Gestos de Ano Novo

Entrar com o pé direito é uma daquelas pequenas superstições modernas com raízes antigas que exprime a valorização atemporal da ideia de um bom começo. E fiel a essa noção, os primeiros dias do novo ano são para mim uma altura de múltiplos gestos rituais que, no conjunto, visam uma espécie de entrada de pé direito no novo ciclo de doze meses. A começar, claro está, pela cerimónia de 1 de Janeiro, que é das mais longa nas minhas práticas.

A longa lista
Em condições normais, quando assinalo uma data de relevância mensal – como as nonas ou idos – a cerimónia correspondente demora cerca de 10 a 15 minutos, sendo uma simplificação do meu rito romano, o qual reservo para festividades anuais e costuma alargar a cerimónia até aos 30 minutos. Repito: em condições normais. Quando é uma ocasião excepcional, a duração pode chegar à uma hora ou mais.

Foi o caso da cerimónia de Ano Novo deste ano. Não por ter acontecido algo de diferente, embora 2017 tenha sido afortunado em várias aspectos, como a publicação do meu primeiro livro e a conclusão de outro. A duração da cerimónia de 1 de Janeiro tem antes a ver com o número de deuses nela honrados, número esse que tem vindo a crescer nos últimos anos e que desta vez chegou aos dezasseis, para além dos Lares Familiares e Penates. São quase todos objecto de orações e oferendas específicas, o que naturalmente exige mais tempo – e já agora lenha, porque a fogueira tem que continuar a arder apesar da quantidade de bebida que nela é vertida.

Estruturalmente, a cerimónia é idêntica às de outras datas festivas anuais, com um início e final com homenagens a Jano, Vesta e Júpiter e, pelo meio, um convite, oração e entrega de oferendas consagradas à divindade principal – neste caso, Jano. À semelhança de outras celebrações anuais que ocorrem em dias de relevância mensal, há também um momento em que são queimadas as oferendas das calendas que foram previamente dadas a Jano, Juno, aos Lares Familiares e Penates durante as orações da manhã. E depois, onde em condições normais seguir-se-ia o encerramento, houve ainda uma lista de catorze divindades individuais que foram honradas com duas oferendas cada, a primeira como homenagem geral e a segunda com um pedido específico para o novo ano.

São elas Mercúrio, Maia, Quangeio, Juno, Hércules, Minerva, Diana, Apolo, Silvano, Nabia, Júpiter, Fortuna, Spes e Freyr, a juntar, volto a dizer, aos Lares Familiares e Penates, que recebem ainda uma grinalda que é pendurada sobre a lareira. No caso de Maia e Silvano, as oferendas não são lançadas ao fogo ritual, mas vertidas para pequenas taças circulares com terra, em consonância com a identidade terrestre dessas duas divindades. Embora, verdade seja dita, eu veja cada vez mais a mãe de Mercúrio como uma deusa que tem também um lado celestial, em grande parte graças à sua associação mitológica com uma das estrelas das Plêiades. E por falar em liminalidade, note-se a inclusão de Freyr, que em condições normais é adorado segundo um rito próprio que funde elementos nórdicos e latinos, mas, excepcionalmente, recebe oferendas segundo a práxis romana na cerimónia de Ano Novo. Por motivos práticos, acima de tudo.

A festa das vias
No dia 4 de Janeiro, há depois a Vialia, que não é uma celebração antiga, mas antes uma criação moderna da minha autoria focada em Mercúrio e nos Lares Viales. O sentido é simples: honrar o deus das vias e a sua hoste divina e pedir-lhes, de uma forma mais literal, segurança nas viagens durante o ano e, de um modo mais metafórico, ajuda a abrir os caminhos do sucesso. Claro que, como devoto de Mercúrio que sou, a data tem também relevância pessoal.

