre com a questão de até onde se pode esticar a hermenêutica de textos antigos sem que eles percam o valor de autoridade.

Já um politeísta limita-se a encolher os ombros com alguma indiferença. Muitos deuses e muitos mundos? Isso é a essência do politeísmo! Diversidade divina e religiosa, de caminhos, destinos, ideias e mundividências e sem tentar reduzir tudo a uma mesma coisa. Porque é que a eventual descoberta futura de crenças e tradições extraplanetárias havia de ser um problema para quem já acredita que há muitos deuses e muitos mundos e sem ver mal nenhum nisso?

Pluralismo sem rodeios

Há um conjunto de artigos que têm vindo a ser publicados no blogue Povo de Bahá, traduções e não originais do Marco Oliveira, mas que valem a pena ler pelas questões que abordam. Em concreto, o tema do exclusivismo religioso, da noção de tolerância ou dos problemas que ela levanta e ainda o conceito de pluralismo. O que me levou a escrever sobre este último, tocando em pontos aflorados pelo David Langness, mas oferecendo uma perspectiva em última análise diferente da Bahá’i

Suponho que a definição elementar do conceito não levanta dúvidas. Plural significa mais do que um, o que aplicado ao universo religioso traduz-se na aceitação de mais do que uma perspectiva. Quais, quantas e até que ponto, com que critérios, justificação ou objectivos, isso já é sair da definição básica e entrar nas especificidades de diferentes sistemas religiosos. A título de exemplo, o Islão moderno tem pelo menos oito escolas de jurisprudência aceites como legítimas por muitos, senão mesmo a maioria dos muçulmanos, o que constitui uma forma de pluralismo interpretativo do Corão. Também o budismo tibetano acolhe diferentes correntes e linhagens com ensinamentos específicos e mais notório é o caso do hinduísmo, que é plural não só ao nível das escolas de teologia e filosofia, mas ainda do panteão e do enfoque diverso numa ou mais divindades, produzindo ramificações como o Xivaísmo e o Vixnuísmo. Mas o Islão não deixa de ser uma religião monoteísta, enquanto o hinduísmo, pelo menos em muitas das suas vertentes, é em última análise monista – isto é, aceita a pluralidade como meras manifestações de uma única entidade. O que é igualmente verdade para a fé Bahá’i e é aqui que a minha teologia diverge da do Marco e de outros.

O pluralismo que eu advogo não é direccionado para a convergência, mas para a celebração da diversidade, que é aceite como tal, sem hesitações teológicas ou apologias de unidades últimas. Não está por isso limitado pelo conteúdo de um livro, as palavras de um profeta, um panteão específico ou pela crença de que tudo se resume a uma só entidade. É um pluralismo diverso, sem medo de abraçar a diferença ou tentar reduzi-la a uma singularidade universal pela crença de que, no fundo, é tudo o mesmo, tudo formas diversas de ver e adorar um deus único. Não é, não tem que ser, não tem que se resumir tudo à mesma entidade. E não há mal nenhum nisso! Não é preciso ver-se as diferentes religiões, deuses e escolas como manifestações de uma única fonte para se poder tolerá-las, aceitá-las ou valorizá-las. Ou para haver paz, respeito e uma coexistência frutífera. Basta aceitar a diferença pelo que ela é – diferente e não idêntica – e saber viver com ela em vez de se tentar reduzi-la a uma singularidade, como se a diversidade a sério – e não apenas aparente – fosse uma espécie de anátema.

