Politeísmo romano: uma definição alargada

Nos últimos tempos, nos recantos politeístas e pagãos do Twitter, tem havido um debate considerável sobre etnia, identidade, religião e exclusão ou não de indivíduos, em particular no que se refere ao politeísmo helénico, e parte desse debate resvalou para a blogosfera, originando textos como este. Ora, não me cabe a mim dizer aos outros como é que eles devem definir e estruturar a sua religião, embora eu possa exprimir a minha opinião sobre ela, mas o debate fez-me olhar com mais detalhe para a minha e de que forma ela converge ou diverge do que estava a ser discutido no Twitter. E isso levou-me eventualmente a definir o politeísmo romano moderno de uma forma mais extensa do que a que tenho usado até aqui e que é a seguinte:

O politeísmo romano é o culto a muitos deuses, romanos e outros, de acordo com a tradição ritual romana, sem uma ortodoxia prescrita, sem uma doutrina moral definida e dentro de um contexto cultural românico

Há aqui muito por analisar, por isso vamos por partes.

1. Culto a muitos deuses, romanos e outros
Não é uma religião limitada a um único panteão, mas aberta a qualquer divindade de qualquer lado, embora se possa, se assim se desejar, focar-se apenas em deuses tradicionalmente romanos. E esta característica significa que não se pode defini-la como a religião dos que adoram, seguem ou trabalham com divindades romanas, por um lado porque isso seria incompleto – também se pode adorar outros deuses – e porque, por outro, seria uma definição sem sentido, dado que as mesmas divindades também podem ser cultuados noutras religiões.

Eu insisto neste ponto, mas é claramente preciso fazê-lo: não estamos num contexto abraâmico em que a crença num conjunto de deuses exclui a crença em todos os outros e em que, por isso, se se acredita neles e/ou se se lhes presta culto, então é-se necessariamente de uma dada religião. Isto é um jogo aberto, não de soma-zero. A mera crença não é suficientemente indicativa – pode até não ser suficiente para dizer se alguém é politeísta – e os mesmos deuses podem ser adorados em diferentes tradições. Desse modo, a crença em e culto a divindades romanas não faz de alguém um politeísta romano. Pode, por exemplo, fazer de alguém um wiccan se se o fizer à maneira wiccan.

2. De acordo com a tradição ritual romana
Dito de forma simples, aquilo que faz de alguém um politeísta romano é como é que se presta culto aos deuses, i.e. quais as regras rituais que dão forma às práticas religiosas de uma pessoa. Por outras palavras, trata-se de uma religião ortopráxica, mas a que é que equivale ao certo a praxis romana moderna é algo ainda um pouco fluído; as minhas próprias ideias sobre o assunto têm mudado em alguns detalhes. Até porque está-se a falar de uma coisa que se está a reavivar e não a herdar do passado por via de uma tradição contínua, pelo que vão haver lacunas no nosso conhecimentos e mudanças de contexto – político, social e cultural – que vão certamente ter um impacto. Ainda assim, se eu tivesse que listar o que compõe a ortopraxia romana moderna, baseando-me na História e nas práticas correntes entre correligionários, eu diria o seguinte:

a) Assinalar as Calendas, Nonas e Idos de cada mês, usando as fases lunares ou datas solares fixas, segundo o calendário juliano ou o gregoriano. E prestar culto a divindades particulares em cada uma dessas datas: Jano e Juno nas Calendas, Júpiter nos Idos, os Lares Familiares nas três. Isto é só o básico e nada impede uma pessoa de acrescentar outros deuses aos que são cultuados em qualquer um ou em todos esses dias ou de levar a cabo outros sacrifícios mensais de acordo com devoções pessoais, tradições locais ou regionais, práticas domésticas ou comunitárias, cultura ou filiação filosófica;

b) Em todas as cerimónias em rito romano, mesmo que apenas semi-formais, a cabeça deve ser coberta com tecido, Jano é uma das primeiras divindades a ser honrada e Vesta uma das últimas. Uma vez mais, isto é só o básico e nada impede uma pessoa de adicionar outras divindades à abertura e encerramento das cerimónias, em consonância com tradições e devoções pessoais, locais, regionais, domésticas ou comunitárias, cultura e filiação filosófica;