Pronto para a cerimónia de Vialia, 2018

Assim, na manhã de dia 4, tal como na manhã do dia anterior, que foi a primeira quarta-feira do mês, ofereci uma vela, erva doce, canela, vinho e flores ao filho de Maia. Depois realizei uma cerimónia formal onde homenageei primeiro Mercúrio e depois os Lares Viales com oferendas idênticas: bolachas pequenas, passas, noz, mel, canela e vinho. Ambos receberam ainda flores, mas em formatos diferentes, já que a Mercúrio ofereci uma grinalda que decora agora o oratório doméstico dele, enquanto aos Lares Viales dei uma mistura de pétalas, folhas e trigo que, finda a cerimónia, foram lançadas às estradas em pequenas porções durante um passeio. O ideal teria sido no decorrer de uma volta de bicicleta de modo a percorrer uma distância maior e ir erguendo moledros, mas, porque estava a chover, acabei por me ficar por um passeio pelos limites da cidade, com algumas paragens em cruzamentos ou intersecções.

Apolo e Jano outra vez
Há mais duas cerimónias formais antes de concluir as celebrações do Ano Novo: a Apotropalia a 7 de Janeiro e a Agonalia a 9.

A primeira é outra data festiva moderna da minha autoria e que tem como foco Apolo, aqui na qualidade de protector e propiciador da saúde cujas benções são pedidas para o novo ano. A cerimónia em honra dele segue o rito grego e inclui uma grinalda que é oferecida ao deus e depois pendurada sobre a porta da casa. Quanto à Agonalia, essa sim é uma festividade antiga, neste caso dedicada a Jano, que é assim, apropriadamente, aquele que abre e encerra as celebrações do Ano Novo. As oferendas que lhe foram feitas a 1 de Janeiro, assim como os pedidos, são repetidos na cerimónia de Agonalia.

A filha de Atlas
Claro que a isto juntam-se as oferendas mensais que se repetem de forma regular, neste caso a Nabia no dia 9 e a Júpiter, assim como aos Lares Familiares e Penates, no dia 13.

Neste último dia, vou passar a honrar também a mãe de Mercúrio, dado que, no culto ibérico que estou a construir, é o único membro da tríade que ainda não tem oferendas mensais regulares. E os idos parece-me ser o dia mais apropriado, em parte por ela ser uma ninfa das montanhas e por isso passível de ser honrada no pico do mês, tal como Júpiter, mas também por referência à Mercuralia de 15 de Maio, que para mim é cada vez mais uma festividade em honra de Maia. Também há na data uma alusão aos pais de Mercúrio, embora eu não esteja certo quanto à relação entre Zeus e Júpiter. E porque, conforme disse anteriormente, a filha de Atlas tem para mim uma certa liminalidade, tendo ao mesmo tempo um lado terrestre e outro celestial – de resto, apropriado para uma ninfa das montanhas – talvez alterne entre o modo como lhe dou as oferendas mensais, um mês por via do fogo, outro por intermédio da terra. Algo que é também apropriado tendo em conta a sobreposição com a Maia romana.

E de que serve tudo isto?
Okay, isto é tudo muito bonito, longo e por ventura complexo. Mas para que serve, afinal? Estou eu à espera de ter um ano de 2018 sem incidentes, azares, más notícias, doenças ou problemas só porque fiz toda uma série de cerimónias com muitas oferendas nos primeiros dias de Janeiro?

A resposta é não, não estou. Seria bom se assim fosse e aceito esse mar de rosas de bom grado se ele estiver disponível, obrigado. Mas conforme escrevi aqui e aqui, um sistema politeísta tende a ser descentralizado, não havendo um único deus em controlo de tudo, mas vários com interesses e objectivos diferentes ou mesmo contraditórios. Não espero por isso que os que eu honro no Ano Novo consigam fazer tudo, mas espero – ou pelo menos peço – que deem o seu contributo, mesmo que seja de reacção a algo que não podem prevenir, mas podem ajudar a ultrapassar. Um pouco como amigos e familiares, de quem eu não espero ajuda ou soluções para tudo, mas espero que estejam presentes quando mais importar, mesmo que seja apenas para conseguir reagir a um infortúnio que nem eu nem eles conseguimos evitar.

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