O aniversário de Mercúrio

O número do deus Mercúrio é o quatro. Isto não é uma declaração de um princípio esotérico ou uma revelação pessoal, mas um facto da História das religiões: a quarta-feira, que como o nome indica é o quarto dia da semana, tinha na antiguidade clássica a denominação de dies mercurii, que é de onde provêm os nomes dos dias da semana em línguas latinas que mantiveram a nomenclatura teonímica. Miércoles em espanhol, mercredi em francês ou mercoledi em italiano. Na origem está o hino homérico a Hermes – que pode conterá crenças ainda mais antigas, conforme sugere Karl Kerényi – onde é dito que esse deus nasceu no quarto dia do mês. E a ideia reflete-se nos calendários da Grécia antiga, tendo depois entrado na cultura romana, onde o número quatro foi ligado a Mercúrio. Expressão desse elo, um mosaico do século III encontrado em Orbe-Bosceáz, na Suíça, representa o quarto dia da semana com uma figura do deus.

A fagulha
No quadro do culto a Mercúrio, o quarto dia do quarto mês tem portanto uma relevância simbólica especial. Não consta que ela fosse notada na Roma antiga, embora haja notícia de um collegium Mercurialium, que podia ser responsável por celebrações próprias, e não se conheça com detalhe os calendários festivos de outras cidades. Que se saiba, a festa romana a Mercúrio tinha lugar a 15 de Maio, talvez por relação com Maia, a sua mãe. Mas nada disto impede que se criem hoje festividades, tal como no mundo antigo cada comunidade tinha o direito de instituir novas ou expandir as já existentes, liberdade que existia igualmente – por ventura até mais – no contexto doméstico.

Nesse sentido, querendo aproveitar o simbolismo da data, há já vários anos que eu celebro o aniversário de Mercúrio no quarto dia do quarto mês do ano, prática de significado reforçado pelo tradicional dia das mentiras a 1 de Abril, já que Mercúrio é também um trapaceiro. E assim, em vez de apenas um, a festividade dura quatro dias, de 1 a 4 do quarto mês, acentuado ainda mais o elo numérico.

Conta-me uma história
Uma coisa, no entanto, é ter um conceito geral; outra bem diferente é dar significado e em particular ligar tudo de uma forma coerente. É aí que podem entrar os contos, histórias que dão um fio condutor narrativo e atribuem sentido de conjunto a uma série de práticas que, de outra forma, podiam ser apenas gestos desconexos com uma data em comum. Assim, ao jeito dos contos populares …

Era uma vez um primeiro dia de Abril confuso e cheio de risos. Nada parecia seguro, porque tudo podia ser uma partida, e eram muitos os que desatavam a rir sem motivo aparente. Alarmadas ou apenas curiosas, no dia seguinte as pessoas consultaram oráculos, lançaram dados, tiraram cartas e observaram os augúrios. E Maia, a ninfa das montanhas, declarou-se grávida e prestes a dar à luz. Um dia depois, ao longo das estradas, foram avistados cortejos de Lares Viales que, por entre canções, diziam aguardar o filho de Maia, o senhor dos caminhos, e convidavam quem os ouvia a juntar-se. Então as pessoas saudaram os deuses das estradas e ergueram moledros, vertendo oferendas sobre eles, e depois aprontaram-se para festejar o nascimento do deus. Prepararam comida, limparam as entradas das casas e fizeram grinaldas. E ao quarto dia do quarto mês, Maia deu à luz um filho, o hábil Mercúrio de dotes precoces, aclamado pelos Lares Viales, que espalharam a notícia. Nas ruas, as pessoas entregaram-se a jogos, teatro e partidas, enquanto em casa penduraram grinaldas nas portas e puseram as mesas, recheando-as de comida. Houve sacrifícios de manhã e de tarde, oferendas ao longo das estradas, cortejos e caminhadas e as pessoas visitavam-se umas às outras, entrando nas casas de vizinhos como se acabadas de chegar de uma viagem, partilhando comida.