c) Manter uma distinção entre deuses ou aspetos divinos celestiais, terrenos ou domésticos de um lado e infernais do outro: a mão principal com a qual são realizados os gestos rituais dirigidos aos primeiros é a direita, para os segundos é a mão esquerda; comida oferecida aos primeiros pode ser consumida pelos vivos depois de desconsagrada, a que é dada aos segundos não; oferendas dadas aos primeiros são queimadas em casa ou num altar/fogueira elevada, as que são oferecidas aos segundos são queimadas ou enterradas numa fossa;

d) Fogo ritual é desejável para queimar oferendas à maior parte das divindades – as aquáticas podem ser uma excepção – e deve ser usado sempre que possível. Se não for verdadeiramente possível fazê-lo, as oferendas consagradas devem ser depositadas em locais significativos e apropriados;

e) Antes do encerramento das cerimónias, deve-se recorrer a divinação para descortinar se os deuses estão (in)satisfeitos ou fazer uma oferenda expiatória;

f) Pelo menos nas cerimónias mais formais, as oferendas principais – isto é, as que são dadas à divindade a quem o sacrifício é dedicado – são consagradas sendo polvilhadas com trigo, farinha de trigo ou farinha de trigo com sal, juntamente com uma pequena oração cuja redação é da responsabilidade do indivíduo, família ou comunidade;

g) Por fim, as cerimónias exigem limpeza física, pelo que pelo menos as mãos e a cara devem ser previamente lavadas.

Se se fizer todas estas coisas – não apenas algumas, mas todas – e se elas constituírem pelo menos a maioria das práticas religiosas de uma pessoa, então pelo menos para mim esse indivíduo será um politeísta romano, mesmo que os deuses a que ele preste culto sejam quase todos não-romanos. Se bem que, note-se, alguns deles sê-lo-ão necessariamente, já que, conforme listado acima, a ortopraxia requer sacrifícios mensais a Jano, Juno e Júpiter, para além de oferendas de abertura e encerramento a Jano e Vesta, pelo que mesmo que todas as restantes divindades sejam de diferentes panteões tradicionais, estar-se-á ainda assim a prestar culto a muitos deuses, romanos e outros.

3. Sem uma ortodoxia prescrita
Se o antigo politeísmo romano tinha uma ortopraxia, não tinha no entanto uma ortodoxia e o mesmo deve aplicar-se à versão moderna da religião. Não quer dizer que não havia ou que não há crenças religiosas, que não há fé, mas apenas que elas não são reguladas e podem variar dependendo das experiências, tradições, cultura ou persuasão filosófica de indivíduos e grupos.

Os deuses são mortais ou imortais? São moralmente perfeitos ou imperfeitos? Comunicam connosco, como e com que propósito? Há deuses dos quais nada sabemos? A divindade A é a mesma que a divindade B ou elas são distintas? Como é que defines um deus e que entidades incluis no conceito? A alma existe? Se sim, o que é que ela é e como é que ela opera? Há vida depois da morte? Se sim, como é que funciona e a que é que corresponde?

Estas e outras questões estão abertas à interpretação e diferentes cultores responderão a elas de forma diferente. E não há problema nenhum com isso! Continuarão a ser politeístas se acreditarem em e prestarem culto a muitos deuses, continuarão a ser meus correligionários se o fizerem à maneira romana e isso constituir a maioria das suas práticas religiosas. Dito de forma simples, o politeísmo romano é uma religião que pode incluir muitas filosofias e teologias, não apenas uma que é elevada ao estatuto de ortodoxia universal. Diferentes indivíduos, grupos, famílias e comunidades terão a sua.

Caso alguém se esteja a perguntar se a necessidade de crença em muitos deuses não constitui já um tipo de doxa regulada, a resposta a isso é que acreditar em muitas divindades refere-se ao conceito básico politeísmo enquanto categoria religiosa geral. Por outras palavras, é algo que precede a definição de politeísmo romano, que é extraída dessa categoria e dos seus critérios delimitativos, estando por isso a crença já pressuposta. Se alguém, livre e legitimamente, não corresponder a esses critérios, então essa pessoa não fará parte da categoria geral de politeísmo; se corresponder, o passo seguinte será determinar que tipo de politeísmo, que é onde entram religiões específicas e as suas definições.