Isto é problemático? Certamente! Em primeiro lugar, para os que advogam uma perspectiva exclusivista, mas querem ainda assim fazer parte de um mundo diverso. O que não raras vezes conduz à escapatória da unidade última para se poder dizer que se é detentor da verdade e que os outros, no fundo, acreditam no mesmo. Problema semelhante afecta o monoteísmo que tenta conviver com outras religiões sem querer parecer intolerante, passando assim a ideia de que o deus é o mesmo, único e universal, e que o resto são somente especificidades culturais, locais ou históricas. O discurso interreligioso é rico neste tipo de ideias e é uma forma de fazer as pazes com a diversidade, de certo modo integrando-a, sem no entanto comprometer o fundamental de teologias exclusivistas ou monoteístas. Mas é também algo de profundamente redutor e que, em última análise, mais não faz do que tentar lidar com a diferença anulando-a. Não tenta aceitá-la e conviver com ela como tal, sem rodeios, mas tenta reduzi-la a uma unidade última. Como se aceitar algo obrigasse a nivelar por baixo, o que no fundo contradiz a própria noção de tolerância, que se aplica ao que é diferente de nós, não ao que é idêntico. Tolerar o que é igual é fácil; tolerar o que é distinto, isso já é mais difícil e parece ser algo que ainda custa, porque quando se tenta fazê-lo não falta quem puxe do argumento de que no fundo é tudo o mesmo. E não há nisso um verdadeiro exercício de tolerância, porque estamos a tentar reduzir o outro a uma cópia de nós. No fundo, é fugir à questão, contornando-a.

Isto não quer dizer que não haja uma base comum. É verdade que somos todos seres humanos, que habitamos o mesmo planeta e temos igual direito à dignidade, liberdade, oportunidades e igualdade perante a lei. Mas isso não obriga a fazer tábua rasa da individualidade de cada pessoa, comunidade, escola ou religião, como se fosse impossível conviver com a diferença sem reduzi-la a uma mesma coisa. Ou como se fossemos incapazes de perceber que algo diferente tem direito à mesma dignidade sem que ter que ser idêntico. Ou que a igualdade perante a lei obriga muitas vezes a compreender as especificidades de cada pessoa ou grupo para se lidar melhor com os seus desafios particulares. Exemplo prático: perceber o que distingue um deficiente permite implementar medidas que melhorem a acessibilidade física a espaços públicos. Ou, no contexto interreligioso, entender o que distingue várias religiões ajuda a identificar pontos de discórdia e como melhor lidar com eles, sem saltar para a conclusão de que não importam por ser tudo o mesmo. O que, por sua vez, transforma a tolerância num exercício de análise crítica com vista à coexistência plural e não mera indiferença ou uma dança à volta da fogueira em que fingimos ser tudo idêntico ou a mesma entidade. Um excelente do que não se deve fazer são as palavras do padre Anselmo Borges no seu livro Religião e diálogo inter-religioso, onde ele diz muito claramente que não há verdadeiros politeístas, porque o politeísmo é na realidade uma atribuição de diferentes personificações a uma mesma entidade (2010: 49-50). O que é falso, mas muito conveniente para alguém que quer aceitar a validade de outras religiões sem abrir mão do monopólio divino da sua. Tudo o mesmo deus, logo nem tem repensar o seu monoteísmo, nem ser intolerante. Problema resolvido… ou não!

Não há nisto verdadeira tolerância. Há sim um reducionismo a uma identidade comum que se pode respeitar ou valorizar por ser no fundo idêntica à que eu adoro. É tolerar o igual, o que é fácil. Mais difícil é tolerar o diferente, porque isso seria incómodo ou não daria a melhor das imagens. Afinal, como é que uma religião que afirma haver apenas um deus pode conviver com outras sem afirmar que todas as divindades são as mesmas ou, se não o fizer, sem parecer intolerante ao dizer que só o seu deus é verdadeiro e que todos os outros são falsos?

É por isso que eu prefiro um pluralismo mais genuíno, mais honesto, menos acessório de ideias de unidade última. Uma perspectiva plural sem rodeios, sem exclusivismos e sem monopólios divinos, onde a variedade de deuses, tradições e religiões não tem limites. O diferente é mesmo diferente e não há mal nenhum nisso. Não é menos digno, respeitável ou válido e não é preciso reduzi-lo a uma unicidade para se poder tolerá-lo ou coexistir com ele. Basta aceitar a diferença tal como ela é, neste caso a de que as religiões não são todas iguais, não são formas diversas de adorar o mesmo deus, não são produtos de uma mesma fonte divina e todos os deuses não são o mesmo. Afirmar que sim é, muitas vezes, querer fugir à diversidade e consequente desafio da diferença, anulando-a.