Isto não é um relato histórico, um produto de uma revelação pessoal ou uma parábola, alegoria ou outro tipo de história com um propósito metafórico. É apenas e só um conto fictício que eu criei para dar codificação narrativa a práticas e ideias religiosas, para que tenham uma história que inspire e dê sentido em vez de serem apenas uma lista de coisas a fazer num dado dia. Neste caso, as partidas e humor do primeiro dia de Abril, a adoração de Maia no segundo, a veneração dos Lares Viales no terceiro e, ao quarto dia de Abril, a celebração do nascimento de Mercúrio com sacrifícios, grinaldas, comida e atividades relacionadas com ele, em casa, nas ruas e estradas.

Então foi assim…
Em linha com essa estrutura, o primeiro dia fez-se normalmente com algum humor – uma partida teria sido o ideal, mas o efeito surpresa perde-se se houver uma todos os anos. No segundo dia de Abril, realizei uma cerimónia formal a Maia, tanto no seu aspeto terreno como celestial, oferecendo-lhe porções de ingredientes usados para confecionar a comida que preparei para o aniversário de Mercúrio. No terceiro dia, fiz uma caminhada – pequena, dado o tempo de chuva – ergui moledros à beira da estrada e verti oferendas sobre eles. E a 4 de Abril, realizei duas cerimónia ao filho de Maia, uma de manhã e outra de tarde, oferecendo-lhe flores, comida e bebida. Uma caminhada ou volta de bicicleta teria sido uma boa atividade de tributo, mas o tempo não está para isso. Ainda assim, apostei no totoloto e deixei moedas em cruzamentos.

Este ano, no entanto, foi especial, dado que 4 de Abril foi também a primeira quarta-feira do mês, que é quando eu faço oferendas mensais a Mercúrio. Havia por isso que fazer algo de excecional.

Quatrogasmo
E a solução foi multiplicar as oferendas e gestos de tributo, enfatizando o número quatro sempre que possível. Assim, em cada um dos primeiros quatro dias de Abril, fiz quatro oferendas matinais a Mercúrio – uma porção de erva doce, uma de canela, outra de vinho e uma vela – deixei quatro moedas junto a cruzamentos e, no dia 3, ergui quatro moledros, vertendo sobre cada quatro oferendas diferentes – vinho, trigo, mel e canela.

Ludi Mercuriales 2018

O oratório doméstico, já com os tributos florais, e os quatro pratos diante dele, com o medronheiro do lado direito e licor a espreitar atrás do bolo de bolacha.

Pelo aniversário do deus, em vez de preparar um prato para ser partilhado com ele, preparei quatro, três deles caseiros: aletria, bolo de bolacha, semifrio de ananás e quatro pastéis de nata. À exceção do semifrio, são todos comuns ou tradicionais na cozinha portuguesa, havendo nisso um elemento de regionalização do culto. A aletria, por exemplo, tem origem árabe, pelo menos no nome – de al-itria – sendo por isso expressão do substrato islâmico da cultura portuguesa. E ao ser um doce típico do Natal, se serve para o nascimento de um deus, serve perfeitamente para outro, tendo-lhe eu acentuado o propósito mercurial optando por polvilhar a canela num padrão quadrangular de múltiplos cruzamentos.

A 4 de Abril, na primeira cerimónia, queimei as oferendas matinais – um gesto que tinha vindo a fazer todas as manhã desde o início do mês – e fiz quatro tributos florais a Mercúrio: flores e uma grinalda para o oratório doméstico, uma grinalda adicional para pendurar na porta e um medronheiro para entretanto plantar num terreno da família. No sacrifício da tarde, os quatro pratos foram consagrados, uma pequena porção de cada depositada no fogo sacrificial, e depois ritualmente desconsagrados ao ritmo de libações de licor de medronho e mel. Por fim, encerrada a cerimónia, a mesma bebida foi usada para quatro brindes a Mercúrio, seguidos de uma saída para comprar quatro apostas no totoloto e fazer um pequeno passeio urbano.

Foi, em suma, uma espécie de “quatrogasmo” (ou quatrorgasmo?). Porque o filho de Maia merece o esforço – e na volta aprecia o trocadilho.

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