4. Sem uma doutrina moral definida
Este é talvez o ponto mais contencioso, porque estamos habituados à ideia de que religião equivale a regras morais. Mas o antigo politeísmo romano não tinha escrituras sagradas e existia assim sem o mecanismo pelo qual pudesse fixar uma doutrina moral. É verdade que havia pessoas que escreviam textos a elogiar ou a condenar o comportamento humano e havia também costumes e normas tradicionais que determinavam o que era ou não apropriado. Eis, no entanto, o problema…

Tem-se tendência a confundir a parte pelo todo. Com frequência, lemos os escritos de alguém como Cícero ou Séneca e assumimos que aquilo que eles dizem sobre os deuses ou a moral é uma doxa universal do politeísmo romano, mas isso é uma falácia. O que Cícero e outros escreveram eram as suas perspectivas, as de membros da elite. Eram certamente partilhadas por outros, mas não eram universais ou obrigatórias, não eram os ensinamentos oficiais do politeísmo romano.

Por outras palavras, não eram escrituras sagradas, mas textos opinativos baseados quer na corrente filosófica na qual o autor se inscrevia, quer nas normas e costumes tradicionais da sua comunidade. Mas diferentes pessoas tinham diferentes persuasões filosóficas, pelo que tal como em matéria de ortodoxia isso podia resultar numa diversidade teológica, podia igualmente originar diferentes noções morais. Ou se a perspectiva moral fosse baseada em normas tradicionais, para além da possibilidade de chocar com correntes filosóficas, essas normas podiam naturalmente mudar à medida que a própria sociedade mudava.

Portanto, não havia cristalização, fonte universal, visões absolutas. Quaisquer que fossem os valores predominantes ou defendidos eles podiam, é claro, ser religiosamente expressos, como no caso do culto a virtudes específicas, mas à medida que as mentalidades e como tal os valores evoluíam, o mesmo acontecia com a sua expressão religiosa, tanto pela reinterpretação de formas antigas, como pela criação de ou recurso a novas.

E tal como a ausência de uma ortodoxia significa apenas que os politeístas romanos não têm crenças reguladas, também a falta de uma doutrina moral definida equivale tão somente à ausência de um código de conduta universal dado pelos deuses para regular o comportamento diário. Em vez disso, o que há é variação ao longo das mesmas linhas que a crença. A inspiração divina é um factor, sem dúvida, mas trata-se de inspiração, não de decretos, e diferentes divindades inspiram diferentes coisas, ao que se somam contributos de natureza filosófica, cultural, comunitária ou social. E se a moralidade não é uma matéria de mandamentos divinos, daquilo que os deuses querem que (não) façamos na nossa vida quotidiana, então ela resume-se a um assunto da sociedade humana a ser discutido e determinado pelos seus membros, em toda a sua diversidade. Dito de forma simples, a moralidade é uma matéria social e não religiosa; não é determinada pela religião, embora possa ser expressa por intermédio dela.

5. Dentro de um contexto cultural românico
Eis outro detalhe sobre o antigo politeísmo romano: era indistinto da vida e identidade comunitárias. Não era uma religião que se escolhesse e à qual portanto se convertesse, mas uma em que se nascia, herdando-se os deveres familiares e como tal religiosos e cívicos correspondentes. E desse modo, era também uma religião ligada a uma cultura. Significava ter determinados laços sociais e políticos, mas também, pelo menos até certo ponto, uma língua e cultura específicas.

Isto coloca desafios ao politeísta romano moderno. Por um lado, porque a ideia de ser algo inerente à família, Estado e cultura choca com a liberdade religiosa moderna, que está assente no direito individual a escolher uma religião ou nenhuma e numa separação entre cidadania e filiação religiosa. E, por outro lado, há o facto histórico de que a unidade política e cultural romana já não existe: o que em tempos foi o império fragmentou-se em múltiplos Estados e a língua e cultura latina seguiu pelo mesmo caminho, fragmentando-se em dialetos regionais dos quais nasceram os atuais idiomas românicos.

