Ano Novo, ano todo (e formas rituais)

A cerimónia de Ano Novo deste ano foi semelhante à de 2018: longa, com oferendas principais de comida e bebida a Jano, juntamente com uma pequena grinalda para coroar a imagem dele, seguidas dos tributos mensais das calendas a Jano, Juno e Lares e Penates, e por fim de oferendas adicionais a um número considerável de outras divindades. Mas houve também uma diferença que alongou a cerimónia e que irá, com toda a probabilidade, levar a uma revisão do rito que uso para prestar culto a deuses nórdicos.

Todos no primeiro passo
No final de Dezembro, enquanto preparava as coisas para a passagem de ano, dei-me conta que na minha cerimónia de Ano Novo, que segue o mesmo formato há já algum tempo, estão quase todas as divindades que honro anualmente. Não foi intencional, mas algo que se foi construindo ao longo dos anos, à medida que, para além de Jano, fui adicionando deuses e deusas auspiciosas ou relevantes para mim e para os meus pais, como Minerva, Júpiter, Diana, Mercúrio, Maia, Fortuna e Spes.

E depois pensei: e se eu levasse essa realidade acidental às últimas consequências intencionais, honrando, depois do sacrifício a Jano e tributos das calendas, todas as outras divindades às quais dedico uma cerimónia anual? Se, por exemplo, a 5 de Setembro eu presto homenagem a Arentio e Arentia, porque não adicioná-los à lista de oferendas suplementares de Ano Novo? Faz sentido, é significativo e por isso fi-lo. E o resultado foi a seguinte sequência de divindades individuais e coletivas:

Lares Familiares, Penates, Vesta, Nabia, Silvano, Mercúrio, Maia, Quangeio, Juno, Hércules, Minerva, Diana, Apolo, Arentio e Arentia, Fauno, Reue, Júpiter, Fortuna, Spes e Ingui-Freyr.

Há uma lógica na sequência, que começa pelo universo doméstico, no qual se inserem naturalmente os antepassados, espíritos da casa, a deusa do lar e depois, por via da minha teologia pessoal, Nabia e Silvano, a primeira por o meu Lar Familiar ser um aspeto local dela e o segundo por presidir aos Lares locais da minha cidade natal e terra ancestral. Depois sai-se do domínio doméstico e nessa fase vêm as oferendas ao deus das estradas, Mercúrio, e à sua mãe e companheiro, Maia e Quangeio, com pedidos específicos para mim e para as minhas cadelas. Segue-se Juno, com uma oração em nome da minha mãe, e Hércules, com uma oração em nome do meu pai. E depois, com pedidos mais genéricos de bênçãos, sorte, saúde e proteção, seguem-se as restantes divindades da lista, com um convidado nórdico no final.

Multiplicação
Há no entanto duas divindades na sequência para as quais não tenho uma cerimónia anual – Fortuna e Spes. A solução mais óbvia seria pois acrescentar duas datas ao meu calendário festivo, mas ocorreu-me outra alternativa que também tem valor simbólico: o de, em cada sacrifício nos primeiros nove dias do ano, verter uma oferenda de mel a Fortuna e outra a Spes.

Convém esclarecer que para mim o Ano Novo não é apenas um dia, mas toda uma época festiva que vai de dia 1 à Agonalia de 9 de Janeiro, a qual dedico a Jano, que preside assim ao início e final das celebrações do começo de um novo ciclo de doze meses. Pelo meio, há também a Vialia, dedicada a Mercúrio e aos Lares Viales para a abertura dos caminhos, literais e figurativos, no novo ano que começa, e a Apotropalia, dedicada a Apolo com pedidos de proteção e saúde. Todos eles, note-se, são deuses de algum modo associados a portas e entradas, motivo pelo qual eles marcam as minhas celebrações às portas do novo ano.

Assim, em vez de acrescentar uma cerimónia anual a Fortuna e outra a Spes ao meu calendário festivo, optei por honrá-las com porções de mel nos quatro sacrifícios de abertura e também no das nonas a 5 de Janeiro.

Thus, instead of adding an annual ceremony to Fortuna and another to Spes to my festive calendar, I opted for honouring them with portions of honey in the four opening sacrifices and also in that of the Nones on January 5th.

Uma lista em crescimento
Mas o número de divindades honradas na cerimónia de Ano Novo não se vai ficar pela lista acima. A ideia de prestar homenagem a todos os deuses e deusas que adoro ao longo de doze meses teve a consequência inesperada de me fazer reconsiderar o rito que uso para divindades nórdicas, que é um misto de elementos escandinavos e romanos, mas não ao ponto de permitir saltar de uma praxis ritual para outra. Exigem aberturas e focos separados, pelo que não seria fácil anexar uma secção nórdica à cerimónia de Ano Novo.

A solução, com toda a probabilidade, vai passar pela construção de um novo rito que seja essencialmente idêntico ao romano, mas com algumas particularidades, à imagem e semelhança do ritus graecus. Mas isso será tema para outro texto.

Alterações ao calendário
Há outra consequência inesperada da decisão de acrescentar à cerimónia de Ano Novo todos os deuses aos quais presto culto anualmente: ao mudar o tipo de rito que uso para divindades nórdicas de forma a poder inclui-las plenamente numa cerimónia à romana, eu posso honrá-las nas calendas ou nonas sem necessidade de acender um fogo ritual adicional e portanto com a liberdade de realizar o sacrifício anual a Freyja no dia 1 de Maio e o a Njord a 7 de Julho.

O que vai somar-se a uma revisão que já tinha em mente, nomeadamente a alteração do nome da festividade de 31 de Dezembro de modo a poder usar Transitalia para o sacrifício de 4 de Outubro a Mercúrio e aos Lares Viales (tema para outro texto), mudança do dia de oferendas a Anúbis para 12 de Fevereiro de modo a ser na véspera da Parentalia e não um dia antes e a adição de Hefesto às minhas práticas religiosas, com um sacrifício a 19 de Janeiro. Mas mais sobre isso dentro de dias.

Até lá, feliz Ano Novo!

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