Em termos práticos, isto dissolve qualquer elo unívoco que se queira estabelecer entre religião, cultura e nacionalidade. Enquanto o termo helenos está ligado a um único país (Grécia) ou etnia (gregos), permitindo assim uma sobreposição de diferentes camadas identitárias – a religiosa, a cultural e a nacional – não há qualquer correspondência igualmente simples no caso do politeísmo romano, pelo motivo de que não há uma, mas várias línguas e culturas latinas: a portuguesa, a asturo-leonesa, castelhana, aragonesa, catalã, occitana, francesa, romanche, sardenha, lígure, italiana, romena – e outras mais, para além de variantes extra-europeias criadas pela colonização europeia de África, Ásia e América. Se se quiser pois que o politeísmo romano moderno esteja culturalmente ligado, então ele vai ser bastante mais universal do que a sua versão antiga graças ao desenvolvimento e expansão geográfica de múltiplas línguas e culturas latinas.

E deve estar culturalmente ligado? A minha resposta é sim. Ao contrário do elo político, que pode chocar com a liberdade religiosa moderna, uma ligação cultural é ao mesmo tempo consistente com o passado e inteiramente possível num contexto moderno, em especial se se tiver em conta que a cultura não é genética, mas adquirida, pelo que quem não seja nativo a uma pode fazer o esforço de adoptá-la.

Note-se que ter uma cultura latina não faz de alguém um politeísta romano, pois caso contrário todos os portugueses, espanhóis, franceses ou italianos sê-lo-iam por inerência. O critério definidor é a ortopraxia, não a nacionalidade, etnia ou sequer crenças. Mas a cultura fornece um contexto: uma língua latina para uso em cerimónias religiosas, uma rede de tradições e costumes que se misturam com as tuas práticas e imbuem-nas de uma qualidade quotidiana por força de serem parte de uma cultura viva e quotidiana, por oposição a uma recriação ou encenação de uma cidade-Estado passada e o seu aparato social.

Uma nota sobre colonialismo
Enquanto que para os europeus o elo cultural pode vir com alguma naturalidade, o mesmo pode não ser verdade noutras partes do mundo, porque lá as línguas e culturas europeias são produto do colonialismo e da eliminação violenta de civilizações nativas. Para os que se encontram nessa situação, as opções são várias: não ser um politeísta romano, o que é legítimo; seguir duas tradições em separado, praticando o politeísmo romano em conjunto, mas sem misturar com religiões nativas; ou optar por uma fusão dos dois em que se recorre à ortopraxia contextualizada numa cultura latina (e.g. espanhol) e presta-se culto a deuses romanos e não-romanos em conjunto.

Como exemplo, isso é um pouco o que eu faço, embora a uma distância cronológica maior. Isto porque o latim não é nativo à península ibérica, mas foi trazido pelos exércitos e colonos romanos, suplantando identidades, línguas e culturas nativas. Os bascos são provavelmente o que resta da Ibéria pré-romana e depois houve invasões posteriores e camadas culturais subsequentes que foram acrescentadas. Assim, ao ligar a minha prática romana politeísta ao meu contexto nativo português, o resultado é, sem surpresa, uma mistura: há elementos de cultura árabe (em concreto, no vocabulário e na culinária), porque os portugueses são latinos parcialmente arabizados, e o panteão é misto, com divindades romanas tradicionais a serem adoradas juntamente com pré-romanas. É o caso de Reue, que eu tenho como membro do séquito de Júpiter, ou Quangeio, companheiro de Mercúrio no meu culto ibérico ao filho de Maia.

E para lhe juntar uma imagem

Politeísmo romano

Resumindo, a crença em e culto a muitos deuses faz de ti um politeísta enquanto categoria geral, prestar culto de acordo com a praxis ritual romana faz de ti um politeísta romana e uma língua e cultura latina, nativa ou adoptada, fornece um contexto cultural que liga as tuas práticas religiosas a uma cultura viva e quotidiana derivada da da versão antiga da religião. Tal como expresso de forma simplificada no esquema acima.

Terá isto como resultado uma religião diversa com diferentes teologias, diferentes filosofias, diferentes perspectivas morais e ligada a diferentes culturas e línguas, já que há tantas opções, e por isso com especificidades nacionais ou regionais? Certamente! Mas porque é que isso haveria de ser um problema? E como é que isso seria uma quebra com um passado que também era diverso, com diferentes famílias, cidades, províncias e comunidades a terem práticas específicas? Isto é unidade na diversidade, unidade por via de uma praxis ritual básica e comum, e não unidade na uniformidade.